Por José Graziano da Silva | 28/08/2026
Minha recente participação, ao lado do professor Shenggen Fan, da Universidade Agrícola da China, na VII Escola de Inverno do GEPAD, organizada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, ofereceu uma valiosa oportunidade para discutir as atuais crises globais e os sistemas alimentares.
Nosso diálogo reforçou uma convicção central: Brasil e China já demonstraram que a fome e a pobreza extrema podem ser superadas quando o compromisso político se traduz em políticas públicas coordenadas. Mas a obesidade está se tornando outra expressão da pobreza e da desigualdade em ambos os países. Agora, os dois países precisam aplicar essa experiência à nova fronteira da insegurança alimentar: garantir dietas saudáveis e sustentáveis para todos.
A conquista da China na redução da pobreza é historicamente sem precedentes. Ao longo de quatro décadas, o país retirou cerca de 800 milhões de pessoas da pobreza extrema, o que corresponde a quase três quartos da redução global. Essa transformação combinou crescimento econômico, desenvolvimento rural, investimentos na agricultura, infraestrutura, inovação tecnológica e assistência direcionada às populações que ficaram para trás.
O Brasil seguiu um caminho diferente, mas igualmente instrutivo. A partir de 2003, a estratégia Fome Zero passou a integrar transferências de renda, programas de alimentação escolar, apoio à agricultura familiar, acesso à água, aumentos do salário mínimo e mecanismos de participação social. Em vez de tratar a fome simplesmente como resultado de uma produção agrícola insuficiente, o Brasil a reconheceu, sobretudo, como um problema de acesso aos alimentos. Mais recentemente, após um período de retrocesso, ações coordenadas nas áreas de proteção social, saúde, educação e agricultura permitiram que o país saísse novamente do Mapa da Fome da FAO, em 2025.
Essas experiências demonstram que a fome não é eliminada apenas pelos mercados. Ela exige intervenção governamental, forte vontade política, instituições que funcionem, dados confiáveis, recursos orçamentários e mecanismos que permitam à sociedade acompanhar os compromissos assumidos pelo governo.
Da insuficiência calórica às dietas pouco saudáveis
No entanto, o sucesso no combate à fome trouxe um desafio novo e mais complexo. O problema já não é apenas saber se as pessoas consomem calorias suficientes. Cada vez mais, trata-se de saber se as famílias podem pagar e ter acesso a alimentos que favoreçam uma boa saúde.
Brasil e China estão passando por uma rápida transição nutricional. A desnutrição e as deficiências de micronutrientes persistem entre grupos vulneráveis, enquanto o sobrepeso, a obesidade e as doenças não transmissíveis relacionadas à alimentação estão se expandindo. Esse é o “duplo fardo” da má nutrição: privação e excesso coexistindo no mesmo país, na mesma comunidade e, às vezes, no mesmo domicílio.
Na China, estimava-se que mais de 400 milhões de adultos viviam com sobrepeso ou obesidade em 2021. Projeções nacionais indicam que quase dois terços dos adultos poderão ser afetados até 2030. A China reconheceu a gravidade da situação por meio da estratégia China Saudável 2030, de suas Diretrizes de Desenvolvimento Alimentar e Nutricional para 2025–2030 e da campanha nacional “Anos de Controle do Peso”.
A apresentação do professor Shenggen Fan mostrou como a China busca uma transição alimentar mais saudável e sustentável: aumentando o consumo de grãos integrais, leguminosas, proteínas de origem vegetal, frutas e hortaliças, ao mesmo tempo em que reduz o consumo de grãos refinados e o consumo excessivo de carne. Particularmente relevante é o princípio de que a nutrição deve orientar o consumo; e o consumo deve orientar a produção. Isso inverte a lógica convencional, segundo a qual a produção agrícola e industrial determina aquilo que as pessoas são incentivadas a comer.
O Brasil, por sua vez, desenvolveu inovações em políticas públicas reconhecidas internacionalmente. Seu Guia Alimentar classifica os alimentos segundo a natureza e a finalidade do processamento, utilizando a classificação NOVA, desenvolvida por pesquisadores da Universidade de São Paulo. O Brasil também adota advertências nutricionais na parte frontal das embalagens, restrições a alimentos não saudáveis nos ambientes escolares e o Programa Nacional de Alimentação Escolar, que vincula a alimentação escolar à compra de produtos da agricultura familiar.
Ainda assim, os produtos ultraprocessados vêm ocupando uma parcela cada vez maior das dietas brasileira e chinesa, particularmente entre crianças e populações urbanas de baixa renda. Sua expansão não é simplesmente resultado de escolhas individuais. Esses produtos são baratos, práticos, agressivamente anunciados e estão disponíveis praticamente em toda parte. Enquanto isso, alimentos frescos e minimamente processados são frequentemente menos acessíveis nos bairros mais pobres.
