Alimentos e transportes continuaram pressionando a inflação no mês de janeiro de 2025

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Por Lauro Mattei | 12/02/2025

Introdução

O tema em debate no momento continua sendo a elevação da inflação, uma vez que este é o quarto mês consecutivo em que a taxa acumulada de inflação supera o teto estabelecido pelo Conselho Monetário Nacional (centro da meta de 3%, com mais 1,5% como teto). Dos nove grupos pesquisados pelo IPCA1, transportes e alimentos e bebidas foram os que mais contribuíram para que a inflação se mantivesse acima do teto, destacando-se que este foi o quinto mês consecutivo de aumentos registrados no grupo de alimentos e bebidas.

No Brasil, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) desenvolveu dois instrumentos estatísticos para mensurar o processo inflacionário: o INPC (Índice Nacional de Preço ao Consumidor) e o IPCA (Índice de Preço ao Consumidor Amplo). O primeiro índice analisa a variação do custo de vida médio das famílias com renda mensal que varia entre 1 e 5 salários mínimos. Já o IPCA considera a variação do custo de vida médio das famílias com rendimento mensal entre 1 e 40 salários mínimos.

De um modo geral, pode-se dizer que o IPCA mede a variação dos preços de uma cesta de bens e serviços consumidos pela população, revelando a variação desses preços em um determinado mês em relação ao mês anterior. Essas variações acumuladas ao longo de doze meses indicam a inflação de cada ano no país. Além disso, o IPCA leva em consideração não apenas as variações dos preços de cada grupo, subgrupos e itens, mas também o peso que cada um desses grupos tem no orçamento das famílias.

No caso particular do IPCA, mensalmente o IBGE faz um levantamento em 13 áreas urbanas do país, envolvendo aproximadamente 430 mil preços aferidos em 30 mil locais. Esses preços são comparados com os preços do mês anterior para se obter a variação real dos preços ao consumidor naquela data exata. Tal procedimento permite compreender possíveis alterações no poder de compra dos salários. Por exemplo, se em um determinado ano a variação dos preços (IPCA) for maior que a variação dos salários, isso significa que ocorreu uma redução do poder de compra, pois os preços dos bens e serviços subiram mais que o nível de renda. Essa é a razão que levou o país a adotar o IPCA como o índice oficial para mensurar o movimento inflacionário, tanto mensal quanto anual.

O objetivo deste artigo é analisar brevemente o comportamento atual da inflação, dando ênfase aos grupos de produtos e itens que mais influenciaram a manutenção da inflação ainda em patamares elevados no mês de janeiro de 2025, considerando-se que a meta do governo Lula III é uma inflação anual de 3%.

Inflação mensal e acumulada nos últimos 12 meses

Após o pico registrado no mês de novembro de 2024, os dados indicam que o processo inflacionário está iniciando uma trajetória de queda, mesmo permanecendo acima do teto da meta estipulada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), conforme o Gráfico 1. Assim, nota-se que a queda registrada no mês de dezembro de 2024 foi sucedida por uma queda ainda maior no primeiro mês do corrente ano. Ainda assim, deve-se registrar que janeiro de 2025 representa o quarto mês consecutivo com índices acima do teto da meta, significando que o remédio utilizado pelas autoridades monetárias do país (elevação das taxas de juros) ainda não surtiu os efeitos esperados.

Gráfico 1: Variação acumulada da inflação no país em 12 meses

Gráfico 1 Variação acumulada da inflação no país em 12 meses
Fonte: IBGE: IPCA, Apresentação pública

Depois de três meses seguidos com percentuais elevados, nota-se que no primeiro mês do corrente ano ocorreu um ligeiro declínio da composição mensal do índice, porém não suficiente para que a meta fosse cumprida.

O gráfico 2 apresenta a variação mensal da inflação ao longo dos últimos 12 meses. inicialmente, é importante verificar a diferença de patamar entre o mês de janeiro de 2024 e o percentual de variação de janeiro de 2025, mês que registrou a menor variação no primeiro mês do ano desde o início do real (1994). variação semelhante à atual foi verificada no mês de março de 2024, chamando atenção também para a variação negativa registrada no mês de agosto de 2024. a partir de então, houve uma escalada dos preços em todos os demais meses do ano de 2024, destacando-se a forte variação nos meses de outubro (0,56%) e dezembro (0,52%). esse foi um período em que a aceleração dos preços dos alimentos foi determinante para manter a inflação mensal elevada e, ao mesmo tempo, contribuir decisivamente para que a meta não fosse atingida.

