Brasil avança na redução de bebidas açucaradas, mas obesidade continuará crescendo até 2030

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Estudo publicado pela The Lancet Regional Health – Americas alerta que quase três em cada dez adultos das capitais brasileiras poderão viver com obesidade em 2030. Baixo consumo de frutas e hortaliças e avanço dos ultraprocessados reforçam a necessidade de políticas integradas de alimentação saudável.

Blog do IFZ | 24/09/2026

O Brasil deverá chegar a 2030 com resultados muito distintos no enfrentamento dos fatores alimentares associados às doenças crônicas. Enquanto o consumo regular de bebidas açucaradas apresenta uma trajetória de queda, a obesidade continua crescendo e o consumo adequado de frutas, legumes e verduras permanece distante da meta nacional. É o que mostra o estudo “Avanços no alcance das metas de 2030 do Plano de Ação Estratégico do Brasil para o Enfrentamento das Doenças Crônicas Não Transmissíveis: análise de séries temporais e projeções de fatores de risco” (Progress toward the 2030 targets of Brazil’s Strategic Action Plan for noncommunicable diseases: a time-series and projection analysis of risk factors) publicado pela The Lancet Regional Health – Americas, que avaliou o progresso do país em relação ao Plano de Ações Estratégicas para o Enfrentamento das Doenças Crônicas 2021–2030.

A pesquisa analisou dados de 643.196 adultos entrevistados pelo Vigitel entre 2009 e 2023, nas 26 capitais estaduais e no Distrito Federal. Com base nessas informações, os pesquisadores projetaram a evolução dos principais fatores de risco e proteção até 2030.

O resultado mais preocupante diz respeito à obesidade. Sua prevalência nas capitais aumentou de 14,3% em 2009 para 24,3% em 2023. Se a tendência de longo prazo continuar, poderá alcançar 28,3% em 2030. Isso representaria um crescimento de 39,4% em relação a 2019, quando 20,3% dos adultos apresentavam obesidade. A trajetória contraria diretamente o compromisso nacional de interromper o aumento desse indicador.

O crescimento da obesidade é acompanhado pela expansão de outras doenças relacionadas à alimentação inadequada. Até 2030, a prevalência de diabetes poderá aumentar 47,3%, passando de 7,4% para 10,9%. A hipertensão, por sua vez, deverá atingir 27,3% da população adulta pesquisada.

Embora o estudo não tenha medido diretamente o consumo de alimentos ultraprocessados, os autores apontam sua crescente presença na dieta brasileira como uma possível explicação para o avanço simultâneo da obesidade, do diabetes e da hipertensão. O consumo de ultraprocessados não foi incluído nas projeções porque o Plano de Enfrentamento das Doenças Crônicas não estabelece uma meta numérica específica para esse indicador. Essa ausência representa uma importante lacuna para o monitoramento das políticas de alimentação e nutrição.

Outro sinal de alerta é o baixo consumo de frutas e hortaliças. Em 2023, somente 21,4% dos adultos atingiam a recomendação de pelo menos cinco porções diárias, em cinco ou mais dias da semana. A projeção indica que esse percentual poderá chegar a 24,5% em 2030, ainda distante da meta de 29,8%. Na prática, aproximadamente três em cada quatro adultos das capitais continuariam sem consumir a quantidade mínima recomendada.

O estudo identifica o preço dos alimentos, as dificuldades de abastecimento e o acesso limitado a produtos frescos como barreiras centrais. Reconhece também a contribuição de políticas como o Programa Nacional de Alimentação Escolar, o Bolsa Família e iniciativas mais recentes voltadas ao abastecimento e à cesta básica. Entretanto, avalia que as medidas existentes ainda são insuficientes para mudar a trajetória atual.

A principal evolução positiva ocorreu no consumo regular de refrigerantes e sucos artificiais, que caiu de 26% em 2009 para 14,9% em 2023. A projeção de longo prazo aponta redução para 3,2% em 2030, superando a meta nacional. Porém, a análise dos anos mais recentes sugere uma possível estagnação. Além disso, o indicador não inclui chás prontos, águas saborizadas e outras novas categorias de bebidas adoçadas que vêm ganhando mercado.

Nesse contexto, os pesquisadores consideram importante avançar na tributação seletiva das bebidas açucaradas, prevista para entrar em vigor no Brasil em 2027. A medida deve abranger diferentes categorias de bebidas e ser combinada com rotulagem frontal, restrições à publicidade e controle da oferta em escolas.

Para o Instituto Fome Zero, os resultados reafirmam que segurança alimentar não significa somente ter acesso a calorias suficientes. O direito humano à alimentação adequada pressupõe acesso regular a alimentos saudáveis, diversificados e culturalmente apropriados. O enfrentamento da fome precisa, portanto, estar articulado ao combate à obesidade e às demais formas de má nutrição.

Isso exige políticas públicas capazes de melhorar os ambientes alimentares, ampliar o acesso econômico e territorial a alimentos frescos, fortalecer a agricultura familiar e regular a oferta e a promoção comercial de produtos prejudiciais à saúde. O paradoxo revelado pelo estudo — menos refrigerantes, mas mais obesidade — mostra que intervenções isoladas não são suficientes. É necessário transformar o sistema alimentar como um todo.

Mensagens principais

  • A obesidade poderá atingir 28,3% dos adultos das capitais brasileiras em 2030.
  • Entre 2009 e 2023, a prevalência da obesidade aumentou quase 70%.
  • Aproximadamente 75,5% dos adultos poderão continuar sem consumir a quantidade recomendada de frutas e hortaliças em 2030.
  • O consumo regular de refrigerantes e sucos artificiais diminuiu, mas a tendência mais recente indica possível estagnação.
  • A tributação das bebidas açucaradas deve abranger diferentes categorias e ser acompanhada de rotulagem, regulação da publicidade e proteção dos ambientes escolares.
  • A ausência de uma meta nacional para o consumo de ultraprocessados constitui uma importante lacuna de monitoramento.
  • Combater a fome também significa assegurar acesso a dietas saudáveis e enfrentar simultaneamente obesidade, diabetes e outras formas de má nutrição.
  • PNAE, PAA, Bolsa Família, abastecimento público e agricultura familiar são instrumentos centrais para ampliar o acesso a alimentos frescos e saudáveis.

Baixe aqui o estudo “Progress toward the 2030 targets of Brazil’s Strategic Action Plan for noncommunicable diseases: a time-series and projection analysis of risk factors“