Da lavoura à mesa: o custo bilionário da crise climática e o alerta para a produção de alimentos

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O fenômeno do El Niño que se aproxima poderá ter intensidade muito forte e trará impactos significativos no segundo semestre deste ano

Clayton Campagnolla | Mídia Ninja | 08/07/2026

A produção agropecuária enfrenta sua maior ameaça: a crise climática. Eventos extremos, como secas prolongadas, ondas de calor e excesso de chuvas, deixaram de ser raridade para se tornarem fatores constantes de redução da produtividade e perdas massivas nas culturas. Embora o impacto seja generalizado, relatórios de vulnerabilidade e estudos da Embrapa indicam que o mapa da produção de comida no país está sendo “severamente redesenhado”, com consequências desproporcionais para os produtores mais vulneráveis, o que acentua a desigualdade, a pobreza e a insegurança alimentar.

Os números que dimensionam o impacto são alarmantes. A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) estima que, nas últimas três décadas, as perdas globais na produção agrícola e pecuária devido a desastres climáticos somam impressionantes US$ 3,8 trilhões. Juntam-se a isso custos ocultos de US$ 12 trilhões por ano, gerados por degradação ambiental, emissões de gases de efeito estufa (GEE) e o impacto de dietas inadequadas na saúde pública.

No cenário nacional, os dados não são menos graves. Segundo o Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento, o Brasil perde, em média, R$ 110 bilhões por ano devido a eventos climáticos extremos. Dados da Confederação Nacional dos Municípios (CNM) revelam que, apenas entre 2013 e 2022, o setor agropecuário brasileiro sofreu perdas de R$ 287 bilhões devido à alternância entre seca e excesso de chuvas. Essa instabilidade afetou gravemente a produção de alimentos essenciais, como arroz, feijão, milho e mandioca.

As mudanças climáticas provocam alterações físicas, biológicas e geográficas profundas na produção brasileira de alimentos. Nas lavouras, o calor extremo encurta o ciclo das plantas e prejudica o florescimento, resultando na queda do rendimento de grãos. Além disso, a distribuição geográfica e a severidade de pragas e patógenos são alteradas, elevando o potencial de perdas.

Na pecuária, as altas temperaturas afetam diretamente o bem-estar animal. O estresse térmico reduz a taxa de fertilidade, o ganho de peso e a produção de leite e carne. Secas prolongadas murcham as pastagens naturais, reduzindo a disponibilidade de forragem, e esgotam mananciais, levando à morte de animais por desidratação. Inundações e temperaturas elevadas também criam ambientes ideais para a multiplicação de vetores como mosquitos, carrapatos e moscas, que transmitem doenças graves aos rebanhos.

Vulnerabilidade regional

O impacto não é uniforme em todo o território. A região Nordeste é considerada a mais vulnerável social e ambientalmente. O atraso drástico no início das chuvas e o risco de desertificação do semiárido afetam culturas cruciais para a segurança alimentar, como feijão, milho e mandioca, produzidos em grande parte pela agricultura familiar.

No Centro-Oeste, a combinação de calor extremo e atraso nas chuvas resulta em perdas massivas de produtividade. Esse cenário inviabiliza a “safrinha” do milho, plantado após a colheita da soja. Como o milho é o principal componente da ração animal, a redução de sua produção pressiona o aumento do preço das carnes.

O Sul, por sua vez, enfrenta alta variabilidade e imprevisibilidade, alternando anos de secas devastadoras com enchentes históricas. As produções de arroz, trigo, soja, leite e proteína animal são as mais afetadas. O Rio Grande do Sul e o Paraná lideram o histórico de acionamento de seguros agrícolas devido a perdas totais de lavouras, seja no sistema de arroz inundado ou na soja dessecada pelo sol e baixa umidade.

O fenômeno do El Niño que se aproxima poderá ter intensidade muito forte e trará impactos significativos no segundo semestre deste ano. A região Sul terá chuvas acima da média, com maior frequência de frentes frias e temporais com ventania. No Centro-Oeste, as temperaturas ficarão acima da média histórica, com riscos elevados de picos de calor intenso. E na região Nordeste, haverá redução drástica das chuvas e calor extremo, com o ápice da estiagem e redução do nível dos rios prevista para o final do terceiro trimestre.

Para aliviar esses impactos, o grande desafio é a implementação de políticas públicas que tornem os sistemas agropecuários mais adaptados e resilientes. Medidas como a diversificação produtiva, a integração entre sistemas produtivos (ex: integração lavoura-pecuária-floresta – ILPF), a melhora das condições químicas, físicas e biológicas do solo e a substituição de agrotóxicos químicos por bioinsumos representariam um salto de qualidade se fossem priorizadas no financiamento público com o Plano Safra.

Iniciativas importantes do governo federal, como o Programa RenovAgro (ex-ABC+) e o Plano Clima, já existem, mas representam uma pequena fração dos recursos do Plano Safra. A reestruturação do Plano Safra para financiar apenas práticas e tecnologias sustentáveis que ao mesmo tempo confiram adaptação aos eventos climáticos extremos deveria ser prioridade.

Esses mesmos critérios podem ser aplicados ao Plano Safra da Agricultura Familiar, com ênfase ao Pronaf Agroecologia, que seria uma grande oportunidade para a adaptação climática dos agricultores familiares. Nesse caso, o financiamento deveria estar atrelado à exigência de contrapartida dos municípios para oferecer assistência técnica contínua e compartilhada aos agricultores, focada na introdução de práticas e tecnologias sustentáveis e resilientes para a produção de alimentos mais saudáveis para o consumo local.

Clayton Campagnolla – Foi Presidente da Embrapa, Diretor da FAO e atualmente é coordenador de Alimento e Clima do Instituto Fome Zero.

Publicado originalmente na Mídia Ninja
https://midianinja.org/opiniao/da-lavoura-a-mesa-o-custo-bilionario-da-crise-climatica-e-o-alerta-para-a-producao-de-alimentos/