Blog do IFZ | 24/04/2026
A fome deixou de ser crise: tornou-se estrutura
A forma como a fome ainda é descrita no debate público revela um descompasso crescente entre linguagem e realidade. Expressões como “crise alimentar”, “emergência” ou “choque” sugerem episódios passageiros, como se estivéssemos diante de interrupções ocasionais em um sistema essencialmente funcional. Essa leitura já não se sustenta diante do quadro atual. O que se impõe, com clareza cada vez maior, é a persistência de um fenômeno contínuo, reiterado e previsível.
A fome contemporânea apresenta-se menos como ruptura e mais como permanência. Ela se enraíza em determinados territórios, reaparece com regularidade e se associa a dinâmicas recorrentes, entre elas conflitos prolongados, vulnerabilidades climáticas, instabilidades econômicas e fragilidades institucionais. Nesse contexto, a palavra “crise” tende a suavizar a gravidade do problema, ao sugerir transitoriedade onde há continuidade.
Observa-se, assim, uma inflexão silenciosa, porém decisiva. A fome deixa de ser compreendida como evento isolado e passa a configurar uma condição estrutural. Reconhecer essa transformação não implica aceitá-la, mas nomeá-la com rigor. Trata-se de admitir que, em diversas regiões, a privação alimentar integra o funcionamento regular da vida social e econômica, sustentada por fatores que se reproduzem ao longo do tempo.
É sob essa perspectiva que o Relatório Global sobre Crises Alimentares 2026 (Global Report on Food Crises 2026), adquire especial relevância. Mais do que reunir evidências, o documento delineia com consistência essa mudança de natureza, oferecendo os elementos necessários para compreender a extensão do problema, sua gravidade e, sobretudo, sua permanência no cenário contemporâneo.
Insegurança alimentar aguda e desnutrição permanecem em níveis alarmantes à medida que as crises se aprofundam, alertam ONU, União Europeia e parceiros em novo relatório
Na última década, o contingente de pessoas em situação de fome aguda duplicou, ao passo que o financiamento retrocedeu a patamares observados em 2016
UE/BMZ/FCDO/g7+/DAFM/FAO/FIDA/PMA/ACNUR/UNICEF/BM
Bruxelas/Berlim/Londres/Díli/Dublin/Roma/Genebra/Nova York/Washington, D.C. — Os níveis de insegurança alimentar aguda e de desnutrição permanecem alarmantemente elevados e profundamente enraizados, com as crises progressivamente concentradas em um núcleo restrito de países, segundo o Relatório Global sobre Crises Alimentares 2026 (Global Report on Food Crises 2026), divulgado hoje por uma aliança internacional. Em sua décima edição, o relatório evidencia que a fome aguda duplicou ao longo da última década — e que, pela primeira vez em sua série histórica, foram formalmente reconhecidas duas situações de fome no mesmo ano.
Elaborado pela Rede Global contra as Crises Alimentares ( Global Network Against Food Crises – GNAFC), o relatório revela a persistente e elevada concentração geográfica da fome aguda. Dez países — Afeganistão, Bangladesh, República Democrática do Congo, Mianmar, Nigéria, Paquistão, Sudão do Sul, Sudão, República Árabe Síria e Iêmen — respondem por dois terços do total de pessoas expostas a níveis elevados de insegurança alimentar. Entre eles, Afeganistão, Sudão do Sul, Sudão e Iêmen configuram os cenários mais críticos, tanto em termos proporcionais quanto em números absolutos.
No extremo mais grave, a fome foi identificada na Governadoria de Gaza e em partes do Sudão em 2025, de acordo com a Classificação Integrada de Fases de Segurança Alimentar (Integrated Food Security Phase Classification – IPC). Trata-se da primeira ocorrência, desde o início da série do GRFC, em que a fome é confirmada simultaneamente em dois contextos distintos — um indicativo inequívoco da intensificação das formas mais severas de privação alimentar, impulsionadas sobretudo por conflitos armados, restrições ao acesso humanitário e agravadas pelo deslocamento forçado.
Ao todo, 266 milhões de pessoas, distribuídas por 47 países e territórios, enfrentaram níveis elevados de insegurança alimentar aguda em 2025, o que corresponde a quase 23% da população analisada — proporção ligeiramente superior à observada em 2024 e praticamente o dobro da registrada em 2016. No mesmo período, a gravidade da insegurança alimentar aguda atingiu o segundo patamar mais elevado já registrado, mantendo a parcela da população em situação extrema entre os níveis mais críticos das últimas duas décadas. O número de pessoas em condição de fome catastrófica (Fase 5 da IPC) é hoje nove vezes superior ao observado em 2016.
Paralelamente, a desnutrição aguda permanece como uma preocupação central e em expansão. Apenas em 2025, 35,5 milhões de crianças encontravam-se em estado de desnutrição aguda, das quais quase 10 milhões em condição grave. Quase metade dos contextos de crise alimentar também enfrentou crises nutricionais, reflexo da combinação entre dietas inadequadas, elevada carga de doenças e rupturas nos serviços essenciais. Nos cenários mais severos — como Gaza, Mianmar, Sudão do Sul e Sudão — a convergência desses fatores resultou em níveis extremos de desnutrição e em riscos significativamente ampliados de mortalidade.
