Blog do IFZ | 08/03/2026
A cooperação internacional voltada ao enfrentamento da fome e ao fortalecimento da agricultura familiar ganhou novo impulso com a assinatura de um acordo entre o governo brasileiro e a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). O entendimento amplia um programa que, ao longo de quase duas décadas, vem aproximando experiências de políticas públicas brasileiras das necessidades de países do Sul Global, especialmente na América Latina e no Caribe.
O novo instrumento foi firmado em Brasília durante a 39ª Conferência Regional da FAO para a América Latina e o Caribe. Assinaram o documento o embaixador Ruy Pereira, diretor da Agência Brasileira de Cooperação (ABC), órgão vinculado ao Ministério das Relações Exteriores do Brasil, e a diretora-geral adjunta da FAO, Beth Bechdol. O acordo estabelece os parâmetros institucionais que orientarão novos projetos, incluindo mecanismos de coordenação, definição de prioridades e intercâmbio técnico entre instituições.
A iniciativa amplia o Programa de Cooperação Sul-Sul Brasil–FAO, estruturado sobre o compartilhamento de conhecimento e de experiências de políticas públicas voltadas à segurança alimentar, à agricultura familiar e ao desenvolvimento rural sustentável. A perspectiva central consiste em adaptar iniciativas já testadas no Brasil às realidades sociais e produtivas de outros países do Sul Global, respeitando suas prioridades e seus processos institucionais.
Durante a cerimônia, o embaixador Ruy Pereira recordou que o acordo consolida uma trajetória de quase vinte anos de colaboração e inaugura um período de expansão das iniciativas conjuntas. Segundo ele, a cooperação internacional conduzida pelo Brasil apoia-se em princípios de solidariedade, horizontalidade e benefício mútuo entre os países participantes. Trata-se de um modelo no qual a troca de experiências substitui relações hierárquicas tradicionais, permitindo que políticas públicas sejam adaptadas de maneira cuidadosa às condições locais.
Beth Bechdol destacou a contribuição brasileira para a circulação de conhecimento técnico e institucional em temas como combate à fome e redução da pobreza. Na avaliação da dirigente da FAO, o Brasil construiu ao longo das últimas décadas um repertório consistente de políticas sociais e agrícolas capazes de orientar experiências em diferentes contextos nacionais.

Experiência acumulada
A parceria entre o Brasil e a FAO remonta a mais de 18 anos de trabalho contínuo. Nesse período, diversos projetos foram implementados na América Latina e no Caribe, região que concentrou inicialmente os esforços da cooperação.
Um dos eixos mais conhecidos envolve a alimentação escolar. A metodologia de Escolas Sustentáveis, inspirada em programas brasileiros de compras públicas de alimentos e educação nutricional, contribuiu para capacitar mais de 40 mil profissionais. O impacto alcança cerca de 1,6 milhão de estudantes distribuídos em mais de 23 mil escolas da região.
Outra realização relevante foi a criação da Rede de Alimentação Escolar Sustentável (RAES), que reúne atualmente 18 países. A rede promove o intercâmbio de experiências, a formação técnica e o desenvolvimento de políticas públicas voltadas à alimentação adequada de estudantes, integrando produção local de alimentos e programas educacionais.
Na área produtiva, destaca-se o projeto +Algodão, voltado ao fortalecimento de cadeias agrícolas e à melhoria da renda rural. A iniciativa já beneficiou mais de 14 mil famílias agricultoras e aproximadamente 10 mil produtores. O trabalho envolve a difusão de práticas agronômicas sustentáveis, acesso a mercados e inovação tecnológica, com participação de mais de uma centena de instituições parceiras.
Também foram alcançados avanços na governança da terra e na modernização de sistemas de informação territorial em países latino-americanos. Esse esforço contribui para políticas agrárias mais transparentes e para o uso sustentável dos recursos naturais, aspectos fundamentais para a estabilidade social no meio rural.
Em regiões particularmente vulneráveis às mudanças climáticas, como o chamado Corredor Seco da América Central, projetos conjuntos introduziram inovações produtivas destinadas a ampliar a resiliência das comunidades agrícolas. Técnicas adaptadas ao clima semiárido e estratégias de diversificação produtiva têm sido incorporadas gradualmente às políticas públicas locais.
Novas frentes de atuação
O acordo recém-assinado abre espaço para novas iniciativas e para a ampliação geográfica da cooperação. Entre as frentes de trabalho já em desenvolvimento estão programas voltados aos sistemas agroalimentares urbanos. O objetivo consiste em melhorar o acesso a alimentos saudáveis em áreas urbanas vulneráveis, por meio de políticas públicas de abastecimento e circuitos locais de produção e distribuição.
Outra linha de atuação concentra-se no aperfeiçoamento dos sistemas públicos de abastecimento alimentar. A proposta envolve a organização de estoques estratégicos, mecanismos de compra pública e políticas de apoio à agricultura familiar que garantam oferta estável de alimentos para a população.
A participação de instituições brasileiras desempenha papel central nesse processo de cooperação. Diversos órgãos compartilham experiências acumuladas em políticas públicas e gestão de programas sociais. Entre eles estão o Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, a Companhia Nacional de Abastecimento e a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária.
Também participam instituições voltadas à extensão rural e à produção agrícola, como a Empaer da Paraíba e a Associação Brasileira dos Produtores de Algodão. A articulação entre essas organizações permite transferir conhecimento técnico acumulado em políticas agrícolas, extensão rural, compras públicas e inovação científica.
Plataforma internacional de cooperação
Nesse conjunto de iniciativas, a FAO atua como plataforma de articulação internacional. Com mais de quatro décadas de experiência na promoção da cooperação Sul-Sul, a organização contribui para adaptar práticas bem-sucedidas a diferentes contextos institucionais e produtivos. Sua atuação envolve coordenação técnica, apoio metodológico e mediação entre os países participantes.
A cooperação Sul-Sul trilateral reúne três elementos principais. O primeiro é o país que compartilha a experiência, neste caso o Brasil. O segundo é o país ou grupo de países que recebe e adapta a iniciativa. O terceiro elemento é a organização internacional que facilita o intercâmbio e apoia a implementação das políticas.
Esse modelo tem permitido a difusão de soluções práticas para problemas comuns aos países em desenvolvimento, sobretudo nas áreas de produção agrícola, abastecimento alimentar e inclusão social no campo.
Perspectivas
Com a renovação do acordo, Brasil e FAO pretendem ampliar o alcance das iniciativas existentes e incorporar novos parceiros do Sul Global. A estratégia envolve a continuidade do intercâmbio técnico, a formação de redes regionais e a construção de políticas públicas baseadas em evidências e experiências concretas.
A trajetória conjunta das duas instituições demonstra que o combate à fome e à pobreza exige cooperação constante entre governos, organismos internacionais e instituições de pesquisa. O compartilhamento de conhecimento técnico, aliado ao respeito às especificidades de cada país, tem permitido transformar experiências nacionais em instrumentos de desenvolvimento para outras regiões do mundo.
Ao reforçar esse caminho, o novo acordo reafirma a importância da cooperação entre países do Sul como instrumento de construção de políticas públicas mais justas e eficazes, capazes de promover segurança alimentar, inclusão produtiva e desenvolvimento rural sustentável.
