Kerry Cullinan | Health Policy Watch | 6 de março de 2026
As grandes empresas do tabaco ajudaram a desenvolver os alimentos ultraprocessados (UPFs, na sigla em inglês) e a expandir a indústria, desenvolvendo e distribuindo produtos potencialmente viciantes que contribuem para o avanço da obesidade, do câncer, da demência e de doenças crônicas como o diabetes.
Essa é a conclusão de uma das análises mais abrangentes já realizadas sobre os fatores que impulsionam o consumo de alimentos ultraprocessados e seus impactos na saúde, publicada nesta quarta-feira no American Journal of Public Health (AJPH).
Os pesquisadores definem os alimentos ultraprocessados como produtos que não podem ser preparados em cozinhas domésticas, principalmente porque contêm aditivos como corantes, aromatizantes e emulsificantes que alteram as propriedades dos alimentos.
Em conjunto, os 18 estudos que compõem a análise retratam um sistema comercial que “concebeu, promoveu e normalizou produtos associados à ampla disseminação de doenças crônicas”, afirmou o principal autor do trabalho, Nicholas Chartres, das Universidades de Sydney e da Califórnia em São Francisco (UCSF).
A manipulação das gigantes do tabaco

Ao examinar mais de cem documentos internos da indústria do tabaco anteriormente mantidos em sigilo, a professora Tara Fazzino, da Universidade do Kansas, concluiu que empresas tabagistas norte-americanas construíram conglomerados globais de alimentos avaliados em bilhões de dólares ao “aproveitar seus negócios e sua infraestrutura já estabelecidos no setor do tabaco”.
Laura Schmidt, da Faculdade de Medicina da UCSF, analisou um exemplo específico: a forma como a Philip Morris “utilizou sua expertise em design de cigarros, engenharia de sabores e tecnologias de processamento para desenvolver a icônica marca de alimentos ultraprocessados voltada ao público infantil, a Lunchables”.
A Lunchables, linha de refeições prontas voltada ao público infantil, foi lançada pela Philip Morris em 1988, após a aquisição da General Foods e da Kraft. A empresa vendeu a Kraft em 2007.
Durante uma coletiva de imprensa realizada na terça-feira, Schmidt reiterou que a companhia utilizou conhecimentos desenvolvidos na indústria do tabaco para criar a marca.
Sua pesquisa também mostrou que os responsáveis pelo desenvolvimento do produto recorreram a estudos de psicologia do consumidor para compreender desejos e necessidades inconscientes das crianças.
“O Lunchables foi projetado para atender ao impulso infantil por independência, autonomia e brincadeira”, afirmou.
A dependência da combinação entre carboidratos e gordura
Ashley Gearhardt, professora de Psicologia da Universidade de Michigan, entrevistou mais de 1.600 norte-americanos de diferentes perfis para investigar quais alimentos eram percebidos como viciantes e por quê.
“Sou psicóloga clínica. Trabalho há muitos anos com pacientes que dizem: ‘Sinto que sou viciado nisso’; ‘Perdi o controle’; ‘Tenho desejos irresistíveis e não consigo parar, mesmo sabendo que isso está me matando’”, relatou.
Pizza de pepperoni, cookies com gotas de chocolate, batatas fritas, donuts glaceados e salgadinhos de batata obtiveram as maiores pontuações em potencial de dependência.
“Alimentos in natura não desencadearam respostas associadas à dependência”, observou. “Ninguém diz: ‘Você começa a comer fatias de maçã e não consegue mais parar’.”
Segundo Gearhardt, os alimentos que efetivamente ativam os mecanismos de recompensa do cérebro — estimulando a liberação de dopamina — são aqueles capazes de fornecer rapidamente grandes quantidades de carboidratos refinados, frequentemente combinados com gordura.
Ela descreveu essa combinação como um “golpe duplo”, uma associação que “vemos com tanta frequência nos alimentos ultraprocessados, mas que não existe na natureza”.
Com o tempo, até mesmo a embalagem ou o aroma desses produtos pode ser suficiente para desencadear a liberação de dopamina e aumentar o desejo de consumo.
Alimentos ultraprocessados e demência

