O Canto da Mesa Farta

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Peço licença aos presentes,
À viola e ao luar;
Quem canta a dor do seu povo
Nunca canta por cantar.
Faz do verso uma semente
Que nasceu pra germinar.

Nas veredas do Nordeste,
Onde o vento assobia,
Vi menino repartindo
O sorriso e a agonia;
Quem tem pouco reparte tudo,
Quem tem muito silencia.

A fome não tem espingarda,
Nem cavalo nem facão;
Chega mansa, entra escondida,
Sem bater no coração.
Vai roubando a esperança
Feito cupim no mourão.

Ela veste roupa velha,
Tem o rosto da aflição;
Dorme à sombra da riqueza,
Na varanda do patrão.
Enquanto a mesa transborda,
Falta pão no barracão.

Deus fez a chuva e a colheita,
Fez o rio e o milharal;
Nunca fez um homem rico
Pra mandar no bem geral.
Foi a ganância dos homens
Que cavou tamanho mal.

A terra é mãe generosa,
Nunca negou seu favor;
Brota milho, brota feijão,
Brota fruta em seu calor.
Quem fabrica a escassez
É a cegueira do senhor.

Vi um velho agricultor
Conversando com o chão:
“Terra boa dá de tudo,
Quando encontra boa mão.
O que seca o nosso roçado
É descaso da nação.”

Não é só plantar semente,
Nem colher em mutirão;
É fazer que o fruto encontre
Quem precisa do seu pão.
Colheita sem repartilha
É deserto em procissão.

Quem governa um povo livre
Tem um peso sobre si:
Não lhe basta abrir estradas
Nem palácio construir.
Se uma criança tem fome,
Ainda há por corrigir.

Um país vale mais pelo
Que consegue proteger,
Do que pelos monumentos
Que levanta pra se ver.
Grande é quem sustenta vidas,
Não quem manda obedecer.

Vi escolas com panelas
Perfumando o corredor;
Cada prato servido ali
Era uma aula de valor.
Livro e pão, quando se encontram,
Fazem nascer novo autor.

Vi a enxada do pequeno
Transformar o chão rachado;
Vi mulher plantar futuro
Num quintal abandonado.
Quem cultiva a própria terra
Nunca vive derrotado.

Cada povo traz consigo
Seu jeito de caminhar;
Não existe um só remédio
Pra ferida cicatrizar.
Quem reparte experiência
Também aprende a ensinar.

O Brasil leva na alma
Muito mais que cafezal;
Carrega o suor do campo,
O saber tradicional.
Quando estende a própria mão,
Faz crescer outro quintal.

Mas respeito não se compra
Com discurso ou medalhão;
Ele nasce quando o exemplo
Faz morada na ação.
Quem deseja ser ouvido
Primeiro escuta o irmão.

Hoje o mundo anda aflito
Com a seca e o temporal;
Tem a guerra repartindo
Cinza, medo e vendaval.
Quem destrói celeiro e ponte
Multiplica o funeral.

Mesmo assim persiste a vida,
Como o mandacaru em flor;
Depois da noite mais longa
Sempre acorda um novo sol.
Esperança é passarinho
Que não teme o arrebol.

Se a justiça abrir caminho,
Se houver boa intenção,
Cada mesa terá riso,
Cada casa terá pão.
E a fartura será irmã
Da mais justa divisão.

Meu cordel chega ao seu fim,
Mas não fecha a discussão;
Cada verso é um desafio
Pra mudar a direção.
Porque o mundo só melhora
Quando melhora o coração.

Quem escutou esta história,
Leve adiante o refrão:
A riqueza mais bonita
Não se guarda no porão;
Ela mora na partilha,
Na justiça e no pão.

Autor: Palmarí H. de Lucena

Nota do Autor
Este cordel constitui uma obra literária original, inspirada em temas universais de segurança alimentar, justiça social, agricultura e solidariedade entre os povos. Sua narrativa, versos, metáforas e estrutura são de criação autoral independente.