José Graziano da Silva | Impakter | 02/10/2026
Em um cenário internacional marcado por guerras, crises climáticas, inflação dos preços dos alimentos e redução dos recursos destinados ao desenvolvimento, a América Latina e o Caribe enviam uma mensagem que o mundo precisa ouvir: a fome pode ser reduzida quando há vontade política, continuidade institucional e um conjunto coordenado de políticas públicas.
Em 23 de setembro, durante a Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza realizou o evento de alto nível “Faltam quatro anos: acelerando a ação contra a fome e a pobreza”. Convocada pelo Brasil e pela Espanha, copresidentes da Aliança, a reunião defendeu uma liderança política renovada, sistemas nacionais mais sólidos e um financiamento mais bem alinhado para acelerar o avanço rumo à erradicação da fome e da pobreza até 2030.
O evento ocorreu em um momento particularmente significativo para a América Latina e o Caribe. Cinco países da região — Brasil, Chile, Guiana, República Dominicana e Uruguai — apresentam atualmente uma prevalência estimada de subnutrição inferior a 2,5%, limite estatístico utilizado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) para indicar que um país já não figura no Mapa da Fome.
Os dados do relatório O Estado da Segurança Alimentar e Nutricional no Mundo 2026 confirmam essa trajetória positiva. A prevalência de subnutrição na região caiu de 6% da população, em 2020, para menos de 5%, em 2025. Em números absolutos, o número de pessoas afetadas pela fome caiu de quase 40 milhões para 32 milhões. Isso representa quase oito milhões de pessoas a menos enfrentando a fome em apenas cinco anos.
A América Latina e o Caribe, juntamente com a Ásia, impulsionaram a recente redução da fome no mundo. Dentro da região, a América do Sul liderou a recuperação: a prevalência de subnutrição caiu de 5,5%, em 2020, para 3,5%, em 2025. Em um momento em que o mundo se afasta perigosamente do compromisso de erradicar a fome até 2030, esse avanço demonstra que os retrocessos não são inevitáveis.
Esses cinco países alcançaram resultados comparáveis por caminhos diferentes. Chile e Uruguai consolidaram gradualmente sistemas de proteção social relativamente abrangentes, políticas de nutrição e sólidas capacidades institucionais. A República Dominicana passou pela transformação mais expressiva: sua taxa de subnutrição, que ultrapassava 21% no início deste século, está agora abaixo de 2,5%.
A experiência da Guiana merece particular atenção. Além de reduzir a prevalência de subnutrição de 7,1% para menos de 2,5%, o país foi identificado por um estudo publicado na Nature Food como o único, entre 186 países analisados, cuja produção doméstica era suficiente para atender às necessidades de sua população nos sete principais grupos alimentares considerados: frutas, vegetais, laticínios, peixes, carnes, leguminosas e alimentos básicos ricos em amido.
Isso não significa que a Guiana tenha eliminado todas as importações de alimentos ou superado todos os desafios relacionados à pobreza e à desigualdade. Significa que o país desenvolveu uma capacidade produtiva excepcionalmente diversificada. Incentivos à produção agrícola, investimentos em infraestrutura, apoio aos agricultores e uma estratégia de segurança alimentar vinculada à integração caribenha contribuíram para esse resultado. A Guiana, portanto, constitui uma referência importante para o Caribe — uma região formada por ilhas que continua fortemente dependente de alimentos importados.
A experiência do Brasil é particularmente instrutiva. Depois de deixar oficialmente o Mapa da Fome, em 2014, o país voltou a figurar nele em 2018, após o abandono e o desmantelamento de políticas fundamentais de segurança alimentar e nutricional.
Como é amplamente conhecido, o Brasil voltou a deixar o Mapa da Fome em 2024, após a retomada de políticas que já haviam demonstrado sua eficácia: transferência de renda, aumentos do salário mínimo, alimentação escolar, compras públicas de alimentos, apoio à agricultura familiar e reconstrução de seu Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional.