Os alimentos ultraprocessados já representam a maior parte da dieta da população norte-americana, e seus efeitos sobre a saúde têm sido expressivos.
A relação entre esses produtos e a demência ainda é relativamente pouco explorada. No entanto, uma pesquisa liderada por Heejin Lee, pesquisadora de pós-doutorado da Escola de Saúde Pública T.H. Chan, da Universidade Harvard, chegou a conclusões preocupantes.
“Após acompanhar mais de 5.000 idosos norte-americanos durante quase dez anos, constatamos que aqueles que consumiam mais alimentos ultraprocessados — como salgadinhos industrializados, carnes processadas e bebidas açucaradas — apresentavam risco 58% maior de desenvolver demência, risco 46% maior de comprometimento cognitivo leve e risco 47% maior de apresentar qualquer um desses dois desfechos”, afirmou Cindy Leung, orientadora de Lee.
“As carnes processadas foram o principal fator associado ao risco de demência”, acrescentou. “Essas associações permaneceram mesmo após ajustes para fatores como renda, escolaridade, tabagismo, atividade física, consumo de álcool e risco prévio de doenças crônicas.”
O que o movimento MAHA acerta — e onde erra
Apesar da polarização política nos Estados Unidos, existe apoio bipartidário para que o governo adote medidas destinadas a reduzir os impactos dos alimentos ultraprocessados, afirmou Marion Nestle, professora emérita de Nutrição, Estudos Alimentares e Saúde Pública da Universidade de Nova York.
Segundo ela, o movimento Make America Healthy Again (MAHA) é formado por “pessoas que realmente se preocupam com o que seus filhos estão comendo”, e suas preocupações com corantes, aromatizantes e glifosato nos alimentos merecem atenção.
Lindsey Smith Taillie, da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, acrescentou que um dos principais méritos do movimento é “deslocar a narrativa da responsabilidade individual e da suposta falta de força de vontade para o verdadeiro responsável: a indústria alimentícia, que produz, vende e promove esses produtos, especialmente para crianças”.
Mas, segundo Nestle, o movimento também comete equívocos.
“O problema é que não se trata de um movimento baseado na ciência, mas em percepções e sentimentos. Seus integrantes acreditam que a experiência pessoal é mais importante do que aquilo que a ciência demonstra”, afirmou.
Enfrentando as gigantes da indústria alimentícia

Uma nova pesquisa de opinião de abrangência nacional incluída no estudo revelou que cerca de 70% dos norte-americanos acreditam que os alimentos ultraprocessados causam dependência, enquanto quase três quartos defendem advertências sobre riscos à saúde nos rótulos desses produtos.
Quase dois terços apoiam restrições à publicidade dirigida às crianças, enquanto a maioria dos eleitores, independentemente de orientação política, defende medidas governamentais mais rigorosas para enfrentar os danos associados aos alimentos ultraprocessados.
Os autores propõem a ampliação das atuais leis de proteção ao consumidor para incluir os alimentos ultraprocessados, por meio de advertências sanitárias, tributação específica, restrições ao marketing e à publicidade voltados ao público infantil e outras ferramentas de saúde pública inspiradas nas políticas de controle do tabagismo.
Segundo os pesquisadores, impostos e penalidades aplicados às grandes empresas do setor poderiam gerar receitas significativas, que poderiam ser utilizadas para reduzir o preço de frutas e hortaliças.
Kelly Brownell, especialista em políticas alimentares e professor emérito de Políticas Públicas do Instituto de Saúde Global da Universidade Duke, argumenta que ações judiciais contra práticas nocivas da indústria provavelmente serão necessárias para impulsionar políticas mais saudáveis.
Segundo ele, os governos frequentemente levam décadas para implementar medidas efetivas, mesmo depois de comprovados os danos causados por determinados produtos.
“Existem políticas já testadas em outros países, mas é como se estivessem trancadas dentro de um bunker. Falamos sobre elas. Esperamos que sejam adotadas. Mas muito pouco acontece”, afirmou. Segundo Brownell, ações judiciais podem “explodir esse bunker”, como ocorreu no enfrentamento à indústria do tabaco.
Brownell e seus colegas destacaram o papel que os procuradores-gerais dos estados norte-americanos podem desempenhar nesse processo.
“A maioria dos norte-americanos apoia investigações conduzidas pelos procuradores-gerais contra empresas de alimentos ultraprocessados, em moldes semelhantes aos processos movidos contra a indústria do tabaco, para revelar o que está acontecendo e por que os supermercados parecem tão fortemente manipulados contra o consumidor”, afirmou Gearhardt.
Cientistas lançam o movimento FedUP!
Paralelamente à divulgação dos estudos sobre alimentos ultraprocessados, cientistas, pesquisadores e defensores da saúde pública lançaram o FedUP!, um movimento de educação do consumidor orientado pela ciência.
A iniciativa pretende expor os danos associados aos alimentos ultraprocessados e oferecer aos norte-americanos “informações claras e baseadas em evidências sobre como o sistema alimentar moderno afeta a saúde”.
O novo portal do movimento transformará resultados de pesquisas científicas em conteúdos educativos, recursos e ferramentas acessíveis para ajudar famílias, comunidades e formuladores de políticas públicas a compreender melhor os alimentos ultraprocessados e adotar medidas concretas diante de seus impactos.
Créditos das imagens: Wei Ding/Unsplash, Pixabay e CIAPEC-INTA.
Publicado originalmente no Health Policy Watch
https://healthpolicy-watch.news/big-tobacco-engineered-ultra-processed-food/
