Segurança alimentar na América Latina e Caribe: desigualdade e dieta inadequada avançam

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América Latina e Caribe enfrentam transição alimentar marcada por desigualdades persistentes e dietas de baixa qualidade, aponta relatório internacional

Blog do IFZ | 05/05/2026

Um diagnóstico abrangente sobre segurança alimentar e qualidade das dietas na América Latina e no Caribe, apresentado no estudo Relatório sobre a Situação da Segurança Alimentar e da Alimentação Saudável na América Latina e no Caribe (Latin American and Caribbean Landscape Report of Food Security and Healthy Diets), delineia um cenário de contrastes persistentes.

Produzido pela Alliance of Bioversity International and CIAT, em colaboração com o Institute of Nutrition of Central America and Panama (INCAP), o relatório integra o programa científico do CGIAR dedicado a dietas e nutrição. Elaborado por Ramya Ambikapathi, Johana Castillo, Jenny Wiegel, Mónica Mazariegos, Mark Lundy e Gina Kennedy, o trabalho distingue-se por articular, em uma mesma análise, quatro dimensões historicamente tratadas de forma dissociada — segurança alimentar, qualidade da dieta, nutrição e saúde. A partir desse enquadramento, examina tendências recentes na região e identifica um ponto de inflexão: a disponibilidade de alimentos deixou de constituir o principal entrave; o desafio passa a residir na garantia de uma nutrição adequada, acessível e saudável, ainda profundamente marcada por desigualdades.

Essa abordagem torna visíveis aspectos que escapam às estatísticas agregadas. Embora a região apresente níveis de subnutrição inferiores à média global, persiste um quadro expressivo de insegurança alimentar moderada ou grave, ao lado do avanço contínuo da obesidade e de doenças crônicas relacionadas à alimentação. Delineia-se, assim, uma transição nutricional em que carências e excessos coexistem e se reforçam.

A geografia da insegurança alimentar

A insegurança alimentar concentra-se sobretudo em áreas urbanas e periurbanas. Aproximadamente três quartos da população em situação de insegurança alimentar vivem nesses espaços, que passaram a reunir, ao longo das últimas décadas, dinâmicas complexas de acesso e consumo.

Nesses territórios, a presença física de alimentos não assegura acesso efetivo. O custo de uma dieta saudável, o mais elevado entre as regiões do mundo, impõe limites concretos às famílias de menor renda. Evidências reunidas pelo estudo indicam que dietas nutricionalmente adequadas podem custar até 67% mais do que aquelas restritas à satisfação de necessidades calóricas básicas.

Esse encargo recai de forma mais intensa sobre mulheres e lares por elas chefiados, ampliando uma desigualdade que atravessa o conjunto do sistema alimentar.

A desigualdade de gênero

A América Latina e o Caribe apresentam o maior hiato de gênero do mundo em insegurança alimentar. Mesmo antes da pandemia de COVID-19, mulheres já enfrentavam taxas superiores às dos homens, diferença que se manteve nos anos recentes.

Trata-se de um fenômeno multifacetado. Estruturas familiares, maior incidência de lares monoparentais femininos, inserção desigual no mercado de trabalho e normas sociais que regulam a distribuição de alimentos no interior dos domicílios compõem um quadro complexo. A urbanização intensifica essas assimetrias ao ampliar a dependência de alimentos adquiridos no mercado.

A desigualdade não se limita ao acesso. Estende-se à qualidade da dieta e aos desdobramentos sobre a saúde, com implicações diretas para a formulação de políticas públicas orientadas à equidade.

Dietas diversas, porém desequilibradas

O estudo distingue com clareza diversidade alimentar e qualidade nutricional. Em média, a população da região consome cerca de seis grupos alimentares, o que indica uma diversidade relativamente elevada. Ainda assim, essa variedade não se traduz em equilíbrio.

Três dos quatro princípios fundamentais de uma alimentação saudável — adequação, equilíbrio e moderação — não são plenamente atendidos. Persistem deficiências de micronutrientes, sobretudo de vitamina E, além de carências em vitamina D, cálcio e folato. Ao mesmo tempo, o balanço energético revela-se desfavorável, influenciado por baixos níveis de atividade física e pela presença recorrente de alimentos de alta densidade calórica e baixo valor nutricional.

O descompasso entre produção e consumo

A região ocupa posição central na produção global de alimentos, com destaque para frutas, açúcar e diversas commodities agrícolas. Esse protagonismo, contudo, não se converte em dietas mais saudáveis no plano doméstico.

