Por José Giacomo Baccarin e Gustavo Jun Yakushiji | 17/08/2026
Baixe aqui o estudo “Preços de Alimentos em Queda pelo Segundo Mês Seguido, IPCA de Julho de 2026“
1- Introdução
Conforme o esperado, os resultados do IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), do mês de julho de 2026, mostram que a alimentação, dando continuidade ao verificado no mês anterior, serviu para conter a inflação ao consumidor no Brasil. O IPAB (Índice de Preços de Alimentação e Bebidas) registrou queda de 0,67%, em julho de 2026, fato fundamental para que o IPCA crescesse apenas 0,07%, no mesmo mês. Nos sete primeiros meses de 2026, a variação do IPAB foi de 3,85% e do IPCA, de 3,44%, pouco acima dos respectivos valores de mesmo período de 2025, 3,41% e 3,26%.
Ou seja, uma situação por demais tranquila, se formos pensar na história da inflação ao consumidor no Brasil, que, mesmo após o Plano Real, dificilmente, apresentou um IPCA tão baixo, ao longo de sete meses. Contudo, a ambiciosa meta da inflação brasileira do momento e, quiçá, o rigorismo do Banco Central para seu cumprimento estrito, induzem a nos preocuparmos com os décimos, quem sabe até com os centésimos, dos índices inflacionários.
Ao mesmo tempo, não se pode esquecer do peso da alimentação nos gastos do consumidor brasileiro, que, atualmente, é o maior entre os nove grupos de despesas que compõem o IPCA, acima de 21%. Ainda vivemos no rescaldo do acontecido entre março e maio de 2026, quando pareceu que o preço dos alimentos iria disparar, registrando uma variação de 4,23% naqueles três meses.
Neste texto, através de uma análise mais detalhada da variação mensal de diversos componentes da inflação ao consumidor, desde janeiro de 2025, arriscamos uma análise prospectiva para os cinco meses restantes de 2026. Para tanto, esperamos que fatores extraordinários não venham a acontecer, o que não deixa de ser uma temeridade na atual conjuntura política mundial. Como de praxe, nossa fonte básica de dados são as tabelas divulgadas pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) em relação ao IPCA e seus componentes (IBGE, 2026).
2 – Variações Mensais dos Componentes da Alimentação
Uma primeira observação na Figura 1 é que a curva do IPAB (Índice de Preços de Alimentação e Bebidas) tem um formato mais parecido com a curva do IPAD (Índice de Preços da Alimentação no Domicílio) do que a do IPAF (Índice de Preços da Alimentação Fora do Domicílio). A razão é que o subgrupo Alimentação no Domicílio representa um gasto para o consumidor um pouco maior que duas vezes o da Alimentação Fora do Domicílio. Simplificando, o gasto com comida nos supermercados pesa mais do que o em restaurantes, bares e lanchonetes.

Imediatamente, o IPAF é mais afetado por preços de serviços urbanos, como os aluguéis, e pelos salários de seus atendentes, isso pelo lado do custo. O aumento da renda dos consumidores também tende a pressionar seus preços pelo lado da demanda, ao elevar a frequência a bares, lanchonetes e restaurantes por lazer, substituindo parte do consumo doméstico dos alimentos e bebidas.
Não há grandes flutuações entre os meses no IPAF, podendo se dizer que, se existir sazonalidade em seus preços ao longo do ano, ela é muito reduzida. Ademais, com auxílio da linha de tendência, vem-se observando que o IPAF apresentou uma tendência de leve redução, entre janeiro de 2025 e julho de 2026. Ou seja, a recente elevação de massa salarial e de renda no Brasil não resultou em maior pressão sobre o IPAF.
Por seu lado, o IPAD tem um comportamento bastante instável ao longo do ano, com seus preços tendendo a aumentar mais entre outubro de um ano e março do ano seguinte do que no período abril a setembro de um mesmo ano. A explicação é que os preços nos supermercados são, imediatamente, afetados pelas condições de produção e preço agrícolas, com alguns produtos, como as olerícolas, tendo sua produção reduzida no período mais chuvoso do ano ou no verão.
A sazonalidade do IPAD tem-se mostrado mais acentuada em 2026. As variações em janeiro e fevereiro deste ano foram mais baixas do que as mesmas variações de 2025, indicando que teríamos um barateamento da Alimentação no Domicílio em 2026. Tal expectativa mudou, completamente, entre março e maio de 2026, quando o IPAD se elevou em mais do 1,5% em cada um desses três meses. Novamente, uma mudança de rumo se observou a partir de junho de 2026. De um aumento de 1,65% em março, o IPAD registrou uma queda de 0,39% em junho e outra queda, de 1,14%, em julho de 2026.
Ou seja, a montanha russa dos preços da Alimentação no Domicílio ficou mais inclinada em 2026, na subida e na descida, dando maior frio na barriga da população.
3 – O Esperado para o Restante do Ano
Fazendo uma conta simples, recalculando o IPCA de 2026, supondo que o IPAD nos primeiros sete meses deste ano tivesse a mesma variação dos primeiros sete meses de 2025, o resultado mostraria um IPCA um pouco menor agora do que no ano anterior.
Em março de 2026, tanto Alimentação e Bebidas quanto o grupo Transportes tiveram seus preços elevados acima de 1,5%. A causa imediata foram as consequências nos custos de produção de combustíveis e agrícolas em decorrência da tentativa de invasão do Irã por EUA e Israel. A partir de abril, Transportes já registrou uma suavização em seus preços, fato que demandou mais dois meses para ser observado em Alimentação e Bebidas, especificamente na Alimentação no Domicílio.
Pode-se esperar que os próximos meses revelem, aos moldes do ocorrido em 2025, se não a continuidade de queda no IPAD, pelo menos aumentos pouco expressivos. É possível, como o ocorrido em 2023 e 2025 (não em 2024), que em 2026 Alimentação e Bebidas contribua para puxar para baixo a inflação ao consumidor no Brasil.
Todavia, é importante que se esmiuce mais o que vem acontecendo com os 16 itens que compõem a Alimentação no Domicílio, o que será feito no próximo número. Também deve-se tomar cuidado com o comportamento de preços dos outros oito grupos que compõem o IPCA e esperar que as conturbações políticas não encareçam os alimentos.
José Giacomo Baccarin é Professor Livre-Docente da UNESP, campus de Jaboticabal e de Rio Claro.
Gustavo Jun Yakushiji é doutorando em Estatística e Experimentação Agronômica pela ESALQ/USP, Piracicaba.
Baixe aqui o estudo “Preços de Alimentos em Queda pelo Segundo Mês Seguido, IPCA de Julho de 2026“
Referências
IBGE. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo. Rio de Janeiro: SIDRA, 2026. Disponível em: https://sidra.ibge.gov.br/home/ipca/brasil. Acesso em: 13 de agosto 2026.
