Pescado local, futuro mais saudável: como Honduras está transformando a alimentação escolar

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Em Honduras, a alimentação escolar vem passando por uma transformação significativa com a incorporação de pescado proveniente de comunidades locais.

FAO | 23/03/2026

Em muitas escolas públicas, milhares de crianças recebem diariamente uma refeição básica composta por farinha de milho, feijão fortificado, arroz e óleo. Embora essa combinação simples cubra cerca de um terço das necessidades nutricionais diárias, seu teor proteico ainda é limitado.

Nas escolas que passaram a incluir pescado no cardápio, a mudança já é perceptível.

O pescado é fonte de proteínas de alta qualidade, ácidos graxos ômega-3, vitaminas e minerais essenciais ao crescimento e ao desenvolvimento cognitivo. Sua inclusão na alimentação escolar eleva o valor nutricional das refeições, promove hábitos alimentares mais saudáveis e fortalece a economia local ao integrar pescadores e aquicultores artesanais às cadeias de abastecimento escolar.

Essa iniciativa integra um esforço mais amplo de inovação conduzido pelo Programa Nacional de Alimentação Escolar, criado no final da década de 1990 com o objetivo de reduzir a desnutrição, o absenteísmo e a evasão escolar, além de ampliar o acesso e a permanência dos alunos na escola.

Ao longo dos anos, o programa implementou iniciativas-piloto voltadas à aquisição de alimentos frescos da agricultura familiar e da pesca artesanal — abordagem conhecida como Alimentação Escolar com Produtos Locais —, fortalecendo os vínculos entre escolas e comunidades produtoras.

Embora a inclusão do pescado ainda se concentre em experiências pontuais bem-sucedidas, o programa, como um todo, já beneficiou mais de 1,3 milhão de estudantes em cerca de 21 mil escolas em todo o país.

Como parte desse processo, o governo hondurenho, com apoio técnico da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), desenvolveu iniciativas pioneiras para diversificar e qualificar nutricionalmente a alimentação escolar. Entre elas, destaca-se a iniciativa “Pescado na Alimentação Escolar com Produtos Locais”, inicialmente implementada nas regiões ocidentais.

Preparación de una comida a base de pescado en Santa Bárbara, Honduras 1
Preparación de una comida a base de pescado en Santa Bárbara, Honduras 2

Preparando uma refeição à base de peixe em Santa Bárbara, Honduras. Nutritivo e de origem local, o peixe fornece às crianças vitaminas, minerais e ácidos graxos ômega-3 essenciais que promovem um crescimento e desenvolvimento saudáveis.

“Esse programa permitiu conceber, testar e validar uma metodologia para incorporar o pescado à alimentação escolar, demonstrando sua viabilidade técnica, operacional, social e econômica”, afirmou Fátima Espinal Mercedes, representante da FAO em Honduras.

Os resultados foram consistentes: os estudantes das escolas participantes passaram a aceitar melhor o pescado; os comitês de alimentação escolar aprimoraram suas práticas de preparo e manipulação; e as comunidades pesqueiras e aquícolas passaram a contar com novos mercados mais estáveis e sustentáveis.

O pescado como solução

Embora Honduras figure entre os principais produtores de pesca e aquicultura da América Central, o pescado ainda é pouco presente nos cardápios escolares. Entre os fatores que explicam essa realidade estão a percepção de baixa aceitação pelas crianças, o reduzido consumo no país e os custos e desafios logísticos associados a um produto perecível.

O projeto demonstrou, contudo, que um modelo sustentável e inclusivo — que articula o poder público com piscicultores de pequeno e médio porte e pescadores artesanais — pode garantir às escolas acesso a pescado fresco, de qualidade e a preços acessíveis, ao mesmo tempo em que fortalece a produção local.

Um momento decisivo ocorreu quando estudantes de três escolas rurais nos departamentos de Santa Bárbara e Atlántida experimentaram pratos preparados com tilápia, cavala e robalo, servidos em sopas, filés e ensopados. A taxa de aceitação chegou a 98%, evidenciando que preparações adequadas podem ser amplamente aceitas.

Para consolidar esses avanços, as escolas passaram a distribuir materiais informativos sobre os benefícios do consumo de pescado, enquanto oficinas com produtores e a comunidade escolar estimularam a diversificação alimentar e o desenvolvimento econômico local. A capacitação em produção, processamento, higiene e segurança dos alimentos também ampliou a participação das mulheres na cadeia de valor do pescado.

Pescador pesa o peixe antes de entregá-lo a uma escola
Pescador pesa o peixe antes de entregá-lo a uma escola
Criança saboreia refeição à base de peixe em Macholoa, Honduras
Criança saboreia refeição à base de peixe em Macholoa, Honduras

O projeto apresentou às crianças pratos feitos com tilápia, robalo e cavala, demonstrando como peixe fresco e acessível pode ser fornecido às escolas, ao mesmo tempo que se apoia os produtores locais.

Lições para o futuro

“Uma lição central é que a pesca e a aquicultura de pequena e média escala podem se articular de forma complementar à promoção da nutrição infantil”, destacou Jogeir Toppe, especialista em pesca da FAO que participou do projeto.

Diante dos resultados positivos, o governo solicitou apoio adicional à FAO para fortalecer a cadeia de valor do pescado e aprimorar os mecanismos de controle de qualidade. A organização também desenvolveu ferramentas para facilitar sua inclusão na alimentação escolar, como o curso on-line Alimentos aquáticos para a nutrição, que explora as relações entre nutrição, segurança alimentar e o papel dos alimentos aquáticos na promoção de dietas saudáveis e sistemas alimentares sustentáveis.

A iniciativa teve repercussão além de Honduras. Angola e Peru também participaram do projeto, enquanto ações complementares em Gana e no Malawi conectaram pescadores e processadores artesanais aos programas de alimentação escolar. Atualmente, novos projetos estão sendo preparados na América Latina para ampliar a incorporação de alimentos aquáticos — incluindo algas marinhas — nas refeições escolares.

“Essa abordagem desempenha um papel fundamental na formação de hábitos alimentares saudáveis ao valorizar alimentos locais e nutritivos”, acrescentou Espinal Mercedes. “Quando aliada à educação alimentar e nutricional, pode influenciar positivamente as escolhas alimentares das gerações atuais e futuras.”

Honduras demonstra, assim, que o uso do pescado local pode, simultaneamente, melhorar a nutrição infantil, fortalecer as famílias e tornar os sistemas alimentares mais resilientes. Seu exemplo segue inspirando outros países, evidenciando que soluções eficazes frequentemente começam no próprio território.

Publicado originalmente pela FAO
https://www.fao.org/fishery/es/news/41539