José Graziano da Silva | 24/07/2026
O relatório O Estado da Segurança Alimentar e Nutricional no Mundo 2026 (The State of Food Security and Nutrition in the World 2026 – SOFI 2026), publicado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), apresenta um resultado expressivo para a América do Sul: a região avançou de forma consistente na redução da subalimentação desde o período mais crítico da pandemia de Covid-19. Entre 2020 e 2025, a prevalência da subalimentação caiu de 5,5% para 3,5%, enquanto o número estimado de pessoas nessa condição diminuiu de 23 milhões para 15 milhões. Em cinco anos, aproximadamente oito milhões de sul-americanos deixaram de enfrentar a insuficiência crônica de acesso aos alimentos que caracteriza esse indicador.
Esse resultado decorre da combinação entre a recuperação econômica após a pandemia, a retomada do crescimento do emprego e da renda, a ampliação da proteção social e a reativação de políticas de segurança alimentar, apesar de um contexto internacional marcado pela inflação dos alimentos, pelo baixo crescimento econômico e por sucessivas crises geopolíticas.
Mantido o ritmo observado desde 2020, a América do Sul poderá tornar-se a primeira grande região do mundo a sair do Mapa da Fome até 2030, caso reduza a prevalência de subalimentação para menos de 2,5% da população. Com um índice de 3,5% em 2025, a região está a apenas um ponto percentual desse limite.
A projeção exige cautela. A redução da fome raramente segue uma trajetória linear e pode ser interrompida por recessões, eventos climáticos extremos ou mudanças nas prioridades das políticas públicas. Nenhuma outra região do mundo apresenta, hoje, perspectiva semelhante de atingir esse parâmetro antes de 2030, segundo o SOFI 2026.
Os desafios da caminhada atual
O progresso, contudo, não autoriza triunfalismo. À medida que a fome diminui, os avanços dependem cada vez menos da recuperação econômica e cada vez mais de políticas públicas de segurança alimentar capazes de alcançar populações e territórios historicamente excluídos.
A caminhada final — the last mile, como dizem os maratonistas — costuma ser também a mais difícil, pois os avanços futuros passam a depender da capacidade de reduzir vulnerabilidades que persistem mesmo quando os indicadores médios melhoram. A concretização desse cenário dependerá menos da intensidade da recuperação recente do que da sua continuidade.
Nas fases iniciais, a expansão da atividade econômica, o crescimento do emprego e a recuperação da renda costumam produzir efeitos rápidos sobre os indicadores. Quando a fome atinge níveis mais baixos, entretanto, a população remanescente concentra vulnerabilidades que dificilmente são superadas apenas pelo crescimento econômico. Famílias em situação de miséria e pobreza persistente, comunidades rurais isoladas, povos tradicionais e moradores das periferias urbanas continuam enfrentando obstáculos que exigem políticas públicas mais direcionadas.
Vencer os obstáculos dessa etapa final dependerá da convergência de três fatores: crescimento econômico capaz de ampliar oportunidades de trabalho e renda; estabilidade dos preços dos alimentos, preservando o poder de compra das famílias; e manutenção de políticas de proteção social e segurança alimentar voltadas aos grupos mais vulneráveis. Isoladamente, nenhum deles é suficiente para sustentar a redução necessária para retirar a região do Mapa da Fome.
A importância relativa de cada um desses fatores varia consideravelmente entre os países sul-americanos. Enquanto alguns já contam com sistemas de proteção social consolidados e instituições capazes de garantir continuidade às políticas públicas, outros enfrentam limitações fiscais e institucionais que restringem sua capacidade de resposta. Por essa razão, experiências bem-sucedidas oferecem referências importantes, mas não constituem modelos passíveis de reprodução automática.
É justamente nesse estágio que a qualidade da ação pública assume papel decisivo. Quanto menor a prevalência da fome, maior a necessidade de identificar com precisão quem permanece excluído, onde essas pessoas vivem e quais barreiras ainda limitam seu acesso regular à alimentação. Os avanços futuros dependerão menos da recuperação observada após a pandemia e mais da capacidade dos governos de aperfeiçoar políticas já existentes, ampliar sua efetividade e assegurar que seus benefícios alcancem aqueles que permanecem à margem do desenvolvimento.
A evolução regional, contudo, continua heterogênea. Em 2025, a prevalência de subalimentação alcançava 19,5% na Bolívia, 12,7% no Suriname, 10,8% no Equador, 5,7% no Peru, 5,3% na Venezuela e 4,1% na Colômbia e no Paraguai. Esses contrastes mostram que uma eventual saída da América do Sul do Mapa da Fome refletirá uma média regional, e não uma realidade uniforme entre seus países.