Sobre esse aspecto particular, no site do instituto fome zero (https://ifz.org.br/tag/preco-dos-alimentos/) encontra-se um conjunto de estudos e artigos que procuram explicar as causas que promoveram essa escalada dos preços dos alimentos.

Gráfico 2: Variação mensal da inflação no país entre janeiro/24 a janeiro/25

Gráfico 2 Variação mensal da inflação no país entre janeiro24 a janeiro25
Fonte: IBGE: IPCA, Apresentação pública.

Os grupos responsáveis pela inflação elevada recentemente

É importante registrar que no mês de janeiro/25 a variação foi de 0,36 pontos percentuais abaixo da variação do último mês de 2024. portanto, é fundamental analisar os movimentos que estão em curso em cada um dos grupos de bens e serviços que compõem o índice inflacionário captado pelo ipca, visando compreender adequadamente seus impactos.

A tabela 1 apresenta os distintos grupos que compõem o ipca, as variações que ocorreram no mês de janeiro/25 em relação ao mês anterior e os impactos de cada um desses grupos no cômputo geral da inflação mensal. historicamente, quatro desses grupos (alimentos e bebidas, habitação, transportes e saúde e cuidados pessoais) respondem por aproximadamente 75% da inflação. decorre aí a importância de se analisar minuciosamente os movimentos que ocorrem internamente em alguns desses grupos, com o intuito de compreender melhor a dinâmica atual do processo inflacionário.

No caso em tela, nota-se que o grupo Transportes apresentou a maior variação dentre todos os grupos considerados, ou seja, uma variação de 1,30% em relação à variação de 0,67% registrada no mês de dezembro/24. consequentemente, seu impacto no índice mensal da inflação subiu para 0,27 pontos percentuais, sendo que no último mês de 2024 era de 0,14, ou seja, praticamente dobrou em apenas um mês. segundo o ibge, essa elevação decorre, em grande medida, dos aumentos das passagens aéreas e dos aumentos dos ônibus urbanos em praticamente todas as capitais das unidades da federação no início de 2025. a justificativa para esses aumentos recaiu sobre os aumentos dos preços dos combustíveis, especialmente da gasolina, óleo diesel e etanol.

O grupo de Alimentos e Bebidas apresentou uma variação de 0,96%, a segunda maior dentre todos os demais grupos, sendo que em dezembro/24 registrou 1,18%, a maior das variações naquele período. consequentemente, essa redução fez com que o impacto desse grupo sobre o índice geral caísse para 0,21 pontos percentuais. segundo o ibge, esse foi o quinto mês consecutivo com alta desse grupo, sendo que, em janeiro de 2025, o café moído continuou aumentando (8,56%), juntamente com elevações dos preços da cenoura, tomate, etc. apenas foi registrado que o leite longa vida teve uma retração após meses com elevação dos preços.

O grupo Habitação apresentou uma variação negativa da ordem de -3,08%, a maior dentre todas as retrações observadas, sendo que em dezembro/24 já havia sido registrada uma retração desse grupo da ordem de -0,56%. Consequentemente, essa redução fez com que o impacto desse grupo sobre o índice geral caísse para -0,46 pontos percentuais, sendo que em dezembro de 2024 esse impacto já tinha sido da ordem -0,08. Segundo o IBGE, esse comportamento está relacionado à queda de 14,12% do custo da energia residencial decorrente da incorporação do bônus da Itaipu nas faturas de janeiro de 2025. Portanto, pode-se afirmar que o comportamento do preço da energia foi determinante para promover uma retração do índice mensal da inflação, uma vez que continuaram sendo registrados aumentos das taxas de água e esgoto.

