Quem conta a história da fome define o futuro do clima

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Relatório internacional revela como as narrativas sobre segurança alimentar moldam políticas, concentram poder e delimitam as possibilidades de transformação do sistema global de alimentos

Blog do IFZ | 19/03/2026

A segurança alimentar costuma ser tratada como um problema de produção, logística e acesso. O relatório Shaping Food Security Narratives: A Strategic Tool for Climate Action, publicado em 2026, propõe uma inflexão mais profunda. Ao longo de suas páginas, a alimentação deixa de ser apenas um campo técnico e passa a ser compreendida como território de disputa simbólica, onde linguagem, poder e clima se entrelaçam de maneira decisiva.

O estudo foi liderado pela RUAF CIC, em articulação com uma rede ampla de parceiros regionais e institucionais. Na América do Sul, participaram o Instituto Fome Zero, o Instituto Comida do Amanhã e o Instituto Regenera. No continente africano, o trabalho contou com o African Food Systems Transformation Collective, iniciativa vinculada à Fundação Africana para o Clima. Também integra o projeto a Global Alliance for Improved Nutrition, além de consultores independentes atuando na Índia, Bangladesh, Indonésia e Sri Lanka.

Essa composição plural não é um detalhe secundário. Ela reflete a própria natureza do problema investigado: a segurança alimentar, tal como apresentada no relatório, não pode ser compreendida a partir de um único centro geográfico ou intelectual. Sua análise exige múltiplas vozes, diferentes escalas e experiências diversas.

Essa mudança de perspectiva não é apenas conceitual. Ela reorganiza o modo como se compreendem políticas públicas, investimentos globais e estratégias de enfrentamento da crise climática. Em vez de perguntar apenas como produzir mais alimentos, o relatório convida a examinar quem define os termos do debate, quais ideias se tornam dominantes e quais permanecem à margem.

Sistema alimentar em disputa

O documento parte de um diagnóstico que já não pode ser ignorado: o sistema alimentar global responde por uma parcela significativa das emissões de gases de efeito estufa, ao mesmo tempo em que permanece incapaz de garantir alimentação adequada para amplas parcelas da população mundial. A coexistência entre abundância produtiva e insegurança alimentar revela um paradoxo que não se explica apenas por variáveis técnicas.

A chave interpretativa proposta reside na noção de narrativa. Segundo o relatório, as narrativas não são meros relatos descritivos, mas estruturas que organizam a percepção do real. Elas definem quais problemas são reconhecidos, quais soluções ganham legitimidade e quais atores têm acesso a recursos e influência. Nesse sentido, a segurança alimentar torna-se também uma questão de linguagem e poder.

A força de uma ideia dominante

Entre as diversas narrativas identificadas, uma se destaca pela capacidade de organização e permanência: o produtivismo. Trata-se de uma visão que privilegia o aumento da produção agrícola por meio de inovação tecnológica, intensificação do uso de insumos e expansão de mercados.

Sua força não decorre apenas de seus resultados históricos, mas da rede institucional que a sustenta. Governos, grandes corporações do setor agroalimentar e organismos multilaterais contribuíram, ao longo de décadas, para consolidar essa perspectiva como referência quase natural. O discurso de “alimentar o mundo” confere a essa narrativa uma dimensão moral que a torna ainda mais persuasiva.

No entanto, o relatório chama atenção para suas limitações. Ao priorizar a produtividade e a estabilidade de oferta, o produtivismo frequentemente marginaliza questões como nutrição, equidade social, diversidade ecológica e sustentabilidade de longo prazo. Ao mesmo tempo, mantém estruturas concentradas de poder econômico e político.

As vozes que persistem à margem

Em contraste com essa hegemonia, o documento identifica um conjunto diverso de narrativas alternativas. Entre elas, destacam-se a soberania alimentar, o direito à alimentação, a agroecologia e as abordagens centradas na justiça climática e na resiliência comunitária.

Essas perspectivas compartilham um traço comum: nascem de experiências locais, muitas vezes vinculadas a comunidades rurais, povos indígenas e movimentos sociais. Seu ponto de partida não é a maximização da produção, mas a relação entre alimento, território, cultura e autonomia.

Apesar de sua densidade política e de sua aderência a contextos concretos, essas narrativas enfrentam dificuldades para alcançar escala institucional. O acesso limitado a financiamento, a menor visibilidade nos fóruns internacionais e a assimetria de poder em relação aos grandes atores globais restringem sua capacidade de influenciar políticas de forma mais ampla.

Quando as palavras mudam de sentido

Um dos aspectos mais instigantes do relatório está na análise da linguagem. Termos como “sustentabilidade”, “resiliência” e “agricultura inteligente para o clima” circulam com frequência crescente em documentos oficiais e discursos corporativos. À primeira vista, sugerem convergência entre diferentes agendas.

