O Dia Mundial das Leguminosas e o futuro da alimentação

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Blog do IFZ | 10/02/2026

Celebrado hoje, 10 de fevereiro, o Dia Mundial das Leguminosas foi instituído pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, a FAO, em 2018, como desdobramento direto do Ano Internacional das Leguminosas, realizado em 2016. A criação da data responde a um objetivo claro. Ampliar o conhecimento público sobre o papel estratégico das leguminosas na alimentação humana, na sustentabilidade dos sistemas agrícolas e no enfrentamento da fome e da má nutrição, em sintonia com os compromissos da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável.

No âmbito técnico internacional, o termo leguminosas, também conhecido como pulsos, designa as sementes secas de plantas da família Fabaceae destinadas ao consumo humano. Integram esse grupo feijões, lentilhas, grão-de-bico, ervilhas secas, favas, tremoços e outras variedades menos difundidas. Não se enquadram nessa classificação as leguminosas consumidas verdes, como ervilhas frescas e vagens, nem a soja destinada à extração de óleo ou culturas voltadas à alimentação animal. Essa distinção, frequentemente ignorada no discurso cotidiano, é fundamental para a correta interpretação das estatísticas globais e das recomendações nutricionais formuladas por organismos internacionais.

A decisão de dedicar um dia mundial a esses grãos reflete um consenso científico amadurecido ao longo de décadas. As leguminosas reúnem elevada densidade nutricional e baixo impacto ambiental, combinação rara em sistemas alimentares marcados por desequilíbrios. São fontes relevantes de proteínas vegetais, fibras alimentares, ferro, cálcio, magnésio, potássio e vitaminas do complexo B, além de apresentarem teor reduzido de gorduras e ausência natural de colesterol. Esse conjunto de características favorece o controle glicêmico, contribui para a saúde cardiovascular e está associado a maior saciedade, aspecto relevante na prevenção da obesidade.

Uma base consistente de evidências científicas sustenta essa associação entre o consumo regular de leguminosas e a redução do risco cardiovascular. Revisões sistemáticas e meta-análises publicadas em periódicos internacionais de referência, como Public Health Nutrition, Nutrition, Metabolism & Cardiovascular Diseases e Food & Nutrition Research, reuniram dados de grandes estudos de coorte prospectivos e de ensaios clínicos randomizados conduzidos em distintos contextos populacionais. Os resultados convergem. Indivíduos com maior ingestão habitual de leguminosas apresentam menor incidência de doença arterial coronariana e de eventos cardiovasculares, além de reduções estatisticamente significativas nos níveis de colesterol total e LDL-colesterol em comparação com grupos de baixo consumo. Parte desses efeitos é atribuída à combinação singular de fibras solúveis, proteínas vegetais e compostos bioativos presentes nos grãos, capazes de atuar tanto na absorção intestinal do colesterol quanto na regulação metabólica hepática. Revisões focadas nas proteínas de leguminosas, incluindo feijões, lentilhas, grão-de-bico, soja e tremoço, descrevem ainda mecanismos moleculares associados à ação hipocolesterolêmica, como a modulação da expressão gênica envolvida no metabolismo lipídico. Em conjunto, essas compilações, produzidas por equipes acadêmicas ligadas a universidades e centros de pesquisa em nutrição e saúde pública, consolidam o entendimento de que a incorporação regular de leguminosas à dieta não apenas qualifica o perfil nutricional da alimentação, mas se associa de forma robusta à prevenção das doenças cardiovasculares, entre as principais causas de morbimortalidade no mundo contemporâneo.

Os benefícios das leguminosas, no entanto, ultrapassam o plano individual da saúde. No campo agrícola, esses cultivos ocupam posição estratégica na construção de sistemas produtivos mais sustentáveis. A capacidade de fixar nitrogênio atmosférico no solo, por meio da simbiose com bactérias específicas, reduz a dependência de fertilizantes sintéticos, cuja produção e aplicação estão associadas à emissão de gases de efeito estufa e à contaminação ambiental. Integradas a sistemas de rotação de culturas, as leguminosas contribuem para a fertilidade do solo, auxiliam no controle de pragas e doenças e favorecem a biodiversidade agrícola.

