Blog do IFZ | 17/03/2026
O novo informe da FAO, Implicações Globais do Conflito de 2026 no Oriente Médio para o Setor Agroalimentar: Impactos no Comércio de Energia e Fertilizantes e na Segurança Alimentar (Global Agrifood Implications of the 2026 Conflict in the Middle East: Impacts on Energy and Fertilizer Trade, and Food Security), sobre as implicações agroalimentares do conflito de 2026 no Oriente Médio, reforça um ponto que o Instituto Fome Zero vem destacando há anos: a segurança alimentar não depende apenas da produção de alimentos, mas também da estabilidade energética, logística e geopolítica.
O documento demonstra que o fechamento do Estreito de Ormuz — corredor por onde transitavam cerca de 20 milhões de barris por dia, o equivalente a aproximadamente um quarto do comércio marítimo global de petróleo — provocou uma ruptura cujos efeitos se estendem muito além da região. O Golfo também concentra parcela decisiva do comércio internacional de gás natural liquefeito e de fertilizantes, o que converte o conflito em uma ameaça direta ao funcionamento dos sistemas agroalimentares globais.
A nota evidencia que a conexão entre energia e fertilizantes constitui, na atualidade, uma das engrenagens mais sensíveis da economia mundial. Como o gás natural é insumo-chave para a produção de fertilizantes nitrogenados, qualquer choque energético converte-se rapidamente em choque agrícola. Segundo a FAO, entre 30% e 35% das exportações globais de ureia e entre 20% e 30% das exportações de amônia provêm da região do Golfo, ao passo que até 30% do comércio global de fertilizantes transita pelo Estreito de Ormuz.
Com instalações atingidas, unidades produtivas paralisadas e o tráfego praticamente interrompido, cerca de um terço do comércio de fertilizantes ficou comprometido, elevando os preços e gerando apreensão quanto à próxima safra em diferentes partes do mundo.
Os preços já começaram a reagir. Na primeira semana de março, as cotações da ureia no Oriente Médio registraram alta superior a 19%, enquanto outros fertilizantes também apresentaram elevação. O problema é que esse encarecimento não afeta apenas o custo imediato de produção: ele pode levar agricultores a reduzir o uso de insumos, comprometendo a produtividade futura, pressionando os preços dos alimentos e ampliando a vulnerabilidade de países importadores líquidos de alimentos.
A FAO assinala que, neste momento, o mundo ainda dispõe de oferta suficiente de alimentos, mas alerta que uma crise prolongada pode corroer rapidamente essa margem de segurança.
Esse mesmo alerta aparece de forma particularmente clara nas declarações de Máximo Torero, economista-chefe da FAO, ao podcast da organização.
Segundo ele, o atual conflito “reconecta” três mercados que muitos analistas costumam tratar de forma dissociada: o de energia, o de fertilizantes e o dos sistemas agroalimentares.
Torero destaca que o choque já elevou significativamente os preços do petróleo e da ureia e que, caso a interrupção se prolongue por mais de dois ou três meses, os efeitos poderão incidir diretamente sobre a próxima estação de plantio. Em sua avaliação, o problema central não se limita ao impacto imediato, mas reside no risco de comprometer o futuro: menor disponibilidade de fertilizantes no presente pode resultar em menor produção agrícola posteriormente.
A análise regional da FAO também contribui para compreender por que os efeitos serão desiguais. Os países do Golfo, altamente dependentes da importação de alimentos, enfrentam risco imediato de abastecimento. Em diversas economias da região, entre 70% e 90% dos alimentos consumidos são provenientes do exterior.
Ao mesmo tempo, países da Ásia, da África e da América Latina poderão sentir os efeitos por diferentes canais: aumento dos custos de energia, fertilizantes mais caros, redução da renda externa e maior pressão sobre a inflação de alimentos. O Brasil surge como um caso relevante, por combinar forte protagonismo exportador no setor agroalimentar com elevada dependência de fertilizantes importados. Ainda que o impacto não se manifeste de imediato sobre a colheita atual, ele pode emergir com intensidade no próximo ciclo agrícola.
Torero também chama a atenção para um ponto essencial: diferentemente da Guerra na Ucrânia, que afetou diretamente a oferta de cereais, o atual conflito atua sobretudo por meio dos mercados de energia e fertilizantes. Isso torna a crise menos visível no primeiro momento, mas potencialmente muito mais perigosa no médio prazo. Por essa razão, a principal recomendação da FAO permanece de natureza diplomática e logística: restabelecer a navegação no Estreito de Ormuz com a maior brevidade possível.
Paralelamente, o documento propõe rotas alternativas, monitoramento mais rigoroso dos mercados, apoio emergencial a agricultores, suporte a países importadores líquidos de alimentos e, no médio prazo, diversificação de fornecedores, maior coordenação regional e investimentos em resiliência estrutural.
Mensagens principais
- O conflito no Golfo afeta simultaneamente energia, fertilizantes e sistemas agroalimentares.
- O Estreito de Ormuz constitui um gargalo estratégico para petróleo, gás e fertilizantes.
- Até um terço do comércio global de fertilizantes foi interrompido pela crise.
- Fertilizantes mais caros hoje podem significar menor produção agrícola amanhã.
- Máximo Torero alerta que o maior risco reside no impacto sobre a próxima safra.
- Países importadores líquidos de alimentos e pequenos produtores figuram entre os mais vulneráveis.
- A resposta exige diplomacia, rotas alternativas, apoio emergencial e fortalecimento da resiliência estrutural.
Baixe aqui o informe da FAO “Global Agrifood Implications of the 2026 Conflict In The Middle East: Impacts on Energy and Fertilizer Trade, and Food Security“