O que se observa, porém, é um processo de apropriação semântica. Conceitos originalmente associados a transformações estruturais passam a ser utilizados em contextos que mantêm práticas convencionais. A ambiguidade resultante dificulta o discernimento público e dilui conflitos que permanecem ativos.

Essa mutação do vocabulário revela uma dimensão sofisticada da disputa narrativa. Não se trata apenas de opor ideias distintas, mas de disputar o próprio significado das palavras que organizam o debate.

Geografias do poder alimentar

A análise ganha maior profundidade ao considerar as diferenças regionais. Nos países do Sul Global, narrativas como soberania alimentar e direito à alimentação apresentam maior presença, inclusive com reconhecimento jurídico em alguns casos. Ao mesmo tempo, esses países enfrentam pressões estruturais associadas à dívida, à dependência de exportações e à influência de instituições financeiras internacionais.

Essa combinação produz um cenário ambíguo. De um lado, há experiências inovadoras e formas alternativas de organização alimentar. De outro, persistem condições que limitam sua expansão e reforçam a inserção subordinada na economia global.

Nos países do Norte Global, por sua vez, observa-se uma tendência de adaptação do modelo dominante. A preocupação com cadeias de suprimento, segurança nacional e estabilidade econômica orienta políticas que buscam ajustes sem alterar profundamente as estruturas existentes. Novas abordagens, como a chamada saúde planetária, convivem com resistências significativas de setores consolidados.

O valor do que nasce no território

Um dos pontos de maior delicadeza do relatório reside na atenção dedicada às escalas locais. É nesse nível que as narrativas adquirem densidade concreta, enraizadas na experiência cotidiana e na relação direta com o ambiente.

Ao contrário das formulações globais, muitas vezes abstratas, as narrativas locais articulam conhecimento tradicional, práticas adaptativas e formas de organização comunitária. Essa proximidade com a vida real confere a elas uma legitimidade difícil de replicar em contextos institucionais mais amplos.

A valorização dessas experiências não se limita a um reconhecimento simbólico. O relatório sugere que qualquer transformação significativa do sistema alimentar dependerá da capacidade de fortalecer essas vozes e integrá-las a processos decisórios mais amplos.

O papel discreto da filantropia

Outro aspecto relevante diz respeito ao papel da filantropia internacional. Longe de uma atuação neutra, o documento sugere que fundações e organizações financiadoras exercem influência decisiva na configuração do campo narrativo.

Ao escolher quais iniciativas apoiar, quais pesquisas financiar e quais vozes amplificar, esses atores contribuem para definir os contornos do debate global. Essa influência, embora indireta, possui efeitos duradouros sobre políticas públicas e prioridades institucionais.

O relatório propõe uma reorientação desse papel, com maior ênfase em financiamento descentralizado, apoio de longo prazo a comunidades e investimento em produção de conhecimento local. Trata-se de deslocar o foco de soluções padronizadas para processos construídos a partir dos territórios.

Entre a prudência e a transformação

Apesar de seu diagnóstico consistente, o documento adota uma estratégia cuidadosa. Em vez de sugerir confronto direto com o modelo dominante, propõe o fortalecimento gradual de alternativas, a construção de alianças e o aproveitamento de momentos políticos favoráveis.

Essa escolha revela uma tensão interna. De um lado, há o reconhecimento de problemas estruturais profundos. De outro, a opção por caminhos incrementais, capazes de produzir mudanças sem provocar rupturas abruptas.

A eficácia dessa abordagem permanece em aberto. Ela exige tempo, continuidade e capacidade de articulação entre diferentes níveis de ação, do local ao global.

Uma leitura para além da técnica

Ao final, o relatório oferece mais do que um conjunto de recomendações. Ele propõe uma forma distinta de compreender o sistema alimentar contemporâneo, na qual linguagem, poder e materialidade se entrelaçam de maneira inseparável.

A alimentação, nesse contexto, deixa de ser apenas uma questão de oferta e demanda. Torna-se um campo onde se definem prioridades coletivas, se disputam visões de futuro e se estabelecem os limites do possível.

A leitura deixa a impressão de que transformar o sistema alimentar exige algo mais do que inovação tecnológica ou ajustes institucionais. Exige uma revisão cuidadosa das ideias que orientam nossas escolhas, das palavras que utilizamos para descrevê-las e dos valores que sustentam essas narrativas.

Nesse terreno, silencioso e decisivo, delineiam-se os contornos do que virá.

Baixe aqui o relatório “Shaping Food Security Narratives: A Strategic tool for Climate Action