Essa rápida reversão demonstra a importância fundamental de políticas públicas que combinem crescimento econômico inclusivo com medidas direcionadas à promoção da segurança alimentar e da nutrição — especialmente em um país grande e profundamente desigual. As experiências desses cinco países ensinam que nenhuma medida isolada é capaz de derrotar a fome.
O sucesso exige a coordenação entre apoio à renda, produção e distribuição de alimentos, participação social e prioridade política traduzida em recursos orçamentários suficientes para garantir que as famílias mais pobres tenham acesso a alimentos saudáveis.
Essas experiências também oferecem várias lições mais amplas. A primeira é que o crescimento econômico, por si só, não acaba com a fome. Os benefícios do crescimento precisam chegar às famílias mais vulneráveis. Em outras palavras, os ganhos gerados pelo progresso econômico devem ser distribuídos de maneira mais justa.
A segunda lição é que os programas de transferência de renda funcionam melhor quando combinados com outras políticas de segurança alimentar e nutricional, como alimentação escolar, compras públicas de alimentos e apoio à agricultura familiar. As políticas de renda geram demanda, mas precisam ser acompanhadas por medidas que ampliem a produção e a disponibilidade de alimentos saudáveis, fortaleçam as economias locais e conectem os pequenos produtores aos mercados públicos e institucionais.
A terceira lição é que conselhos permanentes, leis, instituições e orçamentos são essenciais para impedir que cada mudança de governo desmonte o que as administrações anteriores construíram. Erradicar a fome exige políticas de Estado capazes de assegurar continuidade, independentemente do partido político ou da coalizão que esteja no poder.
Também é importante enfatizar que deixar o Mapa da Fome da FAO/ONU não significa necessariamente erradicar a fome. Nossa ambição não pode se limitar a garantir o número mínimo de calorias necessário para evitar a subnutrição. Todos devem ter acesso a alimentos saudáveis, diversificados, acessíveis e culturalmente adequados.
Isso significa combater a inflação dos preços dos alimentos, melhorar as instalações de armazenamento e as cadeias de frio, ampliar a oferta de frutas, hortaliças e leguminosas e proteger as famílias vulneráveis dos choques climáticos. Significa também enfrentar todas as formas de má nutrição, incluindo o sobrepeso e a obesidade, que crescem rapidamente em toda a região.
O progresso celebrado em Nova York, em 2026, não significa que a América Latina e o Caribe possam se dar ao luxo de baixar a guarda. O Caribe ainda apresenta uma taxa de subnutrição de 17%. No Haiti, a fome afeta mais da metade da população, enquanto países como Honduras, Guatemala, Suriname e Bolívia continuam registrando taxas de subnutrição de dois dígitos. Além disso, 172 milhões de pessoas na América Latina e no Caribe — mais de um quarto da população da região — ainda não tinham condições de pagar por uma alimentação saudável em 2025.
Há vinte anos, a América Latina e o Caribe assumiram a ambição de se tornar uma região livre da fome por meio da Iniciativa América Latina e Caribe sem Fome 2025, liderada pela FAO com o apoio da Agência Espanhola de Cooperação.
Essa meta ainda não foi alcançada, mas os avanços já obtidos mostram que ela nunca foi uma aspiração utópica. A região possui o conhecimento, as instituições e a experiência prática necessários para permitir que outros países avancem na luta contra a fome.
O desafio agora é transformar as experiências nacionais bem-sucedidas do Brasil, Chile, Guiana, República Dominicana e Uruguai em um compromisso regional duradouro — respaldado por vontade política, financiamento adequado e instituições sólidas, capazes de prevenir futuros retrocessos e garantir que ninguém seja deixado para trás.
Publicado originalmente no Impakter
https://impakter.com/hunger-can-be-eradicated-latin-america-and-the-caribbean-show-how/
