O elevado custo do serviço da dívida pública — próximo de R$ 900 bilhões anuais — e o alto endividamento, que atinge quase 80% das famílias, ampliam as restrições ao crescimento e reforçam expectativas negativas
Por Walter Belik no Nexo | 09/02/2025
A pandemia da covid-19 e a guerra na Ucrânia são frequentemente apontadas como fatores centrais da recente elevação dos preços dos alimentos. Contudo, esse movimento antecede tais eventos. Desde o início do século, os preços internacionais já haviam se elevado em relação aos anos 1990, impulsionados pelo crescimento da demanda global, mudanças nos padrões alimentares, desvalorização do dólar e aumento dos custos de produção.
No Brasil, os preços dos alimentos passaram a crescer, a partir de 2022, em ritmo cerca de duas vezes superior à inflação média, refletindo o cenário internacional. Em 2023 houve alívio parcial, mas em 2024 a inflação dos alimentos voltou a acelerar em razão de eventos climáticos adversos, incluindo as enchentes no Sul do país. Entre outubro de 2023 e maio de 2025, por 16 meses os preços dos alimentos superaram a inflação geral. Em 2025, o chamado “tarifaço” anunciado pelo presidente norte-americano Donald Trump contribuiu para novas pressões, intensificando uma trajetória já ascendente.
À época do anúncio das tarifas, os efeitos sobre os preços internos eram incertos. A valorização cambial e a possível redução das exportações poderiam favorecer o abastecimento doméstico, enquanto a demanda externa pressionava a destinação da produção nacional para outros mercados. Internamente, o país iniciou o ano com estoques reduzidos — à exceção do arroz —, mas com perspectivas climáticas favoráveis, que indicavam boas safras.
Nesse contexto, as expectativas dos agentes econômicos tornaram-se decisivas. A economia keynesiana atribui papel central às expectativas, entendidas como o elo entre passado e futuro. Em sua “Teoria Geral”, Keynes demonstra que decisões presentes de consumo e investimento são fortemente influenciadas por fatores psicológicos, podendo gerar movimentos cumulativos de retração ou expansão econômica.
No Brasil, a formação das expectativas inflacionárias é fortemente influenciada pelo Relatório Focus, divulgado semanalmente pelo Banco Central. As projeções médias ali apresentadas tornam-se uma convenção de mercado, orientando decisões de preços, investimentos e a própria política monetária. Mesmo agentes que discordam dessas projeções tendem a segui-las, sob risco de perdas financeiras, configurando a chamada “profecia autorrealizável”.
A comparação entre as projeções de dezembro de 2024 e os resultados efetivos de 2025 evidencia os limites desse processo. Projetava-se um IPCA de 4,96%, crescimento do PIB de 2,1% e dólar a R$ 5,96, mas o ano se encerrou com inflação de 4,26%, PIB de 2,7% (previsto) e câmbio de R$ 5,37. Apesar da desaceleração inflacionária, a política monetária manteve-se restritiva, com a Selic em 15% ao ano e juros reais acima de 10%, sob o argumento de conter pressões inflacionárias em uma economia considerada aquecida.
Os efeitos colaterais dessa estratégia são expressivos, especialmente nas contas públicas. O pagamento de juros da dívida interna pela União, estados e municípios alcança cerca de R$ 900 bilhões anuais. Com uma dívida bruta superior a R$ 10 trilhões, cada ponto percentual adicional na Selic implica um custo extra aproximado de R$ 100 bilhões por ano. Além de encarecer o serviço da dívida, os juros elevados produzem um efeito cumulativo, ampliando obrigações futuras em um contexto de déficit fiscal e expansão do endividamento.
O impacto dos juros também é sentido diretamente pelas famílias. Em novembro, registrou-se uma proporção de 79,5% das famílias endividadas e 12,9% teriam dívidas irrecuperáveis, segundo a CNC (Confederação Nacional do Comércio). Esse contexto de endividamento amplia as perspectivas negativas colocadas pelo mercado financeiro criando novas expectativas que contaminam todos os agentes econômicos.
Embora o mercado de trabalho permaneça robusto, sinais de desaceleração são visíveis. O crescimento da massa de rendimentos convive com queda nas vendas físicas do comércio. No setor de alimentos, o volume consumido desacelerou fortemente ao longo do ano, indicando impacto direto dos juros elevados sobre o consumo. No gráfico abaixo, se observa esse movimento, ilustrando o papel do juro real elevado.

Todavia, contrariando as expectativas iniciais do mercado, os preços dos alimentos desaceleraram em 2025, fechando o ano com alta de 2,95% no grupo Alimentação e Bebidas do IPCA. Em contrapartida, itens incomprimíveis do orçamento familiar, como habitação, saúde e educação, registraram aumentos expressivos. Destaca-se ainda a alimentação fora do domicílio, com inflação significativamente superior (6,97%) à alimentação no lar (1,43%).
A variação média dos preços dos alimentos no ano que passou foi de 2,95%, mas, a partir da classificação utilizada no Guia Alimentar para a População Brasileira, é possível dividir toda a alimentação em grupos. Com isso, observamos que o grupo dos alimentos ultraprocessados teve um grande aumento de preços, enquanto o grupo dos alimentos in natura e ingredientes culinários apresentou queda ou estabilidade, respectivamente: 6,39% e 0,32%. A boa performance das safras e o aumento da oferta doméstica resultaram em expressiva redução de preços de itens básicos, como arroz e feijão, contribuindo para o fechamento favorável do ano.
Por outro lado, os efeitos colaterais da política monetária são relevantes. O elevado custo do serviço da dívida pública — próximo de R$ 900 bilhões anuais — e o alto endividamento, que atinge quase 80% das famílias, ampliam as restrições ao crescimento e reforçam expectativas negativas.
Diante de novas pressões internacionais e da persistência de juros elevados, o cenário para a alimentação das famílias exige cautela. Aproveitando a oportunidade de melhores preços relativos dos produtos in natura, torna-se fundamental fortalecer políticas públicas que promovam o consumo de alimentos básicos e saudáveis, ampliando ainda mais a oferta, reduzindo preços relativos e melhorando o padrão alimentar da população brasileira.
Walter Belik é Professor Titular Aposentado do IE/Unicamp, diretor do Instituto Fome Zero e pesquisador da Cátedra Josué de Castro.
Publicado originalmente no Nexo
https://pp.nexojornal.com.br/opiniao/2026/02/09/preco-dos-alimentos-e-mudanca-no-padrao-de-consumo-das-familias-brasileiras
