Lauro Mattei / NECAT Texto para Discussão 065/2025 | 11/02/2025
No momento, ocorre um amplo debate no país sobre o comportamento recente dos preços dos alimentos, inclusive com uma politização indevida do assunto.
Decorre daí a importância de se ter presente que essa questão vem ganhando distintos contornos diante de uma série de fatores que, combinados ou não, acabam interferindo nessa temática em discussão.
Dentre alguns desses fatores mencionados por analistas das mais variadas correntes interpretativas, destacam-se: a queda da produção primária em função das mudanças climáticas (enchentes no Sul, seca no Nordeste e em outros locais); o comportamento da oferta e da demanda dos principais produtos alimentares no mercado internacional; o padrão do comércio alimentar, assentado na moeda norte-americana (dólar); e as políticas específicas de cada país para a esfera alimentar, etc.
Outro ponto relevante nesse debate diz respeito à adoção, por parte dos governos nacionais, de políticas de proteção do mercado alimentar doméstico, como vimos em exemplos de diversos países durante a pandemia da Covid-19. Nesse caso, sobressai a importância das políticas de manutenção de estoques reguladores de caráter público, cuja função é abastecer o mercado doméstico em períodos de crise alimentar e evitar a expansão de movimentos especulativos nos preços de determinados produtos alimentares essenciais.
Esse é um tema que tem se revelado muito caro à filosofia econômica neoliberal, que prega a não intervenção dos governos nos mercados. É bastante provável que a falta de estoques reguladores, no momento, esteja contribuindo para a aceleração dos preços, uma vez que, nos últimos períodos, o Brasil praticamente desmantelou a estrutura pública responsável pela manutenção de estoques reguladores, conforme veremos mais adiante.
Decorre daí a importância dessa questão particular, uma vez que o custo da alimentação – interna ou externa ao domicílio – tem grandes impactos no custo de vida, especialmente nas camadas mais pobres da população.
Além disso, devem-se registrar os equívocos daqueles que imaginam que uma política monetária com juros elevados seria suficiente para frear a escalada dos preços alimentares. O fato é que grande parte das commodities alimentares tem seus preços definidos fortemente pela oferta, tanto no mercado doméstico quanto no mercado internacional. O exemplo recente do Brasil é muito revelador nessa direção, uma vez que as taxas de juros atingiram patamares bastante elevados e, mesmo assim, os preços dos alimentos não recuaram e, pior ainda, continuaram pressionando o índice de inflação.
Nesse contexto, o objetivo deste artigo é contribuir para o debate atual sobre o papel dos preços dos alimentos no processo inflacionário brasileiro. Para tanto, além desta breve introdução, o texto está organizado em mais quatro seções. A primeira delas apresenta uma breve análise sobre a trajetória recente da inflação no país para, na sequência, a segunda seção discutir o comportamento e a particularidade do grupo de alimentos e bebidas na composição geral da inflação do país, com base nos dados do IPCA-IBGE. A terceira seção apresenta alguns elementos explicativos sobre a elevação dos preços dos alimentos. Já a quarta seção contém as considerações finais do trabalho, com ênfase nas proposições do governo atual.
Lauro Mattei é Professor Titular do curso de Economia e Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Administração, ambos da UFSC. Coordenador-Geral do NECAT-UFSC e Pesquisador do OPPA/CPDA/UFRRJ.