José Graziano da Silva* | 17/08/2026
O Brasil prepara uma nova ofensiva diplomática junto à Organização Mundial da Saúde para impulsionar um movimento global de promoção de dietas saudáveis e sustentáveis restringindo o consumo de alimentos ultraprocessados. Governo e sociedade civil vão discutir proximamente os próximos passos dessa articulação. Trata-se de uma iniciativa oportuna do governo, mas que, para alcançar resultados concretos, precisará combinar com outros ministérios encarregados de políticas públicas que possam tornar a comida saudável efetivamente acessível aos brasileiros.
O primeiro movimento foi realizado em maio deste ano, durante a Assembleia Mundial da Saúde. O Brasil apresentou proposta para que a OMS desenvolva uma regulamentação global sobre a comercialização dos ultraprocessados, inicialmente com apoio de França, México e Uruguai. A intenção é construir uma resolução a ser votada em 2027.
A proposta que partiu do Ministério da Saúde, recomenda que os países adotem definições e sistemas de classificação baseados em evidências, restrinjam ou proíbam a publicidade, a promoção e o patrocínio desses produtos em espaços frequentados por crianças e adolescentes e enfrentem as novas formas de marketing digital — incluindo influenciadores, publicidade personalizada, jogos eletrônicos e conteúdos transfronteiriços. Também propõe o monitoramento anual da exposição da população aos ultraprocessados.
O Brasil está bem posicionado nessa agenda. Foi aqui que nasceu a classificação NOVA, desenvolvida por uma equipe de pesquisadores da Universidade de São Paulo liderada pelo professor Carlos Monteiro. Ela distingue os alimentos de acordo com a natureza, a extensão e a finalidade de seu processamento. Seu mérito foi demonstrar que o problema não é simplesmente processar alimentos — cozinhar, fermentar, salgar, moer ou congelar —, nem mesmo processos industriais que aumentaram a escala dos processamentos de alimentos milenares citados (pasteurização, canning, refrigeração industrial, fermentação controlada), mas fabricar formulações industriais concebidas para serem baratas, duráveis, hiperpalatáveis e amplamente comercializadas frequentemente em substituição a alimentos frescos. Ou seja, é um novo e específico modo de produzir alimentos que não deve ser confundido como mais um processamento e industrialização de alimentos como é muitas vezes utilizado como justificativa da indústria de ultraprocessados.
Em vez de observar apenas nutrientes isolados, como açúcar, gordura e sódio, a NOVA permitiu investigar como a combinação de ingredientes refinados, aditivos cosméticos, técnicas industriais, marketing intensivo e ruptura da matriz alimentar afeta os padrões de consumo e a saúde. Essa abordagem alterou o debate internacional sobre alimentação. A própria FAO publicou, em 2019, um estudo assinado pelo Prof. Monteiro sobre ultraprocessados, qualidade da dieta e saúde baseado nessa classificação.
Não surpreende, portanto, que a indústria de ultraprocessados tenha resistido à classificação NOVA desde o início. Mais recentemente, essa resistência parece assumir uma nova forma: não apenas contestar a definição dos ultraprocessados, mas produzir ou promover estudos que procuram desvincular o ultra processamento da qualidade nutricional, obesidade e doenças crônicas.
Um relatório encomendado pelo International Food Information Council, think tank estadunidense financiado por alguns dos grandes players da indústria alimentícia, comparou mais de 40 mil produtos vendidos nos Estados Unidos; e concluiu que a classificação como ultraprocessado não permite prever, por si só, a densidade de nutrientes. O argumento é que determinados cereais, pães ou produtos lácteos classificados como ultraprocessados podem apresentar fibras, vitaminas ou minerais e custar menos que alternativas menos processadas.
Esse tipo de resultado é apenas uma cortina de fumaça. Densidade de nutrientes e grau de processamento medem dimensões diferentes. Acrescentar fibras, vitaminas ou minerais a uma formulação industrial não elimina necessariamente os efeitos relacionados à hiperpalatabilidade, à velocidade de consumo, à presença de aditivos, à perda da matriz original ou à substituição de refeições preparadas com alimentos frescos.
Também não se pode usar a existência de alguns ultraprocessados com perfil nutricional menos desfavorável para absolver toda a categoria. Seria equivalente a encontrar cigarros com menor teor de determinada substância e concluir que sua produção e consumo deixou de representar um problema coletivo. O que importa é o padrão alimentar e sua evolução no conjunto da população.
Uma resposta aos questionamentos da indústria veio da série publicada em 2025 por Monteiro e outros especialistas na revista The Lancet. Ao reunir evidências epidemiológicas, experimentais e mecanísticas, os estudos cotados reforçam a associação entre o maior consumo de ultraprocessados e a pior qualidade da dieta, a obesidade, o diabetes tipo 2, as doenças cardiovasculares e outros problemas de saúde. Esses resultados oferecem uma base sólida para orientar políticas públicas para regular e restringir o consumo de ultraprocessados ao mesmo tempo que estimula o aprofundamento das pesquisas e o aperfeiçoamento contínuo das medidas de promoção de dietas saudáveis.
Essa agenda não parte do zero. A América Latina tornou-se um importante laboratório de políticas públicas para melhorar os ambientes alimentares e prevenir a obesidade e outras doenças crônicas. O Chile foi pioneiro na adoção dos selos frontais de advertência e na restrição da publicidade e da venda de produtos não saudáveis nas escolas. México, Peru, Uruguai, Argentina, Colômbia e Brasil também avançaram na rotulagem frontal. O México implementou a tributação das bebidas açucaradas, posteriormente ampliada e acompanhada por medidas semelhantes em dezenas de países.