Cooperação para além das commodities
As relações agrícolas entre Brasil e China continuam fortemente concentradas em commodities, comércio, logística e infraestrutura. Essas áreas são importantes, mas a parceria precisa se ampliar. Os dois países podem desenvolver pesquisas conjuntas, trocar experiências regulatórias, apoiar a produção sustentável e investir em cadeias de valor capazes de oferecer alimentos diversificados e nutritivos.
A cooperação também deve criar mais espaço para agricultores familiares, pequenas e médias empresas do setor de alimentos, mulheres e jovens. A tecnologia só é valiosa quando é acessível, tem custo compatível e está adaptada às necessidades das comunidades vulneráveis.
Por meio da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, do BRICS+, do Fórum China–CELAC e dos programas de Cooperação Sul-Sul da FAO, Brasil e China poderiam ajudar outros países em desenvolvimento a adaptar políticas comprovadas às suas próprias circunstâncias. Essa cooperação deve reunir aquilo que os dois países fazem bem: a experiência chinesa em planejamento, infraestrutura, tecnologia e implementação em larga escala, e a experiência brasileira em proteção social, alimentação escolar, agricultura familiar, participação da sociedade civil e governança dos sistemas alimentares baseada em direitos.
A lição de ambos os países é clara. A fome e a má nutrição não são consequências inevitáveis da escassez; são produzidas ou evitadas por escolhas políticas e institucionais.
O próximo capítulo da cooperação entre Brasil e China deve, portanto, ser mais ambicioso do que simplesmente ampliar o comércio agrícola. Deve tratar da proteção do direito humano à alimentação adequada, da regulamentação dos determinantes comerciais de dietas inadequadas e de tornar os alimentos saudáveis acessíveis a todos.
Brasil e China ajudaram a mostrar ao mundo que a fome extrema e a pobreza podem ser superadas. Agora, podem demonstrar que segurança alimentar significa mais do que ter o suficiente para comer: significa garantir dietas saudáveis, sustentáveis e culturalmente adequadas para todos.
É necessária uma agenda comum para os alimentos ultraprocessados
Brasil e China devem colocar a regulamentação dos alimentos ultraprocessados no centro de sua cooperação bilateral e multilateral. Seu peso demográfico, agrícola, científico e político combinado poderia influenciar substancialmente a agenda alimentar global.
A Organização Mundial da Saúde estabeleceu um Grupo de Desenvolvimento de Diretrizes para formular recomendações sobre o consumo de alimentos ultraprocessados. Em abril de 2026, um debate da OMS intitulado ‘Alimentos ultraprocessados: uma agenda One Health para ação e responsabilização’ evidenciou por que a questão não pode ser reduzida apenas à nutrição individual. Os sistemas alimentares baseados em alimentos ultraprocessados afetam a saúde humana, a produção agrícola, a biodiversidade, o uso de plásticos, a exposição a produtos químicos, a saúde animal e o meio ambiente.
É precisamente nesse ponto que a abordagem One Health se torna essencial. Ela reconhece a interdependência entre a saúde humana, a saúde animal, a saúde vegetal e a saúde dos ecossistemas. Consequentemente, as políticas voltadas aos alimentos ultraprocessados devem ir além do tratamento médico e da educação dos consumidores.
Brasil e China poderiam cooperar na adoção de um conjunto concreto de medidas:
- advertências obrigatórias e de fácil compreensão na parte frontal das embalagens;
- restrições ao marketing de produtos não saudáveis dirigido às crianças;
- padrões de alimentação saudável para escolas, hospitais e outras instituições públicas;
- políticas fiscais que tornem os produtos não saudáveis menos atraentes e os alimentos frescos mais acessíveis;
- incentivos à reformulação dos produtos, sem permitir que a reformulação substitua a redução do consumo de alimentos ultraprocessados;
- compras públicas de agricultores familiares, cooperativas e empresas locais do setor de alimentos;
- pesquisas independentes sobre processamento, aditivos, embalagens de alimentos e efeitos de longo prazo sobre a saúde;
- mecanismos de proteção contra conflitos de interesse na formulação de políticas de nutrição.
As políticas públicas devem transformar os ambientes alimentares. Dizer às pessoas que façam “escolhas melhores” é insuficiente quando os produtos menos saudáveis são os mais baratos, os mais promovidos e os mais facilmente disponíveis.
Referências
CAIXETA, Marina Bolfarine. É a hora da segurança alimentar e da agricultura sustentável na cooperação do Brasil com a China!. Boletim Lua Nova – CEDEC, 25 Aug. 2026.
FAN, Shenggen. China’s national vision and strategy for food security and nutrition. Presentation at the VII GEPAD Winter School. Porto Alegre: UFRGS; China Agricultural University, 2026.
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GEPAD – GRUPO DE ESTUDOS EM AGRICULTURA, ALIMENTAÇÃO E DESENVOLVIMENTO. Segunda aula confirmada da VII Escola de Inverno GEPAD. Porto Alegre: UFRGS, 28 July 2026. Available at: GEPAD. Accessed on: 28 Aug. 2026.
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