EBIA-I: nova escala amplia a capacidade de medir a insegurança alimentar entre povos indígenas

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Blog do IFZ | 23/09/2026

“Validação de uma escala de experiência de segurança alimentar entre populações indígenas no Brasil” (Validation of a Food Security Experience Scale Among Indigenous Populations in Brazil), estudo de fôlego desenvolvido por Ana Maria Segall-Corrêa, Verônica Gronau Luz, Marta Maria do Amaral Azevedo, Beatriz Rocha Ferreira, Laure Emperaire, Deoclecio Rocco Gruppi, Letícia Marín-Leon, Juliana Souza Andrade Licio e Rafael Pérez-Escamilla, publicado no International Journal for Equity in Health, oferece uma contribuição relevante para o conhecimento e a mensuração da insegurança alimentar entre povos indígenas no Brasil. O estudo valida a EBIA-I, instrumento concebido para captar a experiência da insegurança alimentar à luz das especificidades dos diferentes contextos indígenas. Ao incorporar dimensões culturais, territoriais e alimentares que podem não ser plenamente contempladas pelos instrumentos convencionais, a escala amplia as possibilidades de identificar e compreender a insegurança alimentar entre essas populações, oferecendo uma ferramenta de avaliação mais sensível às realidades vivenciadas por seus diferentes povos e comunidades.

A pesquisa parte de uma lacuna importante. Desde 2004, o Brasil utiliza nacionalmente a Escala Brasileira de Insegurança Alimentar, a EBIA, instrumento validado para a população em geral. Embora os grandes levantamentos domiciliares passassem a identificar os entrevistados que se declaravam indígenas, ainda não havia uma versão da escala especificamente validada para essas populações. Estudos anteriores já haviam apontado a necessidade de considerar particularidades dos modos de vida e das práticas alimentares indígenas, mas permanecia o desafio de construir um instrumento que pudesse ser submetido a uma validação psicométrica específica.

Uma escala construída a partir das realidades indígenas

A construção da nova escala teve como ponto de partida uma experiência anterior realizada com os Guarani do litoral paulista. Naquele trabalho, as pesquisadoras identificaram que algumas perguntas da EBIA precisavam ser reformuladas para que seu significado fosse adequadamente compreendido no contexto indígena. Um exemplo está na própria maneira de perguntar sobre a disponibilidade de alimentos. Em vez de indagar se havia ocorrido algum dia sem comida em casa, formulação que poderia produzir constrangimento, optou-se por perguntar se havia comida todos os dias. A mudança preservava a capacidade de medir a privação e, ao mesmo tempo, tornava a pergunta mais adequada à realidade cultural estudada.

O mesmo cuidado apareceu na definição da qualidade dos alimentos. Entre as formulações testadas estavam referências ao alimento cultural e ao alimento que promove crescimento saudável para crianças e jovens. A escolha das palavras não era apenas uma questão de linguagem. Procurava reconhecer que concepções sobre alimentação adequada e desejável podem assumir significados diferentes em comunidades indígenas e que esses significados precisam ser considerados na construção dos instrumentos utilizados para conhecer sua realidade.

A EBIA-I foi construída para acompanhar uma progressão da experiência de insegurança alimentar. Seus itens abrangem a preocupação ou incerteza quanto à obtenção de alimentos, a redução da qualidade da alimentação e, em situações mais graves, a diminuição da quantidade de alimentos consumidos. Entre os domicílios com menores de 16 anos, a escala também alcança situações de privação alimentar infantil. A pesquisa procurou, assim, medir uma experiência que envolve diferentes dimensões da relação das famílias com a alimentação, e não apenas a ocorrência de fome em seu sentido mais extremo.

Para validar a escala, os pesquisadores realizaram trabalho de campo entre 2015 e 2016, envolvendo 495 domicílios de diferentes contextos indígenas. A pesquisa reuniu comunidades rurais e uma área urbana do Alto e Médio Rio Negro, no Amazonas, e a Terra Indígena Mangueirinha, no Paraná, onde vivem indígenas Kaingang. O conjunto da pesquisa alcançou diferentes povos e contextos sociais e territoriais, permitindo testar o instrumento em realidades bastante distintas.

