A resistência da agricultura brasileira

  • Post publicado:
  • Tempo de leitura:10 minutos de leitura

O crescimento agrícola brasileiro como resultado de esforço público de pesquisa e crédito, e não de vocação primário-exportadora, com debilidades persistentes na indústria de insumos e no processamento

José Giacomo Baccarin | A Terra é Redonda | 01/11/2026

1.

Desde 1990, com base na elevação de sua exportação líquida, o crescimento médio da produção agrícola tem sido maior do que o da economia brasileira como um todo, contrariando o que normalmente acontece no processo de desenvolvimento econômico, puxado pelos setores industrial e de serviços.

Vários economistas agrícolas têm associado esse crescimento mais expressivo da agricultura às mudanças neoliberais, em especial à diminuição da proteção tarifária e não tarifária às importações e exportações, do início dos anos 1990. Alguns vão adiante e atribuem à estabilidade monetária, derivada do Plano Real, um papel complementar para garantir um “ambiente de negócio” mais favorável ao crescimento da exportação agrícola brasileira.

Figuradamente, a agricultura brasileira levou um choque do mercado que, em um primeiro momento, comprometeu a balança comercial de várias de suas atividades, com importações crescentes de algodão, trigo e leite, para citar três exemplos.

Em um segundo momento, tendo aprendido a andar sobre suas próprias pernas (ou não escorada nas muletas do Estado) e com a contabilidade facilitada pelo controle da inflação, a agricultura brasileira passou a mostrar alta competividade internacional. Com isso, foi possível que a participação da exportação agrícola brasileira na exportação agrícola mundial passasse de 2,5% para 10,0%, em números aproximados, de 1990 a 2025.

O equívoco mais óbvio desta interpretação é não explicar como o choque liberal só funcionou para as atividades agrícolas e não para a indústria de transformação brasileira como um todo, que teve sua produção negativamente impactada.

Isto fica evidente no próprio agronegócio, como na cadeia da bovinocultura de corte e do algodão, em que se conseguiu atingir, no século XXI, saldos positivos na exportação de carne bovina e algodão em pluma, mas em que ocorreu aumento de importação de calçados de couro e tecido e roupa de algodão. Atualmente, o saldo comercial do ramo calçadista brasileiro está próximo de zero e se mantém um déficit comercial sistemático nos produtos têxteis.

Outra linha interpretativa entende que, no abandono/derrocada do projeto nacional desenvolvimentista, após a longa crise da década de 1980, a agricultura brasileira retomou sua trajetória de crescimento anterior a 1930, com base em condições naturais favoráveis, de clima, água e extensão de terra. A nação brasileira teria voltado ao modelo primário exportador. Esta interpretação, ainda que não intencionalmente, acaba por valorizar a concepção de que haveria um papel insuperável ao Brasil na divisão internacional do trabalho, como fornecedor de matérias primas agrícolas ou minerais.

Neste caso, entende-se que se menospreza a capacidade nacional de criar novas tecnologias agrícolas, que possibilitaram que a exportação brasileira venha apresentando maior dinamismo que a de seus dois principais concorrentes na exportação mundial, os Estados Unidos da América e a União Europeia.

2.

Embora reconhecendo como procedentes alguns de seus pontos analíticos, propõe-se aqui uma visão alternativa às duas interpretações explicitadas acima. Uma alternativa que misture diferente momentos históricos do Brasil e leve em conta os efeitos do recente crescimento econômico asiático, no século XXI, sobre a divisão internacional do trabalho e, especificamente, sobre a posição brasileira na nova ordem estabelecida.

Assume-se a hipótese de que, apesar (e não por causa) da adoção do neoliberalismo, a agricultura brasileira conseguiu aumentar sua competividade internacional após 1990 em decorrência de mudanças estruturais em sua tecnologia, fortalecidas a partir dos anos 1960 e sustentadas por amplas ações públicas, em especial no crédito rural de pesquisa agropecuária.

Ao mesmo tempo, a neocompetitividade agrícola brasileira não se chocou com o recente desenvolvimento econômico asiático, pelo contrário foi reforçada por ele, até certo ponto. A Ásia, em especial a China, expandiu sua produção e exportação industrial, trazendo dificuldades a diversos ramos industriais de países ocidentais, entre eles o Brasil. Porém, o aumento da renda per capita na Ásia, em que se encontra 60% da população mundial, significou aumento do consumo de alimentos, não totalmente atendido pela agricultura asiática, embora esta represente 66% da produção agrícola mundial.

