El Niño de 2026–2027 poderá agravar a insegurança alimentar em várias regiões do mundo, alerta FEWS NET

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Relatório aponta riscos elevados de secas na África, enchentes no Chifre da África e perdas agrícolas na América Latina, com consequências para a fome que poderão persistir até 2028

Blog do IFZ | 08/10/2026

A Rede de Sistemas de Alerta Antecipado contra a Fome (FEWS NET), iniciativa financiada pelo governo dos Estados Unidos, publicou, em 2 de outubro de 2026, um relatório especial sobre os impactos do fenômeno El Niño de 2026–2027 na segurança alimentar mundial. O estudo, intitulado 2026–2027 El Niño Food Security Impacts, alerta que o atual episódio, classificado como muito forte, poderá provocar graves consequências para milhões de pessoas vulneráveis, especialmente na África Subsaariana.

Segundo a FEWS NET, o fenômeno se intensificou rapidamente desde junho de 2026, alcançando níveis comparáveis aos grandes episódios de 1997–1998 e 2015–2016. As projeções meteorológicas utilizadas no relatório indicam probabilidade superior a 90% de manutenção de condições muito fortes durante o outono e o inverno de 2026–2027 no Hemisfério Norte.

A principal conclusão do estudo é que os efeitos mais graves sobre a segurança alimentar geralmente aparecem meses depois das anomalias climáticas, quando as famílias enfrentam perdas de colheitas, redução da renda agrícola, esgotamento de estoques e aumento dos preços dos alimentos.

Na África Oriental, Etiópia, Sudão, Sudão do Sul e partes de Uganda já registraram déficits significativos de precipitação. Em algumas áreas do Sudão, as chuvas ficaram abaixo de 45% dos níveis normais. A situação é especialmente preocupante onde a seca se combina com conflitos armados e deslocamentos populacionais. Os impactos mais severos deverão ocorrer entre março e setembro de 2027.

No Chifre da África, entretanto, o risco é diferente: chuvas intensas poderão provocar enchentes na Somália, no Quênia e em partes da Etiópia, atingindo comunidades que ainda se recuperam de secas anteriores.

Na África Austral, países como Zimbábue, Moçambique, Malaui, Zâmbia e Angola enfrentam perspectivas de chuvas abaixo da média entre outubro de 2026 e março de 2027. A FEWS NET prevê que os maiores impactos sobre a insegurança alimentar poderão ocorrer entre novembro de 2027 e março de 2028.

Na América Latina e no Caribe, o relatório destaca Guatemala, Honduras, Haiti e Colômbia. O Corredor Seco centro-americano enfrenta déficits de precipitação que ameaçam a produção de grãos básicos e a renda dos pequenos agricultores. No Haiti, os impactos climáticos agravam uma crise alimentar já marcada pela violência e pelos elevados custos de transporte.

O estudo também examina os mercados internacionais. Embora a produção mundial de milho, trigo e arroz em 2026–2027 deva permanecer historicamente elevada, cerca de 2,7% abaixo da safra anterior, perdas regionais poderão provocar aumentos expressivos dos preços.

Em agosto de 2026, os preços internacionais de exportação do trigo, arroz e milho estavam, respectivamente, 43%, 26% e 21% acima dos registrados um ano antes. O relatório ressalta, contudo, que esses aumentos decorrem de múltiplos fatores, incluindo conflitos, custos energéticos e fertilizantes, não podendo ser atribuídos exclusivamente ao El Niño.

A FEWS NET enfatiza que os alertas climáticos oferecem uma oportunidade para agir antes que a fome se agrave. A antecipação da assistência alimentar, a proteção dos meios de subsistência e o apoio à recuperação das famílias são fundamentais para evitar que um choque climático produza consequências prolongadas.

Principais mensagens do relatório

  • El Niño muito forte: o episódio de 2026–2027 apresenta intensidade comparável à de alguns dos eventos mais severos das últimas décadas.
  • África como principal preocupação: África Oriental e África Austral apresentam os riscos mais elevados de agravamento da insegurança alimentar.
  • Impactos tardios: os efeitos mais graves sobre a fome poderão ocorrer em 2027 e até 2028, muito depois das anomalias climáticas iniciais.
  • América Latina vulnerável: Guatemala, Honduras, Haiti e Colômbia enfrentam riscos de perdas agrícolas e deterioração do acesso aos alimentos.
  • Mercados alimentares: perdas regionais e restrições comerciais podem elevar preços mesmo quando a oferta mundial permanece relativamente abundante.
  • Choques acumulados: conflitos, pobreza e perdas agrícolas anteriores reduzem a capacidade das famílias de enfrentar novos eventos extremos.
  • Ação antecipatória: o intervalo entre os alertas climáticos e o agravamento da fome representa uma oportunidade para mobilizar assistência, proteger a renda e preservar os meios de subsistência.
  • Novos riscos em 2027: uma possível transição para La Niña no segundo semestre poderá alterar novamente os padrões de chuva, embora essa previsão ainda apresente baixa confiança.

Fonte: FEWS NET (2026). 2026–2027 El Niño Food Security Impacts. Special Report, 2 de outubro de 2026. Relatório de 15 páginas.

Baixe aqui o relatório “2026-2027 El Niño Food Security Impacts“