Essa diversidade foi importante para o objetivo central do estudo. Os pesquisadores queriam verificar se uma mesma escala poderia apresentar desempenho adequado em comunidades indígenas com diferentes condições ecológicas, territoriais, sociais e culturais. A pesquisa não foi concebida, porém, para produzir uma estimativa nacional da prevalência de insegurança alimentar entre os povos indígenas. Limitações logísticas e de recursos impediram a construção de uma amostra probabilística representativa do país e das regiões estudadas.

Os dados foram submetidos a análises psicométricas, utilizando, entre outros procedimentos, o Modelo de Rasch. Esse método permitiu examinar o comportamento de cada pergunta e sua relação com a dimensão de insegurança alimentar que a escala pretendia medir. Ao final, chegou-se a uma versão composta por oito itens. Seis são aplicáveis a domicílios com menores de 16 anos e cinco, a domicílios formados exclusivamente por adultos. Três perguntas são comuns aos dois grupos.

Um dos resultados mais expressivos da análise psicométrica foi a identificação do item de maior gravidade. Nos domicílios com menores de 16 anos, a pergunta sobre uma criança ter passado um dia inteiro sem comer apresentou a maior severidade nos diferentes grupos analisados. O resultado acompanha a progressão esperada da insegurança alimentar, na qual as situações mais graves correspondem à redução extrema da quantidade de alimentos consumidos.

O que a escala encontrou nos territórios estudados

A análise também encontrou diferenças na prevalência de insegurança alimentar moderada ou grave entre os contextos estudados. A proporção foi de 16,8% na Terra Indígena Mangueirinha, 16,9% na área urbana de Santa Isabel do Rio Negro e 32,4% entre as comunidades do Alto e Médio Rio Negro. No conjunto dos domicílios analisados, a prevalência foi de 25,1%. Esses números descrevem exclusivamente a população estudada e não podem ser extrapolados para o conjunto dos povos indígenas brasileiros.

A validade externa da EBIA-I foi examinada a partir de diferentes características das condições de vida dos domicílios. Entre as famílias sem fonte regular de renda, a prevalência de insegurança alimentar moderada ou grave foi de 30,6%, contra 17,5% entre aquelas com renda regular. A autopercepção da saúde também apresentou associação importante. Entre os entrevistados que classificaram sua saúde como boa ou muito boa, a prevalência ficou em torno de 20%, enquanto entre aqueles que a consideraram ruim ou muito ruim chegou a 34,8%.

Outro resultado chama atenção pela intensidade da associação encontrada. Nos domicílios em que alguém havia sofrido algum tipo de ameaça nos seis meses anteriores à entrevista, a prevalência de insegurança alimentar moderada ou grave foi de 58,8%, contra 24,4% entre aqueles que não haviam relatado esse tipo de situação. A frequência foi, portanto, cerca de 2,4 vezes maior entre as famílias que haviam vivenciado ameaças. Os autores relacionam esse resultado às dificuldades que situações desse tipo podem impor à circulação das pessoas e às atividades de plantio, cuidado e colheita das lavouras, sem estabelecer, contudo, uma relação causal direta.

A pesquisa também encontrou associação entre a insegurança alimentar e outras condições da vida cotidiana, entre elas a participação da família em atividades agrícolas, períodos de falta de alimentos, acesso às refeições escolares, disponibilidade de água encanada, perda de produção agrícola e consumo excessivo de álcool por algum morador do domicílio. Em relação à atividade agrícola, a prevalência de insegurança alimentar moderada ou grave foi maior entre as famílias que participavam da produção agrícola do que entre aquelas que não participavam, respectivamente 24,7% e 16,0%. O resultado contrariou uma expectativa inicial dos pesquisadores e, por isso, foi apontado como uma questão que merece investigação adicional.

O conjunto dessas associações contribuiu para avaliar a validade externa da escala. A EBIA-I apresentou comportamento compatível com diferentes condições relacionadas à experiência de insegurança alimentar, reforçando a evidência de que o instrumento é capaz de distinguir níveis distintos dessa experiência nos contextos estudados.

