CIRADR+20: terra, justiça e desenvolvimento rural no centro da agenda global

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Blog do IFZ | 24/02/2026

Entre os dias 24 e 28 de fevereiro de 2026, Cartagena, na Colômbia, sedia a Conferência Internacional sobre Reforma Agrária e Desenvolvimento Rural (CIRADR+20), retomando, vinte anos depois, o espírito da histórica reunião CIRADR realizada em Porto Alegre, em 2006. A conferência consolida-se como um espaço multilateral de diálogo e articulação voltado à promoção do acesso equitativo à terra, à justiça social no meio rural e ao desenvolvimento sustentável — temas que permanecem centrais para a erradicação da fome e da pobreza no mundo.

A CIRADR original contribuiu para moldar compromissos internacionais sobre governança da terra, segurança alimentar e desenvolvimento rural inclusivo. Duas décadas depois, o contexto global apresenta novos desafios: mudanças climáticas, pressão crescente sobre os recursos naturais, desigualdades persistentes e transformações nos sistemas agroalimentares. A CIRADR+20 surge, assim, como um momento estratégico para renovar compromissos e fortalecer políticas públicas voltadas ao campo.

A conferência reúne uma ampla diversidade de atores: governos, organizações internacionais, agricultores familiares, povos indígenas, comunidades tradicionais, mulheres rurais, juventudes, academia, organizações da sociedade civil e parceiros de desenvolvimento. Essa pluralidade reflete o reconhecimento de que a governança da terra e o desenvolvimento rural exigem abordagens integradas, participativas e baseadas em direitos.

Entre os principais temas em debate, destacam-se:

  • direitos à terra e acesso equitativo aos recursos naturais, como base para a segurança alimentar e a redução das desigualdades;
  • desenvolvimento rural sustentável e resiliente ao clima, com a promoção de sistemas produtivos mais adaptados aos riscos ambientais;
  • políticas inclusivas para agricultores familiares e pequenos produtores, fortalecendo sua capacidade produtiva, a geração de renda e o acesso a mercados;
  • justiça social e oportunidades econômicas para comunidades rurais, especialmente aquelas historicamente marginalizadas.

A programação da CIRADR+20 reflete a complexidade desses desafios. Os debates abrangem desde a construção de uma visão integrada do território e a criação de sistemas de justiça agrária até o papel da juventude rural na transformação dos sistemas alimentares e a atuação das mulheres nos processos de reforma agrária. Também ganha destaque o lançamento do relatório global sobre o Estado da Governança e da Tenência da Terra, reforçando a importância de dados e evidências para orientar políticas públicas.

Outros painéis exploram as interconexões entre terra, água, alimentação e bem-estar, bem como as relações entre justiça agrária, ambiental e climática. Questões estruturais — como a geopolítica dos recursos naturais, a degradação dos solos e os vínculos entre governança da terra, paz e desenvolvimento sustentável — também integram a agenda de discussões.

A conferência dedica atenção especial à América Latina e ao Caribe, região marcada pela forte concentração fundiária, por desigualdades históricas e pela relevância da agricultura familiar. Iniciativas voltadas à democratização do acesso à terra, à inovação jurídica e ao fortalecimento institucional são apresentadas como caminhos para uma transformação estrutural do meio rural.

Para o Instituto Fome Zero, a CIRADR+20 reafirma uma mensagem fundamental: não é possível erradicar a fome sem enfrentar as desigualdades no acesso à terra, aos recursos produtivos e às oportunidades no campo. A governança justa da terra, combinada com políticas de proteção social, apoio à agricultura familiar e promoção de sistemas alimentares sustentáveis, constitui um dos pilares para a construção de sociedades mais inclusivas, resilientes e livres da fome.

Ao renovar compromissos globais e promover o diálogo entre diferentes atores, a CIRADR+20 reforça que a transformação rural permanece como uma agenda estratégica para o desenvolvimento, a justiça social e a segurança alimentar no século XXI.