A mesma ressalva vale para o Brasil. Persistem profundas desigualdades territoriais, com as regiões Norte e Nordeste concentrando níveis de insegurança alimentar superiores à média nacional. Ainda assim, a experiência brasileira oferece uma lição relevante para a região: reduções duradouras da fome dificilmente decorrem de uma política isolada, mas da combinação entre crescimento econômico, valorização da renda do trabalho, proteção social, fortalecimento da agricultura familiar e instituições capazes de assegurar continuidade às políticas de segurança alimentar.
A influência do Brasil na trajetória regional sul-americana
A melhora dos indicadores sul-americanos está estreitamente ligada ao desempenho brasileiro. Por concentrar mais da metade da população da sub-região, o Brasil exerce influência determinante sobre as estatísticas continentais. Avanços ou retrocessos registrados no país repercutem diretamente na trajetória regional.
Entre 2023 e 2025, durante o terceiro governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a prevalência de subalimentação voltou a ficar abaixo de 2,5%, recolocando o Brasil entre os países considerados pela FAO fora do Mapa da Fome. Chile, Guiana e Uruguai também permanecem abaixo desse limite, enquanto a Argentina, com 2,8%, aproxima-se desse patamar.
Essa evolução resulta da convergência entre a recuperação econômica e a reconstrução de políticas públicas. A expansão do emprego elevou a renda das famílias, enquanto programas de proteção social e segurança alimentar voltaram a ocupar posição central na agenda governamental. Em conjunto, esses fatores ampliaram o acesso regular aos alimentos para milhões de brasileiros.
Entre as medidas de maior impacto destacam-se a retomada da política de valorização real do salário-mínimo e a reconstrução do Bolsa Família, acompanhada da ampliação dos benefícios destinados às famílias com crianças. Como os domicílios de menor renda destinam parcela proporcionalmente maior de seus recursos à alimentação, ganhos reais de renda tendem a produzir efeitos imediatos sobre seu poder de compra, sobretudo em períodos de inflação elevada dos alimentos.
Também contribuíram para esse resultado o fortalecimento do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), ampliando as oportunidades nos mercados locais para a agricultura familiar e o abastecimento de programas públicos; a consolidação do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) como instrumento de garantia do direito à alimentação; e a reativação do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), que restabeleceu a coordenação entre governo e sociedade civil após anos de descontinuidade institucional.
Nenhuma dessas iniciativas explica, isoladamente, a velocidade da redução da subalimentação. O avanço observado decorre da interação entre crescimento do emprego, recuperação da renda e reconstrução da política nacional de segurança alimentar. Pelo peso demográfico do Brasil, essa combinação produziu efeitos que ultrapassaram suas fronteiras e contribuíram decisivamente para a melhora dos indicadores da América do Sul.
Um indicador, muitas realidades
A proximidade da América do Sul em relação ao limite adotado pela FAO não significa que o problema da fome tenha sido superado. O Mapa da Fome retrata apenas uma das dimensões da segurança alimentar e, por isso, deve ser interpretado em conjunto com outros indicadores.
A classificação adotada pela FAO baseia-se na Prevalência de Subalimentação (Prevalence of Undernourishment – PoU), indicador que estima a proporção da população cuja ingestão habitual de energia permanece abaixo do mínimo necessário para uma vida saudável. Embora constitua a principal referência internacional para medir a fome crônica, esse indicador não abrange todas as dimensões da segurança alimentar. É possível consumir calorias suficientes para permanecer acima desse limite e, ainda assim, enfrentar dificuldades frequentes para acessar alimentos variados, nutritivos e de qualidade. Em outras palavras, consumir o mínimo necessário de calorias não garante uma alimentação nutricionalmente adequada, especialmente para crianças, adolescentes, idosos e mulheres em idade reprodutiva.
Para captar essa realidade, a FAO utiliza um segundo indicador, baseado na experiência das famílias em relação ao acesso aos alimentos, seja por meio da compra, seja da produção para autoconsumo. Os resultados mostram que, em 2025, enquanto a prevalência de subalimentação na América do Sul havia recuado para 3,5%, cerca de 20% da população da região — aproximadamente 90 milhões de pessoas — ainda vivia em situação de insegurança alimentar moderada ou grave. Em 2021, esse percentual era de 31%, o que representa uma redução de 11 pontos percentuais, ou cerca de 35%, em apenas quatro anos.