Por essa razão, a FAO destaca esses grãos como aliados importantes no enfrentamento das mudanças climáticas e na promoção da segurança alimentar global. Em regiões sujeitas a secas ou instabilidades climáticas, muitas variedades de leguminosas apresentam maior resistência e exigem menos recursos hídricos do que outras culturas proteicas. Para pequenos agricultores, especialmente em países de renda média e baixa, elas cumprem uma dupla função. Podem ser comercializadas, garantindo renda, e consumidas pelas próprias famílias produtoras, fortalecendo a autonomia alimentar local.

No Brasil, a relação com as leguminosas é profunda, cotidiana e culturalmente estruturante. O feijão, em suas múltiplas variedades, constitui um dos pilares da alimentação nacional. O feijão carioca predomina em grande parte do território, enquanto o feijão-preto marca a culinária do Sul e do Sudeste urbano, e o feijão-de-corda ocupa lugar central no Nordeste. A combinação de arroz e feijão, frequentemente associada à identidade alimentar brasileira, é também reconhecida pela ciência da nutrição como uma associação equilibrada de aminoácidos, capaz de oferecer proteína de boa qualidade a custo acessível.

Além do feijão, outras leguminosas têm presença consolidada ou crescente no país. A lentilha, ainda vinculada a ocasiões festivas, apresenta amplo potencial para uso cotidiano. O grão-de-bico ganhou espaço em saladas, ensopados e pastas, dialogando tanto com tradições culinárias do Mediterrâneo quanto com novas propostas alimentares. O amendoim, muitas vezes restrito ao papel de petisco, é uma leguminosa rica em proteínas e gorduras monoinsaturadas, com benefícios reconhecidos para a saúde cardiovascular. A soja, amplamente produzida no Brasil, ocupa posição singular, sendo destinada tanto ao consumo humano quanto à alimentação animal, além de desempenhar papel relevante na economia agrícola nacional.

Instituições brasileiras de ensino e pesquisa têm destacado a importância de diversificar o consumo de leguminosas e de valorizar espécies e variedades locais. Essa diversidade amplia o aporte nutricional, reduz a monotonia alimentar e fortalece cadeias produtivas regionais. Do ponto de vista do preparo doméstico, práticas simples, como o remolho prévio e o cozimento adequado, contribuem para reduzir fatores antinutricionais e melhorar a digestibilidade dos grãos, tornando seu consumo mais confortável, sem prejuízo do valor nutricional.

Em diferentes países, iniciativas semelhantes buscam recolocar as leguminosas no centro das escolhas alimentares. Na Europa, campanhas lideradas por cozinheiras, cozinheiros, agricultores e movimentos de alimentação sustentável incentivam o uso de variedades tradicionais e o fortalecimento do vínculo entre gastronomia e biodiversidade. O crescimento do mercado de leguminosas enlatadas e processadas reflete mudanças nos hábitos de consumo e a busca por alimentos práticos, nutritivos e com menor impacto ambiental, desde que produzidos sob critérios rigorosos de qualidade.

Ao instituir o Dia Mundial das Leguminosas, a ONU não propôs apenas uma celebração simbólica. A data funciona como um convite à reflexão sobre escolhas alimentares individuais e sobre políticas públicas de maior alcance. Incentivar o consumo desses grãos significa apoiar sistemas agrícolas mais justos, reduzir pressões ambientais e ampliar o acesso a uma alimentação saudável.

No contexto brasileiro, essa reflexão assume contornos ainda mais relevantes. Valorizar as leguminosas é reconhecer um patrimônio alimentar construído ao longo de séculos, associado à diversidade cultural, à ciência da nutrição e à soberania alimentar. Em um mundo atravessado por desafios simultâneos de saúde pública, clima e desigualdade, esses grãos discretos oferecem uma resposta serena, baseada em evidências e profundamente conectada à vida cotidiana.

Celebrar o Dia Mundial das Leguminosas é, assim, um gesto de atenção ao que sustenta a alimentação humana em sua dimensão mais ampla. Um reconhecimento de que, na simplicidade dos feijões, lentilhas e grão-de-bico, convivem ciência, história, cuidado com o planeta e possibilidades concretas de um futuro alimentar mais equilibrado.