Chile e México também estabeleceram restrições à publicidade dirigida às crianças. Fora da região, países como Reino Unido, França, África do Sul e Tailândia adotaram diferentes modelos de tributação de bebidas açucaradas, enquanto outras nações vêm fortalecendo regras de rotulagem, alimentação escolar e proteção das crianças contra o marketing de produtos não saudáveis. Hoje, já existem mais de 60 tributos sobre bebidas açucaradas aprovados em diferentes partes do mundo, como mostra o programa global de pesquisa sobre alimentação da Universidade da Carolina do Norte.
As avaliações dessas experiências mostram que nenhuma medida isolada resolve o problema, mas sua combinação pode reduzir compras e consumo de produtos não saudáveis, orientar melhor os consumidores, proteger as crianças e estimular a reformulação dos produtos pela indústria. Essas experiências precisam agora ser sistematizadas, ampliadas e difundidas como boas práticas internacionais, adaptando-as às diferentes realidades nacionais e transformá-las em uma agenda de cooperação internacional. Foi assim que o Brasil compartilhou seus programas de combate à fome, alimentação escolar, compras públicas e proteção social, que inspiraram iniciativas em diversos países. Podemos fazer o mesmo na promoção de dietas saudáveis apoiada e promovida tanto pela OMS quanto pela FAO.
Nesse sentido, O enfrentamento aos ultraprocessados deve ser incorporado como um dos pilares da agenda One Health, baseada na interdependência entre a saúde humana, animal, vegetal e ambiental.
Na OMS, avançou-se nessa direção durante o One Health Summit, em abril de 2026, ao promover uma sessão específica sobre ultraprocessados, ação e responsabilização. O debate mostrou que seus impactos ultrapassam a nutrição e alcançam as cadeias produtivas, o uso de recursos naturais, as embalagens, os resíduos, a exposição a substâncias químicas e a própria governança dos sistemas agroalimentares.
Na FAO, a Conferência Global sobre One Health nos Sistemas Agroalimentares, prevista para o fim de setembro de 2026 em Roma, oferecerá uma oportunidade para aprofundar essa integração. Os sistemas agroalimentares não podem permanecer como um apêndice da agenda One Health: precisam ocupar seu centro. Isso envolve não apenas a regulação de produtos não saudáveis, mas também a promoção de sistemas produtivos diversificados e sustentáveis, a proteção da biodiversidade e a construção de ambientes alimentares que favoreçam escolhas saudáveis.
Essa agenda diplomática precisa, portanto, articular as atuações complementares da OMS e da FAO. Para ter êxito, a ofensiva brasileira deverá ser multidisciplinar, multissetorial e interministerial. Não é tarefa exclusiva do Ministério da Saúde. Exige a participação das áreas de agricultura, desenvolvimento social, educação, fazenda, meio ambiente, comércio, direitos humanos e proteção das crianças.
A sociedade civil deve ocupar lugar central. O setor privado também precisa participar, respeitando regras transparentes para conflitos de interesse e sem poder bloquear ou enfraquecer medidas de saúde pública.
Não obstante, a regulação e o desincentivo ao consumo de alimentos ultraprocessados poderão levar a um aumento no consumo de outros tipos de alimentos processados e industrializados pertencentes aos grupos 1 e 3 da classificação NOVA, estimulando outros segmentos da indústria alimentícia. De acordo com o artigo da série citada sobre ultraprocessados publicado em 2025 na revista The Lancet, Baker e colaboradores identificam que 8 grandes corporações de alimentos concentram 42% de todos os ativos do setor, o que abrange fábricas, redes de distribuição, estratégias de marketing e milhares de marcas. Nesse sentido, a maioria das indústrias de alimentos dos três primeiros grupos da classificação NOVA deverá ser beneficiada por essa regulação restritiva dos ultraprocessados, sendo esperado o apoio dessas empresas a essa causa.
Além de regular publicidade, rotulagem, venda em escolas e práticas comerciais, é indispensável construir uma agenda positiva: compras públicas, alimentação escolar, restaurantes populares, feiras, abastecimento de periferias, apoio à agricultura familiar e outras medidas.
O custo médio mundial chegou a 4,28 dólares por paridade do poder de compra por pessoa ao dia, cerca de 13 reais hoje; para uma família de 4 pessoas, esse valor da cesta básica saudável calculado pela FAO, representa um salário-mínimo (cerca de 1560 reais). No Brasil, cerca de 45 milhões de pessoas, aproximadamente um quinto da população, ainda não dispõem de renda suficiente para adquirir regularmente uma alimentação saudável.
Não há verdadeira liberdade de escolha quando os alimentos frescos são mais caros, menos acessíveis e exigem maior tempo de preparo, enquanto os ultraprocessados, baratos e intensamente promovidos, estão disponíveis em cada esquina, prateleira e tela de celular.
Enfrentar o consumo excessivo desses produtos significa também ampliar o acesso à comida de verdade e criar condições para que todas as famílias possam escolher uma alimentação saudável, sem que a renda ou o lugar onde vivem determinem a qualidade do que colocam à mesa.
Esse deve ser o propósito maior da nova iniciativa brasileira: transformar a promoção de dietas saudáveis e sustentáveis em um compromisso global, apoiado pela OMS e pela FAO, capaz de unir regulação, produção, acesso e educação alimentar. Mais do que restringir produtos, trata-se de ampliar possibilidades — para que a comida de verdade seja acessível, valorizada e se torne a escolha mais fácil para todos.
(*) com agradecimentos pela contribuição de Gustavo Torres
