Agricultores familiares e agroecologia: o que revela um estudo nacional sobre o PAA

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Estudo nacional identifica as características associadas à adoção de modelos de produção orgânica e de base agroecológica entre agricultores familiares

Blog do IFZ | 31/08/2026

Desde 2012, o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) prioriza a compra de produtos provenientes de sistemas produtivos mais sustentáveis, especialmente de agricultores em situação de maior vulnerabilidade. A política procura, assim, utilizar o poder de compra do Estado para fortalecer a agricultura familiar e favorecer a produção orgânica e de base agroecológica. Mas quais características estão associadas à decisão de adotar esses modelos?

O estudo Determinantes da adoção da agroecologia no Programa de Aquisição de Alimentos (PAA): evidências a partir de um modelo de regressão logística no Brasil, de Gonimar Venâncio Teixeira Marques, Maritza Rosales, Regina Helena Rosa Sambuichi e Marcelo José Braga, publicado na Revista de Economia e Sociologia Rural, procurou responder a essa questão a partir de dados de 1.720 agricultores familiares fornecedores da modalidade Compra com Doação Simultânea do PAA (PAA-CDS). A pesquisa abrangeu 215 municípios de todos os estados brasileiros. Entre os entrevistados, 1.147 declararam adotar modelos de produção orgânica ou de base agroecológica e 573 não os adotavam.

Realizado com dados primários levantados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) entre 2021 e 2022, o estudo utilizou regressão logística binária para identificar os fatores associados à probabilidade de adoção. A pesquisa de campo recorreu a uma amostragem não probabilística, uma limitação reconhecida pelos próprios autores e que restringe a generalização dos resultados.

A trajetória de quem produz

Entre os 20 fatores analisados, os resultados mais consistentes estão relacionados às características do agricultor e da composição familiar.

A experiência acumulada na agricultura apresentou associação positiva com a adoção. Cada ano adicional de experiência correspondeu a um aumento de 0,20 ponto percentual na probabilidade estimada. Na amostra, o tempo médio de experiência como agricultor familiar foi de 22,2 anos.

O sexo também apresentou associação significativa. Ser mulher esteve associado a uma probabilidade 5,33 pontos percentuais maior de adoção em comparação com os homens. As mulheres representavam 52,7% dos agricultores pesquisados.

Pertencer a Povos e Comunidades Tradicionais, como indígenas, quilombolas, ribeirinhos, extrativistas e pescadores artesanais, esteve associado a um aumento de 5,77 pontos percentuais. Esses grupos correspondiam a 16,8% da amostra.

A condição fundiária apresentou um dos efeitos mais expressivos. Agricultores assentados pela reforma agrária tiveram probabilidade 9,49 pontos percentuais maior de adoção, em comparação com a categoria de referência do modelo. Os assentados representavam 20,9% da amostra.

A escolaridade também se mostrou relevante. Ter ensino superior esteve associado a um aumento de 8,34 pontos percentuais na probabilidade de adoção, embora apenas 10,8% dos entrevistados tivessem esse nível de formação.

A idade apresentou coeficiente negativo no modelo, mas não aparece como estatisticamente significativa na Tabela 2 do artigo. Por isso, esse resultado deve ser interpretado com cautela. A variável cor ou raça, por sua vez, não apresentou associação estatisticamente significativa.

Quando as políticas não se articulam

Entre as variáveis relacionadas ao acesso a instituições, somente a participação no Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) apresentou associação estatisticamente significativa. Participar do programa esteve associado a um aumento de 5,49 pontos percentuais na probabilidade de adoção.

Associação ou cooperativa, acesso ao Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) e Assistência Técnica e Extensão Rural (Ater) não apresentaram associação estatisticamente significativa com a adoção dos modelos estudados.

O resultado chama atenção porque 71,6% dos entrevistados declararam acessar o Pronaf e 69,1% tinham acesso à Ater. Ainda assim, nenhuma dessas duas variáveis apresentou associação estatística significativa. No caso da Ater, os autores relacionam o resultado a dificuldades metodológicas, financeiras e institucionais para consolidar uma assistência técnica orientada à agroecologia.

