Por Paola Ligasacchi, especial para o Blog do IFZ | 11/03/2026
O I Fórum da Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA) da Universidade de Campinas, que se propôs a discutir “a Engenharia de Alimentos no combate à fome, do desperdício de alimentos às mudanças climáticas e à promoção da saúde”, trouxe ao debate a necessidade urgente de unir esforços multidisciplinares, a fim de acelerar e dar coerência a uma transição saudável e sustentável.
O desafio é imenso e só poderá se desdobrar em reais oportunidades se a engenharia de alimentos se propuser a adequar saúde, sustentabilidade e justiça social, como afirmou o diretor da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp, Anderson Santana.
Durante o debate, após as cinco apresentações da jornada acadêmica, concluiu-se que os desafios envolvem uma abordagem interdisciplinar, como sustentou o representante da Fapesp, Luís Eduardo Aranha Camargo, na última conferência do fórum. A ciência deve atuar de forma mais holística e sistêmica, a fim de que os marcos legais sobre o processamento de alimentos estejam presentes no desenvolvimento da humanidade.
A equação é complexa, porque existe uma assimetria de poder em jogo. Comer bem é um direito constitucional a uma alimentação saudável, garantida por políticas públicas, uma vez que o acesso à comida saudável não é igual para todos. Ao mesmo tempo, será preciso colocar o tema da saúde humana no centro da discussão sobre a produção agroalimentar, como bem colocou outro palestrante, o sociólogo e professor Arilson Favareto (Cátedra Josué de Castro/USP).
Sabe-se que a indústria de transformação é o principal locus de inovação. No entanto, a inovação é algo que concentra renda. Assim, a ênfase deveria estar na preservação dos nutrientes nos alimentos, por seus efeitos benéficos à saúde, a fim de evitar que a população adoeça de obesidade, pois hoje quase 60% dos brasileiros estão acima do peso, como destacou o médico e professor da Unicamp, Dr. Licio Augusto Velloso.
O desafio está em convencer a indústria a desenvolver produtos de melhor qualidade, sem excesso de sal, açúcar e gorduras saturadas. Para o ex-reitor da Unicamp, José Antonio Meirelles, é possível desenvolver ciência e tecnologia preservando a natureza. Contudo, é o Estado que deve controlar a indústria, seja tributando produtos menos saudáveis, seja estabelecendo normas para uma produção mais equilibrada.
Na primeira palestra da manhã, o diretor do Instituto Fome Zero, o professor José Graziano da Silva, apresentou duas reflexões ao público. Por que a fome persiste, apesar da produção recorde, se a fome não significa falta de comida (Amartya Sen)? E por que ainda vivenciamos um cenário de insegurança alimentar no mundo? Hoje, uma em cada três pessoas enfrenta algum tipo de restrição alimentar, porque a distribuição de renda para o acesso aos alimentos é profundamente desigual.
Cerca de 2,6 bilhões de pessoas não conseguem pagar por uma dieta saudável. Ao mesmo tempo, nos últimos anos tem havido uma inflação dos alimentos superior à inflação geral. É a América Latina que lidera a inflação de alimentos no mundo. Mas qual é a causa?
O preço é formado por expectativas, ou seja, por aquilo que as pessoas acreditam que vai acontecer no futuro. Ao mesmo tempo, está presente a variável da concentração. No Brasil, metade (50%) do setor atacadista está nas mãos de 11 pessoas. Outro problema é a logística, como o transporte rodoviário, que, no caso brasileiro, encarece muito a produção. Além disso, violência e corrupção estão ligadas à percepção de que poderão faltar alimentos.
O custo da desigualdade no Brasil não está apenas relacionado à distribuição de renda, mas também à distribuição de riqueza (Piketty). Nos últimos anos, tem aumentado vertiginosamente a concentração da renda e da riqueza.
Por causa da dupla carga de má nutrição — a fome e a epidemia de obesidade na América Latina e no Brasil — é necessário aumentar a produção de frutas, legumes e verduras, os chamados produtos frescos, para oferecer dietas mais saudáveis às populações. Porém, é preciso focar no acesso e, para isso, é urgente reduzir a desigualdade.
