Calor extremo ameaça a agricultura global e a segurança alimentar, aponta relatório Extreme Heat and Agriculture (FAO–WMO)

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Blog do IFZ | 22/04/2026

O avanço do calor extremo já não pode ser tratado como um fenômeno episódico ou periférico na análise dos sistemas alimentares. Ele passa a configurar, com crescente nitidez, o ambiente estrutural no qual a produção agrícola se desenvolve. É essa a constatação central do relatório conjunto Extreme Heat and Agriculture, elaborado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e pela Organização Meteorológica Mundial (WMO), que reúne evidências científicas recentes para examinar como temperaturas elevadas, cada vez mais frequentes e intensas, vêm reconfigurando a segurança alimentar global.

Desde sua apresentação, o documento estabelece um ponto de partida inequívoco. O calor extremo atua como um multiplicador de riscos, capaz de intensificar ameaças já conhecidas, como secas prolongadas, e de produzir efeitos combinados que atravessam todos os segmentos da agricultura. Cultivos, pecuária, pesca, aquicultura e florestas são atingidos de forma simultânea e interdependente. O impacto não se limita à produção. Ele alcança também a saúde e a capacidade de trabalho de milhões de pessoas diretamente envolvidas nas atividades agrícolas.

Os dados reunidos no relatório indicam que esses efeitos já são mensuráveis. A produtividade de culturas essenciais, como milho e trigo, apresenta quedas consistentes à medida que a temperatura média global se eleva. Estimativas apontam reduções de 7,5% e 6% respectivamente para cada aumento de 1 °C, com projeções ainda mais severas para o futuro. Na pecuária, o cenário é igualmente preocupante. Sob trajetórias de altas emissões, quase metade do rebanho bovino mundial poderá estar exposta a níveis perigosos de calor até o final do século, com perdas econômicas expressivas. Em ambientes aquáticos, ondas de calor marinhas já provocam mortalidade em massa e deslocamentos de estoques pesqueiros, alterando padrões ecológicos e produtivos.

Esse conjunto de impactos não ocorre de forma isolada. O relatório enfatiza a natureza composta dos eventos climáticos atuais. Episódios de calor extremo frequentemente se combinam com escassez hídrica, alterando profundamente o funcionamento dos sistemas agrícolas. O solo perde umidade, ciclos fisiológicos das plantas são encurtados, o estresse térmico compromete a reprodução vegetal e a saúde animal. Em florestas e pomares, cresce o risco de incêndios, com efeitos que ultrapassam a escala local e afetam cadeias produtivas inteiras.

A própria definição de calor extremo, no entanto, revela desafios metodológicos relevantes. A literatura científica tradicional tende a trabalhar com limiares específicos de temperatura para cada cultura ou com variações médias ao longo do tempo. A abordagem adotada no relatório busca ir além desses parâmetros, concentrando-se nos níveis de calor que produzem estresse fisiológico significativo ou danos diretos aos organismos. Essa mudança amplia a compreensão do fenômeno, mas também evidencia lacunas no conhecimento. Modelos agrícolas ainda apresentam limitações para captar plenamente os efeitos mais severos do calor, como danos celulares, alterações enzimáticas e falhas reprodutivas nas plantas. Trata-se de um campo em rápida evolução, mas que ainda demanda refinamento.

Outro aspecto relevante diz respeito à dimensão social do problema. Embora o relatório delimite sua análise até o ponto da produção primária, ele reconhece que os efeitos do calor extremo se irradiam para além das lavouras e rebanhos. Estudos associados indicam que famílias rurais de baixa renda sofrem perdas proporcionais maiores em seus rendimentos, com impactos ainda mais acentuados em lares chefiados por mulheres. Em países de baixa e média renda, o aumento da temperatura intensifica a dependência dessas populações em relação à agricultura, ampliando sua vulnerabilidade a choques climáticos futuros.

No plano conceitual, o relatório também oferece uma contribuição importante ao distinguir entre calor extremo, ondas de calor e estresse térmico. O primeiro refere-se à magnitude das temperaturas em relação às condições locais. As ondas de calor introduzem a dimensão temporal, podendo se estender por dias ou meses. Já o estresse térmico descreve os efeitos diretos sobre organismos vivos, desde alterações comportamentais até falhas sistêmicas e morte. Essa diferenciação permite compreender com maior precisão como o fenômeno se manifesta em diferentes contextos e escalas.

Diante desse quadro, a adaptação surge como uma necessidade imediata. O fortalecimento da resiliência dos sistemas agroalimentares aparece como eixo central das recomendações. Isso inclui o desenvolvimento de cultivares mais tolerantes ao calor, melhorias na gestão da água e do solo, além do aprimoramento da governança de riscos. Sistemas de previsão climática e alertas antecipados ocupam posição estratégica, já que eventos de calor extremo apresentam, em muitos casos, algum grau de previsibilidade. Informações meteorológicas acessíveis e acionáveis podem permitir que agricultores e comunidades adotem medidas preventivas, reduzindo perdas.

Ainda assim, o relatório é claro ao apontar limites para a adaptação. À medida que a temperatura média global se aproxima de níveis críticos, as possibilidades de resposta tornam-se progressivamente mais restritas. A proteção duradoura dos sistemas alimentares depende de ações robustas de mitigação das mudanças climáticas, em escala global e coordenada.

O documento, ao reunir ciência climática e análise dos sistemas agroalimentares, propõe uma leitura integrada de um fenômeno que frequentemente foi subestimado nas políticas públicas. O calor extremo deixa de ser tratado como um evento episódico e passa a ser compreendido como um fator estruturante, com implicações diretas sobre a produção, a economia rural e a segurança alimentar.

Ao final, a mensagem que se impõe não é apenas de alerta, mas de orientação. A construção de sistemas agrícolas mais resilientes exige ação contínua, baseada em evidências e articulada entre diferentes níveis de governança. Trata-se de um esforço que envolve ciência, políticas públicas e práticas produtivas, com o objetivo de preservar a capacidade de sustentar populações em um clima cada vez mais instável.

Baixe aqui o relatório “Extreme Heat and Agriculture FAO–WMO Joint Report