Blog do IFZ | 10/07/2026
A classificação Nova, desenvolvida por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) para categorizar alimentos segundo o grau e o propósito do processamento industrial, é o tema de um novo artigo que propõe sua incorporação mais ampla às políticas públicas de alimentação e nutrição. Publicado no American Journal of Public Health, o trabalho argumenta que o acúmulo de evidências sobre os impactos dos alimentos ultraprocessados justifica a adoção de instrumentos regulatórios capazes de reduzir sua participação nas dietas, complementando as estratégias tradicionais voltadas ao controle de nutrientes críticos.
Intitulado What Do Nova and the Ultraprocessed Food Concept Offer to Policymakers? From Updating Dietary Guidance to Regulatory Action and Advancing Sustainable Food System Transitions, o artigo é assinado por Carlos Augusto Monteiro, da Faculdade de Saúde Pública da USP, Phillip Baker, da Universidade de Sydney, Camila Corvalan, da Universidade do Chile, e Barry M. Popkin, da Universidade da Carolina do Norte.
Os autores observam que a produção científica sobre alimentos ultraprocessados cresceu rapidamente nos últimos anos. Segundo o artigo, mais de 3 mil publicações indexadas na base PubMed utilizam atualmente esse conceito, número que contrasta com a limitada incorporação do tema às políticas públicas. Para os pesquisadores, essa defasagem decorre tanto da influência exercida pela indústria de alimentos sobre os processos regulatórios quanto da complexidade institucional envolvida na revisão de diretrizes alimentares e de questionamentos sobre a operacionalização do conceito em normas legais.
O trabalho procura responder justamente a essa última questão. Em vez de discutir apenas a definição dos alimentos ultraprocessados, analisa como a classificação Nova pode orientar diferentes níveis de intervenção governamental, desde a elaboração de guias alimentares até mecanismos de monitoramento, regulação do mercado de alimentos e políticas voltadas à sustentabilidade dos sistemas alimentares.
A proposta parte de um conjunto consistente de evidências acumuladas ao longo da última década. De acordo com os autores, mais de uma centena de estudos de coorte identificou associação entre maior consumo de ultraprocessados e aumento do risco de obesidade, diabetes tipo 2, hipertensão arterial, doenças cardiovasculares, distúrbios gastrointestinais, doenças hepáticas e renais, transtornos mentais e mortalidade precoce. Ensaios clínicos randomizados também demonstraram que dietas compostas predominantemente por ultraprocessados levam ao aumento espontâneo da ingestão calórica e ao ganho de peso quando comparadas a dietas baseadas em alimentos minimamente processados.
O artigo ressalta que esses efeitos não podem ser explicados apenas pela presença de açúcar, sódio ou gorduras saturadas em excesso. A hipótese central defendida pelos autores é que o próprio processo de ultraprocessamento introduz características capazes de influenciar o comportamento alimentar e diferentes mecanismos fisiológicos. Entre elas estão a utilização de ingredientes produzidos exclusivamente para uso industrial, aditivos com função cosmética, modificações estruturais dos alimentos e contaminantes formados durante o processamento ou provenientes das embalagens.
Nesse contexto, os pesquisadores sustentam que políticas fundamentadas na classificação Nova devem ser entendidas como complementares às estratégias nutricionais já existentes, e não como sua substituição. Enquanto modelos tradicionais identificam alimentos principalmente a partir do teor de nutrientes considerados críticos, a Nova incorpora informações sobre a natureza do processamento industrial e sobre a forma como esses produtos são concebidos para substituir preparações culinárias baseadas em alimentos in natura ou minimamente processados.
Uma das aplicações discutidas refere-se aos guias alimentares nacionais. O artigo lembra que o Brasil foi o primeiro país a estruturar oficialmente suas recomendações alimentares a partir da classificação Nova, em 2014, orientação posteriormente adotada, com adaptações, por diversos outros países. Segundo os autores, esse modelo permite formular recomendações alimentares culturalmente contextualizadas, preservando tradições culinárias e enfatizando refeições preparadas a partir de alimentos frescos ou minimamente processados.
Outra frente proposta é a incorporação de indicadores de consumo de ultraprocessados aos sistemas nacionais e internacionais de monitoramento alimentar. O artigo sugere tanto a utilização da participação desses produtos no total da dieta quanto instrumentos simplificados de rastreamento capazes de estimar rapidamente sua frequência de consumo na população. Esses indicadores poderiam subsidiar metas quantitativas para políticas públicas, de modo semelhante ao que já ocorre com parâmetros relacionados ao consumo de sódio, açúcares livres e gorduras saturadas.
No campo regulatório, o estudo reconhece que a definição operacional de alimentos ultraprocessados ainda enfrenta desafios de natureza jurídica e técnica. Muitos ingredientes característicos do ultraprocessamento não são declarados de forma padronizada nos rótulos, o que dificulta sua utilização em instrumentos legais. Para contornar esse problema, os autores apresentam duas alternativas. A primeira consiste em regulamentar diretamente os produtos classificados como ultraprocessados segundo os critérios da Nova. A segunda propõe ampliar os atuais modelos baseados em perfis nutricionais, incorporando um conjunto restrito de marcadores de ultraprocessamento, como determinados adoçantes, aromatizantes e corantes, estratégia que, segundo o artigo, permitiria alcançar a maior parte dos produtos considerados não saudáveis sem abandonar os modelos regulatórios já existentes.
O trabalho dedica ainda uma seção às implicações econômicas e ambientais do avanço dos ultraprocessados. Os autores argumentam que esse modelo produtivo favorece cadeias globais altamente concentradas e reduz progressivamente o espaço ocupado por sistemas alimentares locais, por mercados territoriais e por formas tradicionais de produção e comercialização de alimentos. Sob essa perspectiva, políticas orientadas pela classificação Nova poderiam fortalecer agricultores locais, estimular cadeias curtas de abastecimento, ampliar compras públicas de alimentos frescos e apoiar sistemas alimentares mais diversificados e culturalmente enraizados.
Na avaliação dos pesquisadores, o conjunto de evidências hoje disponível permite considerar o conceito de alimentos ultraprocessados como um instrumento maduro para a formulação de políticas públicas. A proposta apresentada não busca substituir as estratégias já consolidadas de promoção da alimentação saudável, mas ampliar seu alcance ao incorporar uma dimensão até recentemente pouco considerada nas políticas de saúde: o papel desempenhado pelo processamento industrial na transformação dos padrões alimentares contemporâneos e seus efeitos sobre a saúde das populações.
Baixe aqui o documento “What Do Nova and the Ultraprocessed Food Concept Offer to Policymakers? From Updating Dietary Guidance to Regulatory Action and Advancing Sustainable Food System Transitions“
