Blog do IFZ | 18/02/2026
Em viagem à República Dominicana, realizada entre 15 e 22 de fevereiro de 2026, consolidou-se como um momento de diálogo político, José Graziano da Silva, Diretor do Instituto Fome Zero, se encontrou com autoridades e dialogou sobre os caminhos para erradicar a fome e promover sistemas alimentares mais justos e sustentáveis.
A agenda reuniu autoridades governamentais, academia, organismos internacionais e sociedade civil, reforçando a centralidade da segurança alimentar na agenda de desenvolvimento do país.
Desde sua chegada a Santo Domingo, Graziano participou de encontros estratégicos com representantes do governo, da FAO e de instituições nacionais ligadas à segurança alimentar e nutricional. As reuniões destacaram o papel das políticas públicas integradas — proteção social, agricultura familiar, alimentação escolar e governança territorial — como pilares para reduzir a pobreza e garantir o direito humano à alimentação adequada.
Reconhecimento acadêmico e mensagem política
Um dos pontos alto da visita foi a concessão do título de Doctor Honoris Causa pela Universidade Autónoma de Santo Domingo (UASD), reconhecimento à trajetória internacional de Graziano na luta contra a fome e na construção de políticas públicas transformadoras. Em seu discurso, destacou que o combate à fome não é apenas um desafio técnico, mas uma questão de justiça social, lembrando que a fome não é um fenômeno natural, e sim resultado da desigualdade e da exclusão.
Graziano enfatizou que o mundo produz alimentos suficientes, mas o acesso continua desigual, e que hoje a fome convive com uma nova face: a má alimentação e o crescimento da obesidade. Para ele, sair do mapa da fome deve ser entendido como o primeiro passo de uma agenda mais ampla, orientada para dietas saudáveis, sustentáveis e acessíveis a toda a população.


Diálogo político e cooperação técnica
Durante a missão, Graziano também participou de conferência magistral no Palácio Nacional sobre a erradicação da fome e a experiência brasileira,. Os debates ressaltaram a importância de integrar políticas sociais, produção local de alimentos e programas de alimentação escolar como motores simultâneos de inclusão social, desenvolvimento rural e melhoria nutricional.
A experiência dominicana foi destacada como exemplo relevante na região, especialmente pelo fortalecimento das compras públicas de alimentos da agricultura familiar e pela expansão de programas de proteção social, que contribuem para melhorar a nutrição infantil e dinamizar economias locais.
Proteção social e resiliência alimentar
Outro eixo central da visita foi o intercâmbio sobre proteção social e resposta a choques climáticos. A República Dominicana vem avançando na integração entre proteção social e gestão de riscos, buscando proteger consumo, nutrição e meios de vida diante de crises climáticas e econômicas. Sistemas de informação social, transferências emergenciais e mecanismos financeiros inovadores foram apresentados como ferramentas fundamentais para reduzir vulnerabilidades e fortalecer a resiliência das famílias mais pobres.
Graziano destacou que políticas de proteção social articuladas à segurança alimentar não apenas reduzem a fome no curto prazo, mas também evitam perdas produtivas, protegem a renda e promovem recuperação econômica mais rápida após choques. Essa abordagem, segundo ele, será cada vez mais central em um mundo marcado por crises climáticas, volatilidade de preços e desigualdades persistentes.

Fome, nutrição e sistemas alimentares
Ao longo da missão, Graziano insistiu que o principal desafio contemporâneo não é apenas produzir mais alimentos, mas garantir dietas saudáveis e acessíveis. O aumento do custo de frutas, verduras e alimentos frescos, combinado com a expansão dos ultraprocessados, tem aprofundado a crise nutricional em muitos países, inclusive na América Latina e Caribe.
Ele também ressaltou o papel estratégico da agricultura familiar e das políticas territoriais, destacando que governos locais, comunidades e organizações sociais são essenciais para adaptar políticas às realidades produtivas e fortalecer circuitos alimentares mais resilientes e inclusivos.
