Blog do IFZ | 14/04/2026
O estudo “Qual o impacto de variações cambiais na dinâmica da inflação de alimentos no Brasil?”, working paper elaborado por Rafael S. M. Ribeiro, Maria Luíza Cunha e Clara Saliba, examina com rigor empírico uma questão recorrente no debate econômico nacional: até que ponto as oscilações do câmbio influenciam os preços dos alimentos no país.
A pesquisa percorre mais de duas décadas, de 2003 a 2025, e parte de um dado que tem marcado a experiência recente das famílias brasileiras. Entre 2020 e 2025, a inflação de alimentos acumulou cerca de 53%, superando os demais grupos que compõem o índice geral de preços . Considerando o peso expressivo desses itens na cesta de consumo, trata-se de uma pressão contínua sobre o poder de compra, com efeitos que se distribuem de maneira desigual na sociedade.
O trabalho dirige seu olhar para uma explicação frequentemente mobilizada, sobretudo em momentos de maior instabilidade econômica: a desvalorização cambial. A hipótese é conhecida. Um real mais fraco encarece insumos importados, amplia a atratividade das exportações agrícolas e pode restringir a oferta doméstica, pressionando os preços. O estudo, contudo, prefere submeter essa hipótese à verificação sistemática.
Os resultados apontam para uma relação mais moderada do que sugere o senso comum. Nos modelos lineares estimados, o repasse cambial existe, mas sua intensidade é reduzida. Uma depreciação de 10 pontos percentuais na taxa de câmbio eleva a inflação de alimentos em torno de 0,1 ponto percentual, com efeitos que se distribuem ao longo de até seis meses . O câmbio, portanto, influencia, mas o faz de maneira limitada e com atraso.
Quando se observa a dinâmica de forma não linear, surgem nuances adicionais. O impacto do câmbio não se dá de maneira simétrica. As depreciações tendem a pressionar os preços, ainda que de forma discreta, enquanto as apreciações não apresentam efeito estatisticamente relevante . Além disso, apenas movimentos mais intensos — superiores a cerca de 10% — produzem algum efeito mensurável. Variações mais suaves tendem a ser absorvidas ao longo da cadeia produtiva.
Esse comportamento sugere que o processo de formação de preços incorpora decisões estratégicas. A elevação de custos é, em parte, repassada ao consumidor. Já eventuais reduções não se traduzem automaticamente em alívio nos preços finais, seja por rigidez, seja por recomposição de margens.
Ao deslocar o foco do câmbio, o estudo ilumina os fatores que, de fato, estruturam a inflação de alimentos no Brasil. O primeiro deles é a inércia inflacionária. Os modelos estimados indicam que a inflação passada exerce influência dominante sobre a inflação corrente, com coeficiente próximo de 0,9 . Em outras palavras, a dinâmica recente dos preços tende a se prolongar, refletindo mecanismos de indexação disseminados entre produtores, indústria e varejo.
O segundo elemento de maior peso está nos choques de oferta, especialmente aqueles associados a eventos climáticos. O fenômeno La Niña aparece como fator relevante de pressão sobre os preços, podendo elevar a inflação de alimentos em até cerca de 0,4 ponto percentual . A explicação remete à redução de chuvas em regiões agrícolas estratégicas, com impacto direto sobre a produtividade. Já o El Niño apresenta efeitos menos definidos, com maior grau de incerteza estatística.
A partir desses resultados, a inflação de alimentos se revela menos sensível a variáveis financeiras imediatas e mais vinculada a condições estruturais e a eventos que afetam diretamente a oferta. O estudo também observa que a própria composição dos preços finais contribui para reduzir o impacto do câmbio. Custos como salários, energia e logística interna, que não respondem diretamente às variações cambiais, ocupam parcela significativa na formação dos preços.
Há, ainda, outros mecanismos que amortecem esse repasse. Empresas podem ajustar margens para preservar participação de mercado, contratos de fornecimento introduzem defasagens, e instrumentos de proteção financeira reduzem a exposição a oscilações cambiais de curto prazo. A credibilidade da política monetária também exerce influência ao moderar expectativas inflacionárias.
Outro ponto relevante diz respeito à heterogeneidade do setor. Nem todos os alimentos respondem da mesma forma. Produtos com maior inserção no comércio internacional tendem a reagir de modo distinto daqueles voltados ao consumo interno. Essa diversidade sugere que análises mais desagregadas podem revelar dinâmicas específicas que se diluem quando se observa o conjunto agregado.
As conclusões do trabalho são diretas. O câmbio tem efeito sobre a inflação de alimentos, mas não ocupa posição central em sua determinação. A dinâmica dos preços é explicada, sobretudo, pela persistência inflacionária e pelos choques de oferta, com destaque para fatores climáticos. Políticas orientadas exclusivamente ao controle cambial, portanto, tendem a produzir resultados limitados nesse campo.
Ao final, o estudo sugere que o entendimento da inflação de alimentos exige atenção às condições internas da economia, à organização das cadeias produtivas e à crescente incidência de eventos climáticos. Trata-se de um fenômeno que se desenha no tempo e no território, mais do que nas oscilações imediatas dos mercados financeiros.
Rafael S. M. Ribeiro é economista, pesquisador vinculado ao CEDEPLAR/UFMG e ao Made/FEA-USP
Maria Luíza Cunha é economista, pesquisadora vinculada ao CEDEPLAR/UFMG e ao Made/FEA-USP
Clara Saliba é economista, pesquisadora vinculada ao IE/UNICAMP e ao Made/FEA-USP
Baixe aqui o estudo “Qual o impacto de variações cambiais na dinâmica da inflação de alimentos no Brasil?“
Working Paper disponibilizado pelo MADE/USP
https://madeusp.com.br/publicacoes/artigos/qual-o-impacto-de-variacoes-cambiais-na-dinamica-da-inflacao-de-alimentos-no-brasil/
