Blog do IFZ | 08/07/2026
Uma merenda escolar que chega quente e no horário certo, uma feira que se instala toda quinta-feira na praça do bairro, um cadastro de famílias em situação de insegurança alimentar que é atualizado com regularidade. Por trás de cada um desses gestos cotidianos existe uma rede de decisões, recursos, pessoas e disputas que raramente aparece aos olhos de quem simplesmente se senta à mesa. É justamente esse universo invisível que o livro “Políticas alimentares e capacidades estatais: os governos locais e os desafios de servir à mesa” se propõe a explorar, com a delicadeza de quem sabe que comer é, antes de tudo, um ato político.
Organizada por Catia Grisa, Silvia Aparecida Zimmermann e Melissa Luciana de Araújo, a obra é fruto do projeto de pesquisa “Construção de capacidades estatais para transformar os sistemas agroalimentares: uma análise das políticas alimentares nas capitais brasileiras”, financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) por meio da Chamada CNPq/MCTI/FNCT nº 18/2021-Universal 2021. Ao reunir pesquisadoras e pesquisadores de diferentes regiões do país e da América Latina, o livro assume um compromisso raro, o de entender por que algumas cidades conseguem sustentar, ano após ano, políticas capazes de enfrentar a fome e a má alimentação, enquanto outras veem seus programas nascerem e desaparecerem ao sabor das trocas de governo.
O ponto de partida da obra é simples de enunciar, mas complexo de resolver. A fome persiste, as doenças ligadas à má nutrição avançam, os preços dos alimentos oscilam de forma imprevisível e as chamadas desigualdades alimentares, presentes tanto nos desertos quanto nos pântanos alimentares das grandes cidades, seguem desafiando gestores públicos em todo o mundo. Diante desse cenário, cresce o reconhecimento de que são as cidades, e não apenas os governos nacionais, que ocupam a linha de frente na construção de respostas concretas. É nas ruas, nos mercados e nas escolas municipais que a fome se manifesta com mais clareza, e é ali também que muitas das soluções mais criativas têm sido gestadas.
Para compreender esse fenômeno, as organizadoras recorrem a um conceito que vem ganhando espaço nas ciências sociais brasileiras nos últimos anos: o de capacidades estatais. O livro distingue, com clareza didática, dois tipos complementares dessas capacidades. As capacidades técnico-administrativas dizem respeito aos recursos financeiros, tecnológicos e humanos disponíveis para formular e executar políticas. Já as capacidades político-relacionais tratam da habilidade de negociar, articular diferentes atores, dialogar com o Legislativo e abrir espaço para a participação da sociedade civil. Nenhuma das duas é permanente ou garantida; ambas se constroem, se fortalecem e podem se esvaziar conforme as prioridades políticas de cada gestão.
A primeira parte do livro se debruça sobre cinco capitais brasileiras que serviram de campo empírico ao projeto original, Curitiba, Porto Alegre, Salvador, Manaus e Belo Horizonte. A escolha não foi aleatória. Trata-se de cidades espalhadas por diferentes regiões do país, com trajetórias político-partidárias distintas e configurações muito particulares de suas políticas de abastecimento e alimentação. Curitiba aparece como um caso de continuidade sustentada por uma burocracia qualificada e engajada, capaz de atravessar diferentes gestões. Porto Alegre revela uma trajetória sinuosa, marcada por décadas de inovação participativa nos anos 1990, expansão intergovernamental nos anos 2000 e uma retomada recente impulsionada por crises e por conexões com redes nacionais e internacionais. Manaus, situada no coração da Amazônia, expõe as dificuldades de sustentar políticas alimentares em um contexto de escassez de recursos humanos, limitações logísticas e fragilidade no controle social. Salvador enfrenta desafios semelhantes, agravados pela disputa política entre esferas de governo e por processos de terceirização que fragilizam a burocracia local. Belo Horizonte, por fim, surge como um caso de continuidade admirável: mais de três décadas de políticas alimentares sustentadas por um arranjo institucional híbrido, orçamento robusto e forte inserção em agendas internacionais.
A segunda parte da obra amplia o horizonte geográfico e temático. Dois capítulos internacionais trazem experiências da Costa Rica e do Chile. Em San Ramón, na Costa Rica, pesquisadoras analisam um plano piloto voltado a sistemas alimentares saudáveis e sustentáveis, identificando entraves como a baixa coordenação entre órgãos municipais e a escassez de canais formais de comunicação entre gestores. Já em San Nicolás, no Chile, o estudo acompanha a experiência pioneira de transformar um município em referência agroecológica, mesmo sob as restrições impostas por um Estado nacional de estrutura unitária e orientação neoliberal. Outros capítulos desta parte revisitam Curitiba sob a ótica da intersetorialidade, analisam dados de centenas de municípios brasileiros a partir da Pesquisa de Informações Básicas Municipais e apresentam a atuação do Laboratório Urbano de Políticas Públicas Alimentares, iniciativa que aproxima cidades brasileiras para o compartilhamento de soluções e aprendizados mútuos.
A terceira e última parte do livro amplia ainda mais o repertório de olhares. Um dos capítulos investiga como três capitais signatárias do Pacto de Milão, acordo internacional voltado à promoção de sistemas alimentares urbanos mais justos, lidam com os desertos e pântanos alimentares em seus territórios, mostrando que a adesão a compromissos globais nem sempre se traduz em transformações concretas na vida das pessoas. Outro capítulo examina a relação entre planejamento urbano e políticas alimentares em Belo Horizonte, evidenciando avanços na agricultura urbana ao lado de lacunas importantes nos instrumentos que ordenam o crescimento das cidades. Há ainda um estudo sobre o processo de construção do Plano Municipal de Segurança Alimentar e Agroecologia em Contagem, tratado como uma expressão viva de capacidade estatal em formação, e um capítulo final que cruza fronteiras para analisar políticas de soberania e segurança alimentar em três cidades paraguaias, revelando iniciativas relevantes mesmo na ausência de estruturas institucionais dedicadas ao tema.
O que estas páginas oferecem, no fundo, é um convite generoso à reflexão sobre o papel das cidades na garantia de um direito fundamental. Alinhado aos princípios da Lei Orgânica de Segurança Alimentar e Nutricional, o livro deixa claro que servir à mesa exige muito mais do que boa vontade: demanda burocracias qualificadas, orçamentos estáveis, coordenação entre diferentes níveis de governo e espaços genuínos de participação social. Ao reunir experiências tão diversas, de capitais brasileiras a pequenas cidades latino-americanas, a obra prova que não existe uma fórmula única para enfrentar a fome, mas existem caminhos, aprendizados e alianças que podem inspirar gestores, pesquisadores e cidadãos comprometidos com um futuro alimentar mais justo e mais digno para todos.
Baixe aqui o livro “Políticas alimentares e capacidades estatais: Os governos locais e os desafios de servir à mesa”
