José Graziano da Silva, ex-diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e fundador do Instituto Fome Zero (IFZ), mostra como o custo desmedido das guerras contemporâneas revela uma falha moral profunda: um mundo que financia sem dificuldade a destruição, mas reluta em investir na superação da fome — mesmo quando os próprios conflitos ampliam a insegurança alimentar em escala global.
Por José Graziano da Silva | 31/03/2026
A guerra no Oriente Médio expôs mais uma vez uma verdade incômoda sobre o mundo contemporâneo: nunca faltam recursos quando se trata de destruir. Segundo dados divulgados pelo The Guardian, os primeiros seis dias da ofensiva dos Estados Unidos contra o Irã consumiram US$ 12,7 bilhões — mais de US$ 2 bilhões por dia.
Compare-se esse montante com o que é de fato essencial. O custo médio global de uma alimentação saudável situa-se hoje em US$ 4,46 por pessoa ao dia. Isso significa que apenas um dia de gastos militares seria suficiente para financiar cerca de 470 milhões de cestas alimentares diárias saudáveis.
O número já é, por si só, chocante. Torna-se ainda mais perturbador quando se recorda que, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), cerca de 673 milhões de pessoas ainda passam fome no mundo. Em outras palavras, os recursos consumidos em um único dia de guerra poderiam assegurar alimentação diária saudável a algo próximo de 70% da população subnutrida do planeta — quase duas em cada três pessoas.
Não se trata apenas de uma comparação eloquente. Trata-se de uma denúncia política e moral. Quando estão em jogo mísseis, bombardeiros e operações militares, os recursos surgem de imediato. Quando, porém, se trata de garantir alimento de qualidade a quem mais necessita, multiplicam-se as justificativas: prudência fiscal, restrições orçamentárias, atrasos na ação, prioridades concorrentes. O mundo não sofre de escassez de recursos — sofre de escassez de prioridades humanas.
A guerra, contudo, não apenas desvia recursos do combate à fome; ela também gera nova fome.
Como advertiu o economista-chefe da FAO, Máximo Torero, o conflito em curso não se limita a bombas e fronteiras. Ele evidencia a perigosa reconexão entre energia, fertilizantes e sistemas agroalimentares. A instabilidade no Estreito de Ormuz vem pressionando os preços do petróleo e dos fertilizantes e, assim, “afetará os sistemas alimentares” ao elevar os custos de produção, logística e insumos. Caso esse quadro persista, seus efeitos não se circunscreverão ao presente: alcançarão os próximos ciclos de plantio e as colheitas vindouras.
O ônus recai de modo mais severo sobre países dependentes de importações na África, na Ásia e na América Latina. No sul asiático, a escassez de fertilizantes pode coincidir com janelas críticas de plantio. Em diversas regiões africanas, onde muitos agricultores familiares já utilizam quantidades insuficientes por limitações de renda, mesmo elevações modestas de preço tendem a comprometer safras futuras e aprofundar a insegurança alimentar.
Na América Latina, o Brasil ocupa posição singular: é, simultaneamente, potência agrícola global e importador vulnerável de fertilizantes. Qualquer interrupção prolongada que afete sua produção não se conterá dentro das fronteiras nacionais, mas se propagará pelos mercados alimentares globais.
Há ainda outra ameaça. À medida que os preços do petróleo se elevam, os biocombustíveis tornam-se mais atrativos, intensificando a competição entre alimentos e energia. Volumes crescentes de milho, óleo de soja e óleo de palma podem ser desviados para fins energéticos, ampliando a volatilidade dos preços internacionais dos alimentos e agravando a pressão sobre os consumidores mais pobres.
Sejamos honestos quanto ao escândalo diante de nós. Esta guerra não apenas destrói vidas de forma direta; contribui também para desestabilizar sistemas alimentares, encarecer o custo da sobrevivência e empurrar os mais vulneráveis para níveis ainda mais profundos de insegurança.
Nenhuma sociedade pode manter-se estável quando naturaliza um mundo que investe mais em matar do que em alimentar. Se um único dia de gastos militares pode praticamente assegurar alimentação adequada a duas em cada três pessoas famintas do planeta, não estamos diante de um problema de escassez, mas de uma escolha política acerca do presente e do futuro que se pretende construir.
José Graziano da Silva é ex-diretor-geral da FAO, fundador e diretor do Instituto Fome Zero e professor emérito da Universidade Estadual de Campinas.
Publicado originalmente na Impakter, na seção “Energy, Food and Agriculture; Politics & Foreign Affairs”
https://impakter.com/the-price-of-war-the-scandal-of-hunger/