A oferta interna de açúcar alcança níveis cerca de doze vezes superiores ao recomendado, enquanto o consumo de frutas, hortaliças e leguminosas permanece insuficiente. Esse desajuste reflete a orientação dos sistemas agrícolas, fortemente voltados à exportação, o que limita a disponibilidade e o acesso a alimentos nutritivos para a população local.

O resultado é um sistema em que a abundância produtiva convive com restrições concretas ao consumo de alimentos de qualidade.

Padrões alimentares e diferenças de gênero

As disparidades de gênero também se manifestam nos hábitos alimentares. Homens apresentam maior consumo de alimentos ultraprocessados, bebidas açucaradas e produtos ricos em gorduras e sódio. Mulheres, embora mais expostas à insegurança alimentar, tendem a manter padrões relativamente mais moderados.

Esse contraste sugere a necessidade de políticas que considerem não apenas a oferta de alimentos, mas também comportamentos alimentares moldados por fatores sociais, culturais e econômicos.

Um sistema em transformação

O panorama descrito pelo relatório aponta para um sistema alimentar em transformação, pressionado por urbanização, mudanças nos modos de vida e reconfigurações do mercado global. A coexistência de insegurança alimentar e excesso de peso sintetiza esse processo.

A análise indica a necessidade de superar abordagens fragmentadas. A quantidade de alimentos já não constitui critério suficiente. Qualidade, acessibilidade, diversidade e sustentabilidade devem ser consideradas de forma articulada.

Nesse horizonte, a alimentação passa a ocupar posição central nas estratégias de desenvolvimento, vinculando-se à saúde, à equidade social e às dinâmicas culturais.

Implicações para políticas públicas

O estudo oferece fundamentos consistentes para a formulação de políticas na região. Entre as diretrizes destacam-se a redução das desigualdades de gênero, o fortalecimento de sistemas alimentares locais, a ampliação do acesso a alimentos nutritivos e a regulação de produtos ultraprocessados.

A coordenação entre diferentes áreas — proteção social, agricultura, saúde e educação — revela-se decisiva para enfrentar um problema que atravessa múltiplas dimensões da vida social.

As evidências indicam, ainda, a necessidade de abordagens sensíveis às especificidades territoriais. Contextos urbanos e rurais apresentam desafios distintos, sobretudo no que se refere a preços, distribuição e acesso.

Entre produção e nutrição

A América Latina e o Caribe reúnem condições para produzir alimentos em escala global, mas ainda enfrentam dificuldades para assegurar dietas saudáveis à sua população. Esse descompasso orienta o debate sobre políticas alimentares nas próximas décadas.

O desafio consiste em aproximar produção e nutrição, reorganizando sistemas produtivos, mercados e padrões de consumo. O relatório oferece uma base consistente para esse esforço, ao evidenciar desigualdades persistentes e padrões alimentares que comprometem a saúde coletiva.

Garantir alimentação adequada deixa de ser apenas uma questão de oferta e passa a constituir um compromisso com o bem-estar, a equidade e a sustentabilidade.

Principais conclusões do estudo

  1. Na América Latina e no Caribe, a insegurança alimentar incide predominantemente sobre áreas urbanas e periurbanas, afetando de forma mais intensa as mulheres. Aproximadamente 75% da população em situação de insegurança alimentar na região reside nesses territórios.
  2. A região apresenta o maior hiato de gênero do mundo em insegurança alimentar, com disparidades superiores às observadas na África Subsaariana e no Sul da Ásia, já presentes antes da pandemia de COVID-19.
  3. A maioria dos países não atende aos princípios de uma alimentação saudável. Apesar da diversidade alimentar relativamente elevada, persistem insuficiências em adequação, equilíbrio e moderação, com balanço energético desfavorável.
  4. O consumo de alimentos protetores da saúde é insuficiente, enquanto produtos açucarados e processados são ingeridos em excesso. A disponibilidade de açúcar atinge níveis cerca de doze vezes superiores ao recomendado.
  5. Homens consomem, de forma consistente, mais alimentos de baixa qualidade nutricional do que mulheres, com maior ingestão de bebidas açucaradas, produtos processados e itens de alta densidade calórica.

Baixe aqui o estudo “Latin American and Caribbean Landscape Report of Food Security and Healthy Diets

Sobre o estudo

Citação: Ambikapathi, R.; Castillo, J.; Wiegel, J.; Mazariegos, M.; Lundy, M.; Kennedy, G. (2025) Latin American and Caribbean landscape report of food security and healthy diets. Cali (Colombia): International Center for Tropical Agriculture (CIAT). 49 p.
Link permanente: https://hdl.handle.net/10568/180958