Ao contrário do que acontecia na década de 1990, observou-se que os preços das commodities agrícolas dispararam no século XXI, com suas flutuações de praxe, mas sem voltar ao patamar do final do século passado. Ademais, ficaram explícitos dois fortes movimentos no comércio agrícola mundial no presente século, o aumento da importação líquida da Ásia e, complementarmente, da exportação líquida das Américas, em que o Brasil ocupa um papel significativo.

Em suma, houve um esforço nacional para gerar tecnologias agrícolas adequadas às condições brasileiras, ainda que baseadas na chamada revolução verde, cujos resultados o neoliberalismo não desfez. Ao mesmo tempo, a diminuição da fome asiática vem ajudando o crescimento da agricultura brasileira.

Especificando o papel do crédito rural, pode-se destacar o ocorrido na década de 1970. Seu volume cresceu mais de cinco vezes, chegando próximo aos RS 400 bilhões (atualizado para 2025), em 1979, com amplo predomínio, ao contrário do que ocorre atualmente, de recursos oriundos do Tesouro Nacional e não das exigibilidades bancárias. A venda de tratores agrícolas naquela década alcançou um patamar que não se repetiu até o momento, com 90% deles sendo comercializados com base em contratos de crédito rural, com juros negativos em relação à inflação.

3.

Quanto à pesquisa agropecuária, pode-se destacar o ocorrido com a soja, atualmente a atividade agrícola brasileira com maior valor da produção. De uma cultura quase desconhecida, no final dos anos 1960, ocupando menos de 200 mil hectares no Sul do Brasil, a soja atingiu próximo a 46 milhões de hectares, espalhados por todas as cinco regiões brasileiras. Isto poderia ser usado como argumento de que a expansão da soja repetiu, ainda com mais força, o ocorrido no ciclo cafeeiro de 1850 a 1930.

A aparência é enganosa, em grande parte, pois para a expansão da soja para regiões com menor latitude foi decisivo o papel cumprido pelo melhoramento genético, com a Embrapa (Empresa de Pesquisa Agropecuária) criando mais de 300 novas variedades desse vegetal, após 1973. Outras duas tecnologias têm-se mostrado fundamentais, a inoculação da semente de soja com bactérias que fixam nitrogênio do ar, dispensando o uso do fertilizante químico nitrogenado, e a disseminação da técnica de plantio direto.

Com ela, substituíram-se as inúmeras arações para o revolvimento da terra dos países de clima frio, em que o solo se congela no inverno, por um menor revolvimento da terra, protegendo-a das chuvas torrenciais dos países de clima quente, além de diminuir os custos operacionais.

Ainda está para se contar, de forma mais precisa, a história em ondas da tecnologia agrícola desenvolvida para as condições brasileiras e que permitiu ampliar a pauta de exportação agrícola. Aos históricos saldos comerciais positivos do café e da cana-de-açúcar, na década de 1980 se juntaram saldos positivos na soja, na avicultura de corte, na citricultura e no eucalipto.

Na virada dos séculos XX e XXI, observou-se algo semelhante com o algodão, o milho, a bovinocultura e a suinocultura. Nos anos mais recentes, outras culturas têm diminuído sua dependência à importação, como o trigo, e algumas já apresentam pequenos saldos comerciais positivos, como o arroz e o feijão.

Até porque exportar commodities agrícolas foi algo que gerou muitas divisas para o Brasil e aumentou muito a renda de médios e grandes agricultores, agentes comerciais e agroindustriais, houve um certo inebriamento na avaliação dos resultados econômicos do agronegócio. Tem-se deixado de lado debilidades econômicas e de política comercial e estruturante, que resultaram, por exemplo, em menor dinamismo dos segmentos industriais das cadeias agroindustriais, ponto explorado a seguir.

Do lado dos ramos industriais fornecedores de insumos químicos e mecânicos para a agricultura, ocorreu um aumento da dependência da importação de agrotóxicos e fertilizantes. No início dos anos 1990, como fruto de incentivos do Plano de Metas, de Juscelino Kubitschek, e do II Plano Nacional de Desenvolvimento, do Governo Geisel, além de uma proteção tarifária à importação, chegou-se a produzir, internamente, próximo a 60% dos fertilizantes usados na agricultura brasileira, valor que está próximo a 10% a 15%, atualmente.