A comparação entre esses indicadores mostra que uma região pode deixar o Mapa da Fome sem eliminar todas as formas de insegurança alimentar. A redução da subalimentação representa um avanço expressivo, mas milhões de pessoas continuam enfrentando dificuldades para manter acesso regular a uma alimentação adequada.
O próprio caso brasileiro ilustra essa distinção. Embora o país tenha saído novamente do Mapa da Fome, persistem desigualdades sociais e territoriais que restringem o acesso à alimentação em diferentes regiões. Se o Semiárido nordestino e a Amazônia (que representam, em conjunto, quase metade do território brasileiro e um terço de sua população) fossem considerados um país separado para efeito do cálculo da prevalência da subalimentação pela FAO, muito provavelmente ainda estariam no Mapa da Fome.
A eventual saída da América do Sul do Mapa da Fome, portanto, deverá ser entendida como um marco relevante, mas não como a superação do desafio alimentar nem como o fim da fome na região. Essa distinção torna-se ainda mais evidente quando se observa outro indicador apresentado pelo SOFI 2026: o custo de uma dieta saudável.
O custo de comer bem
A redução da subalimentação representa uma conquista importante, mas não elimina um dos principais obstáculos à segurança alimentar na América do Sul: o elevado custo de uma alimentação saudável.
Segundo o SOFI 2026, a América Latina e o Caribe continuam sendo a região onde esse custo é o mais alto do mundo. Em 2025, uma dieta saudável exigia, em média, 4,91 dólares em paridade de poder de compra (PPC) por pessoa ao dia, 15% acima da média mundial, de 4,28 dólares PPC.
Na América do Sul, cerca de 24% da população — aproximadamente 107 milhões de pessoas — não dispunha de renda suficiente para custear esse padrão alimentar. Ao mesmo tempo, o custo médio de uma dieta saudável alcançou 4,94 dólares PPC por pessoa ao dia, frente aos 3,17 dólares registrados em 2017, o que representa um aumento de 56% em oito anos. Esses dados evidenciam uma tendência persistente de encarecimento dos alimentos saudáveis na região, especialmente frutas, verduras e legumes.
Os dados revelam uma mudança importante na natureza do desafio alimentar da região. Para uma parcela crescente da população, a principal dificuldade já não consiste apenas em consumir calorias suficientes, mas em manter uma alimentação diversificada, segura e nutricionalmente adequada. O acesso regular a frutas, verduras, legumes, proteínas e outros alimentos de maior qualidade continua condicionado à renda das famílias, ao comportamento dos preços e à capacidade das políticas públicas de reduzir esse custo.
Essa mudança amplia o significado dos avanços registrados pelo SOFI 2026. Reduzir a fome permanece um objetivo fundamental, mas assegurar o direito humano à alimentação adequada exige enfrentar um desafio mais amplo: garantir que uma alimentação saudável deixe de ser um privilégio condicionado à renda e se torne uma possibilidade efetiva para toda a população.
Mais perto de deixar o Mapa da Fome, mas ainda distante da segurança alimentar e nutricional adequada
O SOFI 2026 indica que a América do Sul atravessa um momento decisivo em sua trajetória recente de segurança alimentar. Depois do retrocesso provocado pela pandemia, a região voltou a reduzir de forma consistente a prevalência da subalimentação e reúne, pela primeira vez em muitos anos, condições concretas para atingir o limite adotado pela FAO para sua retirada do Mapa da Fome antes do fim da década.
Essa conquista, porém, não encerra o desafio de garantir a todos uma alimentação adequada. Milhões de sul-americanos ainda enfrentam dificuldades para manter acesso regular a alimentos suficientes e nutricionalmente adequados, situação agravada pelo elevado custo de uma dieta saudável. A etapa seguinte exigirá políticas cada vez mais direcionadas às populações mais vulneráveis e aos territórios que permanecem à margem dos avanços proporcionados pela recuperação econômica.
A experiência brasileira sintetiza essa lição. Reduções duradouras da fome não decorrem de uma política isolada, mas da convergência entre crescimento econômico, valorização da renda do trabalho, proteção social, fortalecimento da agricultura familiar e instituições capazes de assegurar continuidade às políticas de segurança alimentar. Para a América do Sul, o desafio que se coloca não é apenas reduzir a fome, mas consolidar esse avanço de forma permanente, assegurando que o acesso à alimentação adequada deixe de depender das condições econômicas e sociais que ainda mantêm milhões de pessoas em situação de vulnerabilidade.