O grupo Saúde e cuidados pessoais ampliou sua variação de 0,38% (dezembro/24) para 0,70% (janeiro/25). Com isso, o impacto desse grupo no índice geral subiu de 0,05 para 0,09 pontos percentuais no mesmo período.

Tabela 1: Variação e impactos de cada grupo que compõe o ipca. janeiro/2025

Tabela 1 variação e impactos de cada grupo que compõe o IPCA. Janeiro 2025
Fonte: IBGE: IPCA, Apresentação pública.

Já o grupo de educação apresentou uma variação positiva de 0,15% entre os meses de dezembro/24 e janeiro/25, o que contribuiu para dobrar o impacto desse grupo no índice geral, muito embora esse impacto continue sendo extremamente baixo, comparativamente aos demais grupos. Em grande medida, essa variação percentual pode ser explicada pelo período anual, uma vez que janeiro é o mês típico em que materiais escolares precisam ser adquiridos e matrículas nos colégios precisam ser renovadas.

Outras duas menções são relevantes, ambas relacionadas às quedas percentuais constatadas no primeiro mês do corrente ano. Por um lado, o grupo de vestuário sofreu uma redução percentual de 1,0%, fazendo cair seu impacto no índice geral e, por outro, o grupo de comunicação teve uma variação de -0,54%, tornando seu impacto também negativo, ou seja, contribuiu para a redução do índice geral.

Por fim, deve-se registrar que o grupo de despesas pessoais apresentou uma variação de 0,62% em dezembro/24 para 0,51% em janeiro/25. mesmo assim, continuou exercendo um impacto de 0,05 pontos percentuais no índice inflacionário do primeiro mês de 2025.

Considerações finais

As informações analisadas anteriormente permitem afirmar que a passagem de ano pouco alterou o cenário da inflação no país, uma vez que os grupos de transportes e alimentos e bebidas continuaram impactando decisivamente o comportamento do índice inflacionário. no primeiro caso, os impactos de alterações dos preços dos combustíveis foram bastante expressivos e tenderão a persistir nos próximos meses, uma vez que os preços administrados, sobretudo dos combustíveis e de energia elétrica, se mantêm com tendência altista.

Já alguns preços decisivos do grupo Alimentos e bebidas, apesar de pequenas oscilações negativas, continuaram exercendo suas pressões altistas. Neste caso, destacam-se as elevadas variações acumuladas no último mês do café moído (50,35%), das carnes (20,61%), do frango (10,52%) e do leite longa vida (16,29%).

Todavia, para alguns analistas “o pior já passou”. Justificam essa assertiva com base na informação de que o país “colherá uma boa safra de soja”. Segundo tais analistas, isso fará com que o preço caia, impactando positivamente também no preço do óleo de soja, que tenderá a cair por ter maior soja para esmagar. Além disso, acreditam que uma maior oferta de soja poderá diminuir o preço da ração animal e, com isso, estimular maiores produções de carne.

Nesta análise otimista, parece que não estão sendo considerados dois aspectos relevantes: por um lado, convém lembrar que a soja é uma commodity que tem seu preço definido no mercado internacional (Bolsa de Chicago) e que qualquer expansão da demanda, sobretudo da china, poderá estimular o direcionamento da produção para o mercado externo, como tem sido feito nos últimos anos, implicando menor disponibilidade para atender as demandas internas anteriormente mencionadas. Por outro, não se deve desconsiderar a importância que o câmbio desvalorizado que persiste atualmente poderá ser determinante para o destino da “boa safra de soja”.

Lauro Mattei é Professor Titular do Curso de Economia e Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Administração, ambos da UFSC. Coordenador-Geral do NECAT-UFSC e pesquisador do OPPA/CPDA/UFRRJ. E-mail: l.mattei@ufsc.br. Artigo escrito em 12.02.2025.

Referência

IBGE: IPCA, janeiro de 2025

Notas

(1) Os grupos considerados são: 1) Alimentação e bebidas; 2) Habitação; 3) Artigos de residência; 4) Vestuário; 5) Transportes; 6) Saúde e cuidados pessoais; 7) Despesas pessoais; 8) Educação; 9) Comunicação. Esses se subdividem em dezenas de subgrupos e centenas de itens e subitens.