4.

Nos agrotóxicos, a situação é semelhante. No caso dos tratores e colhedoras, não, o Brasil apresenta pequeno saldo comercial positivo, no momento. Convém relembrar que o ramo automobilístico, que inclui a produção de máquinas agrícolas, teve um tratamento diferenciado frente às reformas neoliberais, com a manutenção de sua proteção tarifária à importação.

No caso das agroindústrias, que processam matérias primas agrícolas, há evidentes debilidades em seu dinamismo produtivo e estrutural. No café persistiu, nos últimos 25 anos, a situação histórica de o Brasil exportar, na quase totalidade, o café beneficiado ou verde para ser processado nos países importadores. Na soja, a importância da exportação de farelo e óleo de soja caiu frente ao crescimento da exportação da soja em grãos.

O Brasil continua ostentando a posição de maior exportador de café beneficiado do mundo, posto ocupado pela Alemanha no caso do café torrado. A China, o maior comprador de soja brasileira, a adquire, quase na totalidade, em grãos, processando-a no seu próprio território. Nessas e em outras cadeias, são praticadas barreiras comerciais, como a escalada tarifária, que dificultam o Brasil exportar produtos com maior processamento industrial.

A essas duas cadeias, podem ser somadas, como já citado, as do algodão e bovinocultura de corte, em que a participação brasileira na exportação mundial se baseia em produtos primários ou com baixo nível de processamento.

Outrossim, há um conjunto de cadeias em que os produtos são exportados após processamento industrial. Como exemplos, tem-se a laranja e o suco, a cana-de-açúcar e o açúcar, as cadeias pecuárias e as carnes frigorificadas, o eucalipto e a celulose. Contudo, é importante levar em conta que em todas essas cadeias há necessidade técnica-econômica de proximidade física entre a atividade agrícola e a industrial (não há comércio internacional de cana-de-açúcar, por exemplo), o que, praticamente, obriga o processamento da matéria prima no território brasileiro.

No século XXI, tem-se observado ações públicas importantes em favor do desenvolvimento da agricultura brasileira, como a retomada de uma trajetória crescente do volume de crédito rural, embora acompanhada do aumento de sua taxa de juros. Também, têm sido executadas importantes obras de infraestrutura para o escoamento da produção agrícola, entre elas a abertura de um corredor de exportação via Oceano Pacífico, que diminui a distância com o mercado asiático. Mas, isso não é suficiente para enfrentar as debilidades na pré e na pós-agricultura.

Ao se pensar em um projeto nacional de recuperação da importância da indústria de transformação brasileira, provavelmente, deveriam ser priorizados ramos mais sofisticados tecnologicamente. Entretanto, ainda que não decisivo, há um papel que as cadeias agroindustriais poderiam assumir. No caso dos insumos, pode-se executar programas de maior produção nacional dos químicos e de fortalecimento dos bioinsumos, em que o Brasil, como no citado caso da soja, já tem acúmulo tecnológico importante.

Por sua vez, no processamento das matérias primas agrícola, até onde se consegue enxergar, não se percebem maiores barreiras tecnológicas para adensamento das cadeias no Brasil. Há sim barreiras comerciais de outros países à importação do café torrado, do farelo de soja, do chocolate etc. E, desde a aprovação da Lei Kandir, em 1996, não se tem pensado em mecanismos tributários para dificultar a exportação direta da matéria prima agrícola e, ao mesmo tempo, estimular o processamento industrial interno, seguido pela exportação.

Mesmo em relação á competitividade da agricultura é importante uma reflexão nacional sobre sua continuidade, diante das mudanças que se observam na tecnologia agrícola. Bem como se incorpore, além da redução do desmatamento de nossos biomas, reconquistada nos últimos quatro anos, ações mais amplas para redução da emissão de Gases de efeito estufa pela agricultura brasileira.

*José Giacomo Baccarin é professor de Desenvolvimento agroindustrial e política agrícola na Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Publicado originalmente em A Terra é Redonda
https://aterraeredonda.com.br/a-resistencia-da-agricultura-brasileira/