Graziano da Silva encerrou a exposição fazendo menção à Revolução Verde, que teve seu mérito a partir da década de 1970 ao aumentar exponencialmente a produção de alimentos, evitando a fome na Ásia, por exemplo. Contudo, esse processo acabou acarretando outros problemas, como o uso abusivo de químicos (fertilizantes e agrotóxicos) nas plantações. Por isso, é preciso superar esse mecanismo produtivo de forma sustentável, em prol da saúde humana.
A palestra do sociólogo e professor Arilson Favareto centrou-se no impacto das mudanças climáticas na produção de alimentos. Os problemas colocados ao debate contemporâneo não são os mesmos que se apresentavam há 60 ou 70 anos, quando a Revolução Verde respondia a uma realidade distinta.
Hoje, o problema central não é aumentar a produção e a oferta, mas colocar o tema da saúde humana no centro da produção agroalimentar. A face mais visível do problema é constatar que o sistema agroalimentar contribui com aproximadamente três quartos das emissões de gases de efeito estufa, sendo o desmatamento responsável por metade dessas emissões.
A mudança do clima é uma das nove fronteiras planetárias que não deveriam ser ultrapassadas. Até agora, sete dessas nove fronteiras foram ou estão sendo ultrapassadas, e a agropecuária contribui significativamente para quase todas elas. Portanto, olhar para essas nove fronteiras é crucial para a integração da biosfera, pois a perturbação de cada uma afeta todas as outras.
O que precisa mudar é a lógica de funcionamento do sistema agroalimentar. É necessária uma nova ciência — ou uma ciência renovada — capaz de compreender as interdependências entre essas nove fronteiras. Outro problema é o deslocamento da fronteira agropecuária. Ambientes com maior diversidade estão sendo destruídos e substituídos por paisagens monótonas.
Vejamos alguns exemplos do sistema agroalimentar. No caso da agricultura, observa-se a substituição da biodiversidade por paisagens monótonas, decorrentes da plantação de uma única espécie em áreas extensivas. Já na pecuária, a dificuldade está no fato de que as áreas de pastagem representam 70% das terras agrícolas do mundo, e 40% da produção de grãos é destinada à alimentação animal.
Também em relação às dietas há uma menor diversidade alimentar. Hoje, a monotonia dessas dietas decorre de seis culturas agrícolas que respondem por três quartos daquilo que as pessoas consomem. Parte expressiva das doenças crônicas não transmissíveis está relacionada a esse padrão alimentar. Portanto, a maneira como as pessoas se alimentam depende do que o sistema alimentar lhes oferece.
Por sua vez, o sistema agroalimentar passa a ser afetado tanto pela irracionalidade ambiental — erosão da biodiversidade, aumento de CO₂ e indisponibilidade hídrica — quanto pela irracionalidade econômica — aumento do custo de produção e elevação de custos indiretos, como seguros, renegociação de dívidas e gastos com saúde.
As inovações capazes de promover uma mudança de regime estariam ligadas a uma agropecuária regenerativa, isto é, ao uso de bioinsumos na produção agrícola e a um sistema de intensificação moderada na pecuária; ao uso de proteínas artificiais; e também a inovações institucionais, como rotulagem nas embalagens, tributação, crédito e rastreabilidade.
Para Favareto, os dois cenários possíveis hoje são os seguintes. O primeiro seria uma transição mais lenta e ambígua, na qual os riscos envolveriam um aquecimento global superior a três graus, a erosão da biodiversidade e o agravamento de eventos extremos, o que levaria ao aumento do custo da inação. O segundo cenário consiste em acelerar e dar coerência a uma transição agroalimentar saudável e sustentável, uma vez que não se trata de opor tecnologias modernas, de um lado, e práticas tradicionais, de outro, mas de trabalhar com a diversidade e a diversificação.





