Dia Mundial da Alimentação e a contribuição brasileira para a História do século XXI

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Thiago Lima | 16/10/2026

Hoje, 16 de outubro, é um dia muito especial: o Dia Mundial da Alimentação. E nós, brasileiros, temos muito do que nos orgulhar.

É muito raro um país deixar sua marca na História Mundial. E nós conseguimos isso no século XXI.

Para entender melhor, vamos voltar à Inglaterra. Foi lá que a Revolução Industrial ganhou força e mudou o mundo. Não é que só existissem máquinas a vapor por lá. Mas foi ali que se consolidou a ideia de combinar fontes de energia, peças e engrenagens para que as máquinas realizassem tarefas repetitivas antes executadas por seres humanos. O resultado foi um salto na produção e na produtividade. O mundo inteiro aprendeu com essa experiência.

Os Estados Unidos, por sua vez, deram uma contribuição decisiva ao desenvolvimento da agroindústria. Não é que só lá existissem tratores, colheitadeiras e outras máquinas agrícolas. Mas foi naquele país que a união dos princípios industriais à produção agrícola mais se desenvolveu, dando origem aos complexos agroindustriais e inspirando o mundo inteiro. O Brasil foi um dos países que seguiram esse caminho e se tornou uma potência agrícola, superando os próprios Estados Unidos em diversos setores.

Mas foi aqui, no Brasil, que demos um passo importante na compreensão de como vencer a fome em um país do Sul Global: não basta distribuir pratos de comida e cestas básicas, que são gestos bonitos de solidariedade, empatia e urgência. É preciso articular um conjunto de políticas que funcionem como peças de uma mesma engrenagem.

Assim como no caso das máquinas, o Brasil entendeu que, para vencer a fome em uma sociedade em desenvolvimento, precisamos fazer diferentes mecanismos trabalharem juntos:

  • Reduzir o desemprego.
  • Aumentar o salário-mínimo acima da inflação, ano após ano.
  • Garantir que as aposentadorias também não percam para a inflação.
  • Alimentação escolar de qualidade. Afinal, ninguém aprende de estômago vazio. E, quando a escola oferece refeições, também ajuda a aliviar o orçamento das famílias.
  • Garantir mercados para a agricultura familiar com compras públicas que paguem um valor justo para quem produz. Com renda garantida, pequenos agricultores podem viver melhor, investir na produção e ampliar a oferta de alimentos, contribuindo para abastecer o mercado e baratear a comida.
  • Fazer a economia crescer e gerar prosperidade, para que o desenvolvimento se traduza em melhores condições de vida para a população.
  • Garantir proteção social a quem mais precisa, com programas como o Bolsa Família, enquanto as famílias ainda não encontram um emprego, um serviço autônomo ou deslancham seu lado empreendedor.

Essa engrenagem ganhou um nome no primeiro governo Lula: Fome Zero.

Sua grande contribuição foi articular políticas de renda, emprego, produção agrícola, alimentação escolar e proteção social em uma estratégia integrada de combate à fome. Uma abordagem que ajudou a projetar a segurança alimentar no centro da agenda global de desenvolvimento, incluindo os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU.

Assim como a Inglaterra não foi o único país a desenvolver máquinas, nem os Estados Unidos o único a mecanizar a agricultura, o Brasil não é o único país capaz de combater a fome. A nossa contribuição foi mostrar como diferentes políticas podem funcionar em conjunto, como peças de uma engrenagem bem ajustada.

E a história brasileira também nos ensinou o que acontece quando essa engrenagem é desmontada. Nos governos Temer e Bolsonaro, o desmonte de políticas públicas e a deterioração das condições de vida contribuíram para que o Brasil voltasse ao Mapa da Fome. Claro que a pandemia não ajudou. Mas, se a máquina estivesse bem cuidada, certamente não veríamos o povo na fila do osso.

Com o retorno do governo Lula, em 2023, a estratégia foi retomada e atualizada. Em poucos anos, o país voltou a registrar avanços expressivos na segurança alimentar e, em 2025, saiu novamente do Mapa da Fome, segundo os critérios da ONU. A experiência brasileira mostrou, mais uma vez, que políticas públicas articuladas podem produzir resultados concretos e eficazes no combate à fome: cerca de 30 milhões de pessoas deixaram a insegurança alimentar severa ou moderada na segunda saída do Mapa.

Isso não significa que o problema esteja definitivamente resolvido no Brasil. Significa que sabemos como enfrentá-lo — e que temos uma experiência concreta para compartilhar com o mundo. Com engenhosidade, venceremos as dificuldades atuais para ampliar o acesso a dietas saudáveis e derrotar a inflação de alimentos.

Neste Dia Mundial da Alimentação, os países têm a oportunidade de refletir sobre o segundo Objetivo de Desenvolvimento Sustentável: ODS 2 — Fome Zero e Agricultura Sustentável.

E nós, brasileiros e brasileiras, temos motivos para nos orgulhar de nossa contribuição. Não porque tenhamos inventado sozinhos cada uma dessas políticas, mas porque mostramos a sofisticação técnica e a vontade Política para empregar nossos suados impostos na construção desta estratégia complexa e que pode fazer um grande bem para a humanidade.

Essa é a nossa marca na História do século XXI. E que marca boa, hein?

Feliz Dia da Alimentação! E vamos em frente, porque enquanto houver gente com fome, não podemos parar.

Thiago Lima é coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Fome e Relações Internacionais da UFPB, e membro do Instituto Fome Zero