Chama atenção, também, a constatação de que o recebimento do Bolsa Família não apresentou associação estatisticamente significativa com a insegurança alimentar entre os grupos analisados. Os autores levantam a hipótese de que a vulnerabilidade das famílias elegíveis ao programa possa ser tão profunda que uma política de transferência de renda, isoladamente, não seja suficiente para prevenir a insegurança alimentar. Essa interpretação é apresentada no artigo como uma possibilidade a ser investigada, e não como uma conclusão causal do estudo.

Alimentação, território e limites do instrumento

A pesquisa ainda encontrou uma dimensão particularmente relevante para a compreensão da alimentação indígena. Nos domicílios formados exclusivamente por adultos, apareceram preocupações relacionadas ao acesso a alimentos tradicionais ou culturalmente específicos. Essa dimensão não foi incorporada à versão psicométrica final da escala, mas os autores recomendam que seja investigada em estudos futuros, especialmente diante da possibilidade de perda de acesso a alimentos ancestrais dotados de importância cultural e espiritual.

Essa questão ajuda a situar a EBIA-I dentro de uma compreensão mais ampla da segurança alimentar indígena. Para os autores, alimentação, território, práticas produtivas e modos de vida estão relacionados. O acesso regular aos alimentos depende também das condições que permitem às comunidades manter suas formas de produção, circulação e obtenção de alimentos, o que confere ao território importância central nesse debate.

O estudo reconhece seus próprios limites. A EBIA-I não foi concebida para situações em que o consumo de alimentos ocorre de forma predominantemente coletiva, ultrapassando a organização do domicílio, nem para contextos de calamidade ambiental ou emergência humanitária, nos quais as condições ordinárias de vida das famílias podem estar profundamente alteradas. Os autores recomendam novas pesquisas de validação, especialmente entre domicílios formados exclusivamente por adultos, grupo que teve participação menor na amostra analisada.

Uma ferramenta para políticas públicas

Dentro de seu campo de aplicação, porém, os resultados indicam que a EBIA-I apresenta boas propriedades psicométricas e pode ser utilizada para produzir informações mais adequadas sobre a insegurança alimentar em comunidades indígenas. A proposta dos pesquisadores é que o instrumento seja incorporado a sistemas de monitoramento, como o SISVAN, e considerado em pesquisas oficiais do IBGE, ampliando a capacidade de acompanhar a situação alimentar e nutricional dos povos indígenas.

A importância da pesquisa está também na maneira como ela trata a produção de estatísticas. Uma medida não depende apenas do rigor empregado em sua análise. Depende, antes, de que as perguntas utilizadas consigam alcançar adequadamente a experiência que se pretende conhecer. Entre povos indígenas, isso exige atenção aos modos de vida, às práticas alimentares, às relações com o território e às referências culturais que dão significado à alimentação.

A EBIA-I resulta desse esforço de adequação e validação. Ao reformular perguntas, testar seu funcionamento em contextos distintos e submetê-las a procedimentos psicométricos rigorosos, os pesquisadores procuraram construir um instrumento capaz de reconhecer diferentes graus da experiência de insegurança alimentar sem apagar as particularidades das populações estudadas.

A incorporação dessa perspectiva aos sistemas de informação pode ampliar a capacidade das políticas públicas de conhecer, acompanhar e enfrentar a insegurança alimentar entre os povos indígenas. Para isso, é fundamental que os instrumentos de medição sejam capazes de transformar experiências concretas em informações confiáveis, sem perder de vista os contextos sociais, culturais e territoriais em que essas experiências acontecem.

Medir a fome, nesse caso, é também aprender a perguntar de maneira adequada. E perguntar melhor é uma das condições para que aquilo que os números registram corresponda, com maior fidelidade, à vida das pessoas que eles pretendem representar.

Baixe aqui o artigo “Validation of a food security experience scale among indigenous populations in Brazil”

Citação do artigo

Segall-Corrêa, A.M., Luz, V.G., do Amaral Azevedo, M.M. et al. Validation of a food security experience scale among indigenous populations in Brazil. Int J Equity Health 24, 175 (2025). https://doi.org/10.1186/s12939-025-02515-1