O Pnae oferece um contraste. Desde 2009, pelo menos 30% dos recursos federais destinados à alimentação escolar devem ser aplicados na compra de produtos da agricultura familiar, com prioridades para assentamentos, comunidades tradicionais indígenas e quilombolas e grupos de mulheres. Para os autores, esse mecanismo pode contribuir para criar condições de mercado favoráveis à adoção. Na amostra, 63,1% dos agricultores declararam acessar o programa.

O que a estrutura da propriedade não explicou

As características da unidade produtiva também não apresentaram associações estatisticamente significativas. Foi esse o caso do acesso à internet, da participação da produção agropecuária na renda familiar, da contratação de mão de obra, da disponibilidade de insumos e da área da unidade produtiva.

O resultado desloca a atenção para a trajetória e as características dos próprios agricultores. Ainda assim, é importante preservar o alcance exato da conclusão: o estudo identifica associações estatísticas, e não relações causais.

Diferenças entre as regiões

A análise regional utilizou o Norte como categoria de referência. Em comparação com essa região, o Centro-Oeste apresentou associação negativa com a adoção, enquanto o Sudeste apresentou associação positiva e estatisticamente significativa. Nordeste e Sul não apresentaram diferenças estatisticamente significativas.

Os autores relacionam o resultado do Centro-Oeste à predominância da produção convencional e da infraestrutura associada a esse modelo. Para o Sudeste, destacam a maior presença de grandes centros urbanos e de mercados consumidores. São interpretações propostas pelos autores para os resultados regionais, e não relações causais demonstradas pelo modelo.

O que o estudo acrescenta

A principal conclusão é que, entre os fatores analisados, as características do agricultor e da composição familiar apresentam as associações mais consistentes com a adoção de modelos de produção orgânica e de base agroecológica. Experiência, sexo, pertencimento a Povos e Comunidades Tradicionais, condição fundiária e escolaridade destacam-se nesse conjunto.

Ao mesmo tempo, a ausência de associação significativa com Pronaf, Ater e associativismo sugere aos autores uma possível insuficiência na articulação entre políticas públicas voltadas à agricultura familiar e à produção sustentável. O Pnae aparece como exceção entre os instrumentos institucionais analisados.

O estudo chama atenção também para uma dificuldade que ultrapassa os limites da própria pesquisa: a escassez de dados oficiais, sistematizados e recorrentes sobre produção orgânica e agroecológica. Essa lacuna dificulta a produção de evidências, o planejamento de políticas e o acompanhamento de seus resultados.

Os autores reconhecem duas limitações principais: o tratamento conjunto da produção orgânica e da agroecologia e o caráter não probabilístico da amostra, que restringe a generalização dos resultados. Para pesquisas futuras, propõem analisar de forma integrada políticas como PAA, Pnae, Pronaf, Pnater e Pnapo.

O estudo acrescenta uma evidência importante ao debate sobre agricultura familiar e sustentabilidade. Dentro do universo pesquisado, a adoção de modelos orgânicos e de base agroecológica aparece mais fortemente associada às características e à trajetória dos agricultores do que a diversas condições institucionais e estruturais analisadas. O resultado reforça a importância de políticas públicas capazes de reconhecer essas diferenças e, ao mesmo tempo, articular os instrumentos de apoio à produção sustentável.

Baixe aqui o artigo Determinantes da adoção da agroecologia no Programa de Aquisição de Alimentos (PAA): evidências a partir de um modelo de regressão logística no Brasil

Sobre os autores

Gonimar Venâncio Teixeira Marques – Programa de Pós-Graduação em Extensão Rural, Universidade Federal de Viçosa (UFV), Viçosa (MG)

Maritza Rosales – Instituto de Políticas Públicas e Desenvolvimento Sustentável (IPPDS), Universidade Federal de Viçosa (UFV), Viçosa (MG)

Regina Helena Rosa Sambuichi – Diretoria de Estudos e Políticas Regionais, Urbanas e Ambientais (DIRUR), Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), Brasília (DF)

Marcelo José Braga – Programa de Pós-Graduação em Economia Aplicada, Departamento de Economia Rural, Universidade Federal de Viçosa (UFV), Viçosa (MG)

Fonte: Marques, G. V. T., Rosales, M., Sambuichi, R. H. R., & Braga, M. J. (2026). “Determinantes da adoção da agroecologia no Programa de Aquisição de Alimentos (PAA): evidências a partir de um modelo de regressão logística no Brasil”. Revista de Economia e Sociologia Rural, 64, e305479.