Blog do IFZ | 22/03/2026
A publicação do relatório “Alimentando lucros, condenando pessoas à fome: como a financeirização dos alimentos está consumindo o planeta” (Feeding Profits, Starving People: How Food Financialization Is Eating The Planet), elaborado pela Society for International Development (SID), oferece uma leitura atenta e rigorosa sobre os rumos contemporâneos dos sistemas alimentares. Em suas páginas, delineia-se um cenário no qual a fome, a insegurança alimentar e a má nutrição não resultam apenas de crises episódicas, mas de uma transformação estrutural profunda que alterou o próprio sentido da comida no mundo.
Nos últimos anos, uma sucessão de choques — a pandemia de COVID-19, a guerra na Ucrânia, a intensificação das mudanças climáticas e o agravamento da degradação ecológica — expôs a fragilidade dos circuitos globais de abastecimento. Os preços dos alimentos tornaram-se mais instáveis, e governos passaram a reagir com medidas emergenciais. Ainda assim, o relatório sustenta que essas respostas permanecem limitadas, pois deixam à margem um elemento decisivo: a crescente concentração de poder corporativo e a progressiva financeirização da agricultura.
Esse processo não se restringe a uma mudança técnica ou administrativa. Ele redefine o modo como o alimento é concebido. Mercados financeiros passaram a influenciar cada etapa da cadeia alimentar, da produção ao consumo. Commodities agrícolas são negociadas em bolsas como ativos abstratos, enquanto terras e recursos naturais são convertidos em instrumentos de investimento. O alimento, antes enraizado em territórios, culturas e práticas comunitárias, passa a circular como valor financeiro, frequentemente desvinculado das necessidades humanas que deveria atender.
O relatório descreve como essa lógica se apoia em dinâmicas mais amplas do sistema econômico global. Instituições como o International Monetary Fund e o World Bank desempenharam papel relevante ao promover políticas de liberalização e integração de mercados, muitas vezes associadas a condicionalidades fiscais rigorosas. Em diversos países do Sul Global, tais diretrizes contribuíram para orientar a agricultura em direção à exportação, com o objetivo de gerar divisas e honrar compromissos financeiros internacionais. Nesse movimento, comunidades locais perderam progressivamente o controle sobre suas terras, seus modos de produção e, em última instância, sobre o próprio alimento.
Ao mesmo tempo, a expansão dos mercados de derivativos agrícolas introduziu uma nova camada de instabilidade. Fundos de investimento e agentes especulativos operam sobre expectativas de preço de grãos como trigo e milho, intensificando a volatilidade. Em contextos de crise — sejam elas climáticas, geopolíticas ou econômicas —, essa volatilidade se torna fonte de ganhos financeiros, ainda que à custa do acesso alimentar de populações inteiras.
A concentração de poder também se evidencia na configuração oligopolista do comércio global. Grandes conglomerados do agronegócio, como Cargill e Bunge, operam em estreita articulação com instituições financeiras como Goldman Sachs e JPMorgan Chase. Juntos, esses atores exercem influência simultânea sobre ativos físicos e mercados financeiros, consolidando uma capacidade de intervenção que ultrapassa fronteiras nacionais e limita a autonomia de políticas públicas.
A dimensão ambiental adiciona complexidade a esse quadro. A intensificação das mudanças climáticas afeta diretamente a produção agrícola, ao mesmo tempo em que abre novas frentes de financeirização. Mercados de carbono e iniciativas de compensação ambiental, embora concebidos como instrumentos de mitigação, frequentemente resultam em deslocamento de comunidades e em novas formas de apropriação de terras. Em diversas regiões, áreas são destinadas à produção de biocombustíveis ou a projetos de compensação, reduzindo a disponibilidade de terras para a produção de alimentos e fragilizando economias locais.
O resultado é um ciclo difícil de interromper. A terra e o alimento perdem sua densidade social e ecológica, sendo absorvidos por circuitos especulativos que privilegiam a rentabilidade de curto prazo. Nesse contexto, a insegurança alimentar não se apresenta como um desvio, mas como consequência previsível de um modelo que reorganizou prioridades.
O relatório da SID propõe uma inflexão clara. Em vez de ajustes marginais, defende reformas estruturais capazes de reorientar os sistemas alimentares. Entre as medidas sugeridas, destacam-se a regulação da especulação com alimentos, o aumento da transparência nos mercados financeiros e a limitação do acesso a instrumentos derivativos. Há também um chamado para que o sistema financeiro recupere sua função social, voltando-se ao apoio de bens públicos.
No plano produtivo, a ênfase recai sobre a agroecologia e sobre sistemas alimentares territoriais, baseados na diversidade, na resiliência e no controle local. Trata-se de restituir às comunidades a capacidade de decidir sobre o que produzem, como produzem e para quem produzem. Essa mudança implica igualmente rever a arquitetura global de comércio e finanças, hoje fortemente orientada por interesses corporativos.
A publicação também destaca iniciativas internacionais que sinalizam caminhos possíveis, como debates no âmbito das Nações Unidas sobre cooperação tributária e reforma financeira. Embora ainda incipientes, tais esforços indicam a possibilidade de reconstrução de mecanismos multilaterais mais atentos à justiça social e ambiental.
Fundada em 1957, a Society for International Development reúne pesquisadores, formuladores de políticas e ativistas comprometidos com a promoção da justiça social e econômica em escala global. Ao longo de décadas, a organização consolidou-se como espaço de reflexão crítica e de articulação internacional, tendo no periódico Development sua principal plataforma de difusão de ideias.
O relatório agora apresentado insere-se nessa tradição, oferecendo não apenas um diagnóstico rigoroso, mas também um convite à imaginação política. Ao recolocar o alimento no centro da vida social, ele sugere que a segurança alimentar depende menos de ajustes técnicos e mais de escolhas coletivas sobre o que deve ou não ser submetido à lógica do mercado.
A alimentação é um direito humano — não um ativo financeiro.
Baixe aqui o relatório “Feeding Profits, Starving People: How Food Financialization Is Eating The Planet“
Relatório também disponível no site da Society for International Development (SID)
