PNUD apresenta metodologia para mapear relações de poder e enfrentar desigualdades nos sistemas alimentares

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Blog do IFZ | 08/10/2026

O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) publicou, em 2026, o documento Country-Level Power Mapping and Analysis: Methodology and Guidance Note, que apresenta uma metodologia para identificar e analisar as relações de poder que condicionam a transformação dos sistemas alimentares. Elaborado por Christian Derlagen, com contribuições de Andrew Bovarnick, Anna Paskal, Abigail Stein, María Soledad Riestra e Nicolas Petit, o trabalho integra a iniciativa Food & Power Initiative (FPI), apoiada pelo Escritório Federal de Agricultura da Suíça e pela Fundação McKnight.

A publicação parte de uma constatação central: transformar os sistemas alimentares não depende apenas de soluções técnicas, investimentos ou aumento da produtividade, mas também de enfrentar as desigualdades de poder que determinam quem decide, quem controla os recursos e quem se beneficia das políticas públicas.

Segundo o PNUD, essas assimetrias aparecem em diferentes dimensões, desde a concentração empresarial até a exclusão de pequenos produtores, mulheres, povos indígenas e comunidades vulneráveis dos espaços de decisão. O documento identifica nove grandes assimetrias, organizadas em três categorias: concentração corporativa nas cadeias alimentares; acesso desigual a recursos produtivos; e desequilíbrios na governança e na formulação de políticas.

Na primeira categoria, destacam-se a concentração dos mercados de sementes, fertilizantes, processamento industrial e distribuição de alimentos, incluindo supermercados e plataformas digitais. Na segunda, estão as desigualdades no acesso à terra, financiamento, tecnologias, conhecimentos e dados. A terceira abrange os desequilíbrios nas regras comerciais internacionais, na governança climática e nos processos nacionais de decisão.

O documento também diferencia quatro manifestações do poder: visível, exercido por meio de leis, instituições e orçamentos; oculto, relacionado à influência informal sobre agendas e decisões; invisível, associado a narrativas, valores e padrões culturais; e sistêmico, decorrente de estruturas econômicas e históricas que perpetuam desigualdades.

Para transformar esse diagnóstico em ação, o PNUD propõe uma metodologia participativa em quatro etapas: preparação e definição dos objetivos; identificação dos atores e mapeamento de suas relações; análise das assimetrias de poder; e elaboração de estratégias para promover mudanças institucionais e políticas.

Entre as ferramentas apresentadas estão matrizes de influência, mapas de redes institucionais, análise de fluxos financeiros e identificação de possíveis resistências às reformas.

A publicação ressalta que não basta incluir formalmente diferentes atores nas discussões: é necessário assegurar condições reais para que participem e influenciem as decisões. Recomenda, nesse sentido, fortalecer organizações de pequenos produtores, ampliar a transparência, construir coalizões e reformar mecanismos de governança.

A principal contribuição do documento é reconhecer que a transformação dos sistemas alimentares é também um processo político. Enfrentar a fome, promover dietas saudáveis e garantir sustentabilidade exige compreender e modificar as estruturas que concentram recursos, oportunidades e poder de decisão.

Mensagens principais

  • O poder condiciona a transformação alimentar: soluções técnicas são insuficientes quando desigualdades estruturais impedem mudanças.
  • Nove assimetrias fundamentais: concentração empresarial, desigualdade no acesso a recursos e desequilíbrios na governança.
  • Quatro dimensões do poder: visível, oculto, invisível e sistêmico, que atuam simultaneamente.
  • Participação efetiva: pequenos agricultores, mulheres, jovens e comunidades marginalizadas precisam influenciar as decisões, não apenas participar de consultas.
  • Metodologia prática: o PNUD propõe quatro etapas para identificar atores, analisar relações de poder e formular estratégias.
  • Mudanças estruturais: fortalecer organizações sociais, democratizar recursos e reformar instituições são condições para sistemas alimentares mais justos e sustentáveis.

Fonte: PNUD (2026). Country-Level Power Mapping and Analysis: Methodology and Guidance Note. Food & Power Initiative. Autor principal: Christian Derlagen.

Baixe aqui o documento “Country-Level Power Mapping and Analysis: Methodology and Guidance Note“