O deslocamento forçado segue atuando como vetor de agravamento da insegurança alimentar. Em 2025, mais de 85 milhões de pessoas foram deslocadas à força em contextos de crise alimentar — incluindo deslocados internos, solicitantes de asilo e refugiados —, sendo que essas populações enfrentam, de forma recorrente, níveis mais elevados de fome aguda do que as comunidades anfitriãs.
No prefácio do relatório, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, assinala que os conflitos continuam a constituir o principal motor da insegurança alimentar aguda e da desnutrição em escala global. Ao destacar o caráter inédito da ocorrência simultânea de fome em duas áreas afetadas por conflitos, ele qualifica o relatório como um chamado urgente à ação, instando lideranças globais a mobilizar vontade política para ampliar rapidamente os investimentos em ajuda humanitária essencial e avançar na superação dos conflitos que perpetuam tal quadro.
Perspectivas para 2026 permanecem desfavoráveis
Para 2026, o relatório projeta a persistência de níveis críticos de insegurança alimentar aguda em múltiplos contextos. Conflitos em curso, variabilidade climática e incertezas econômicas globais — incluindo pressões sobre os mercados de alimentos — tendem a sustentar ou agravar as condições em diversos países.
Embora uma avaliação abrangente ainda seja prematura, a escalada do conflito no Oriente Médio — além de provocar novos deslocamentos em uma região que já abriga milhões de deslocados e retornados — expõe países em crise alimentar a riscos diretos e indiretos de disrupções nos mercados agroalimentares globais.
Os impactos imediatos tendem a manifestar-se sobretudo em âmbito regional, dada a elevada dependência do Oriente Médio de importações de alimentos, mas já se fazem sentir no poder de compra de populações vulneráveis, pressionado pela elevação dos custos de energia e logística. Ao mesmo tempo, interrupções persistentes no transporte — em uma região central para a exportação de energia e fertilizantes — podem desencadear efeitos de propagação mais amplos sobre os mercados globais.
Queda no financiamento compromete a capacidade de resposta
O relatório destaca como uma de suas principais preocupações a acentuada retração do financiamento humanitário e para o desenvolvimento destinado às crises alimentares. Os recursos disponíveis recuaram a níveis de quase uma década atrás, restringindo significativamente a capacidade de resposta de governos e organizações humanitárias. A própria produção de dados foi impactada, com um número menor de países aptos a gerar estimativas confiáveis e desagregadas.
Lacunas críticas de dados
A aparente redução no número de pessoas em situação de insegurança alimentar aguda decorre, em larga medida, da diminuição da disponibilidade de dados — e não de uma melhora efetiva das condições. A edição de 2026 apresenta o menor número de países com dados que atendem aos requisitos técnicos em uma década. Em 2025, 18 países e territórios — incluindo crises de grande magnitude, como Burkina Faso, República do Congo e Etiópia — não dispunham de dados comparáveis, embora, juntos, tenham representado mais de 27 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar aguda necessitando de assistência urgente em 2024.
Um problema estrutural que exige resposta estrutural
A Rede Global contra as Crises Alimentares enfatiza que as crises alimentares e nutricionais deixaram de ser choques temporários e passaram a configurar um fenômeno persistente, previsível e crescentemente concentrado em contextos prolongados.
Seu enfrentamento requer ações sustentadas e coordenadas, capazes de reduzir necessidades humanitárias, fortalecer a resiliência e enfrentar suas causas estruturais. Isso implica ampliar investimentos em sistemas agroalimentares resilientes, adaptação climática, meios de subsistência rurais e inclusão econômica, ao mesmo tempo em que se fortalecem sistemas de alerta precoce e se viabilizam ações antecipatórias.
A prevenção dos desfechos mais extremos — incluindo a fome — depende, ainda, da garantia de acesso humanitário seguro, do respeito ao direito internacional humanitário e do reforço do compromisso político para enfrentar a fome associada a conflitos.
Nota relevante
Níveis elevados de insegurança alimentar aguda correspondem à Fase 3 ou superior da Classificação Integrada de Fases de Segurança Alimentar (IPC) ou do Cadre Harmonisé (CH), bem como a níveis equivalentes derivados dessas metodologias e de outras fontes reconhecidas. As populações nessas condições necessitam de assistência urgente.
Sobre a Rede Global contra as Crises Alimentares (Global Network Against Food Crises – GNAFC)
A Rede Global contra as Crises Alimentares (GNAFC) é uma aliança internacional que reúne as Nações Unidas, a União Europeia, o Ministério da Cooperação Econômica e do Desenvolvimento da Alemanha (BMZ), o Ministério das Relações Exteriores, da Commonwealth e do Desenvolvimento do Reino Unido (FCDO), o governo da Irlanda, o grupo g7+ e diversas organizações governamentais e não governamentais. A iniciativa atua de forma coordenada no enfrentamento das crises alimentares, com base em evidências robustas e intervenções comprovadamente eficazes.
Baixe aqui o relatório “Global Report on Food Crises 2026“
Divulgado pela Rede Global contra as Crises Alimentares (GNAFC)
https://www.wfp.org/news/acute-food-insecurity-and-malnutrition-remain-alarmingly-high-crises-deepen-un-eu-and-partners
