O novo relatório europeu do Lancet Countdown on Health and Climate Change, publicado em 2026, oferece um dos panoramas mais amplos já produzidos sobre a relação entre crise climática e saúde pública no continente. Intitulado The 2026 Europe Report of the Lancet Countdown on Health and Climate Change: Narrowing Window for Decisive Health Action, o documento reúne dezenas de pesquisadores e acompanha indicadores ligados ao calor extremo, doenças infecciosas, insegurança alimentar, energia, poluição atmosférica, urbanização e desigualdade social.
Os dados apontam uma situação de forte deterioração climática sobre a vida cotidiana europeia, mesmo em meio ao avanço de políticas de transição energética. A redução das emissões de gases de efeito estufa e a expansão dos investimentos em energia limpa não têm sido suficientes para conter o crescimento dos impactos sanitários associados ao aquecimento global.
O relatório analisa 43 indicadores, sete deles introduzidos nesta edição. O conjunto revela alterações profundas nas condições ambientais do continente. Ondas de calor tornaram-se mais frequentes, mais longas e mais perigosas. Em praticamente todas as regiões monitoradas, aumentou o número de mortes relacionadas às altas temperaturas quando comparados os períodos de 1991–2000 e 2015–2024.
A média anual cresceu em 52 mortes por milhão de habitantes.
Em diversas partes da Europa, sobretudo no sul e no oeste do continente, os alertas sanitários de calor extremo passaram a ocorrer com intensidade inédita. Em 2024, os europeus enfrentaram 182 horas anuais de risco moderado ou elevado de estresse térmico durante atividades físicas simples, número muito superior ao registrado no fim do século passado.
O calor deixou de representar apenas episódios sazonais excepcionais. Em várias cidades, tornou-se componente permanente da experiência urbana durante períodos extensos do ano.
Os efeitos recaem de maneira desigual sobre a população. Trabalhadores da construção civil e da agricultura figuram entre os grupos mais vulneráveis devido à exposição prolongada ao calor. Crianças, idosos e moradores de regiões economicamente fragilizadas também aparecem sob risco ampliado.
Há impactos econômicos diretos. O relatório estima que o aumento das temperaturas reduziu em aproximadamente 24 horas anuais a capacidade de trabalho por trabalhador europeu entre 2000 e 2023, em comparação com a média histórica de 1965–1994.
Em áreas do sul europeu, como Grécia, Chipre e Ilhas Canárias, as perdas tornam-se mais severas. O estudo identifica ainda redução do crescimento econômico associada às anomalias térmicas, sobretudo nas regiões mediterrâneas, onde o calor crescente já interfere de maneira perceptível na produtividade e na dinâmica econômica.
A insegurança alimentar ocupa parte importante da análise. Ondas de calor e secas passaram a pressionar a produção agrícola e elevar preços de alimentos frescos, especialmente frutas e vegetais. Em 2023, mais de um milhão de pessoas adicionais enfrentaram insegurança alimentar moderada ou grave na Europa em relação à média histórica de 1981–2010.
As diferenças sociais atravessam praticamente todo o relatório. Famílias de baixa renda apresentam probabilidade muito maior de sofrer insegurança alimentar associada a eventos climáticos extremos. Em regiões mais pobres, cresce também o risco de exposição a incêndios florestais e diminui o acesso a áreas verdes urbanas.
Essa combinação entre vulnerabilidade climática e desigualdade aparece igualmente nos indicadores ligados à alimentação e às doenças crônicas. Em várias regiões europeias, aumentou a mortalidade associada a dietas inadequadas. O crescimento do consumo de vegetais em alguns países foi parcialmente neutralizado pela expansão de alimentos ultraprocessados e pelo aumento do consumo calórico derivado de produtos de baixo valor nutricional.
Os custos econômicos associados a esse padrão alimentar alcançaram aproximadamente US$ 95 bilhões em 2022
Outro eixo importante do relatório envolve as doenças infecciosas. O aquecimento global ampliou as condições ambientais favoráveis à circulação de vírus transmitidos por mosquitos e outros vetores.
A capacidade de transmissão da dengue aumentou quase 300% na Europa nas últimas décadas. Surtos locais de dengue, chikungunya e zika passaram a ocorrer com maior frequência, acompanhando a expansão geográfica de mosquitos do gênero Aedes. Também cresceram os riscos relacionados ao vírus do Nilo Ocidental e a enfermidades associadas a carrapatos.
Em áreas costeiras, os pesquisadores identificam expansão de condições favoráveis a bactérias do gênero Vibrio, capazes de provocar infecções potencialmente graves.
Ao mesmo tempo, a estação de pólen tornou-se mais longa em diversas regiões europeias. Pessoas com rinite alérgica e doenças respiratórias permanecem expostas durante períodos mais extensos do ano.
Os efeitos sobre crianças e adolescentes receberam atenção particular. Evidências analisadas pelo relatório indicam que calor extremo e poluição atmosférica afetam aprendizado, frequência escolar e desempenho educacional, sobretudo entre estudantes socialmente vulneráveis.
Na Itália, níveis mais altos de poluição foram associados a resultados mais baixos em matemática e leitura. No Reino Unido, temperaturas elevadas aumentaram ausências escolares em comunidades de menor renda.
Embora o documento registre avanços importantes na transição energética europeia, o cenário permanece marcado por contradições relevantes.
A participação das energias renováveis cresceu substancialmente desde 2016, impulsionada principalmente pela expansão da energia solar e eólica. Em 2024, os investimentos em energia limpa alcançaram €427 bilhões, superando amplamente os investimentos em combustíveis fósseis.
Mesmo assim, os subsídios governamentais destinados aos combustíveis fósseis atingiram €444 bilhões em 2023, o maior patamar da série histórica analisada pelo relatório.
Em alguns países europeus, esses subsídios ultrapassaram parcelas importantes do próprio orçamento destinado à saúde pública. O estudo observa que a instabilidade energética associada à guerra na Ucrânia contribuiu para esse aumento, mas alerta para os efeitos prolongados dessa dependência.
O setor de transporte continua sendo uma das áreas mais resistentes à descarbonização. Combustíveis fósseis ainda representam cerca de 95% da matriz energética do transporte rodoviário europeu.
O relatório dedica atenção especial ao uso crescente de biomassa sólida como fonte de energia residencial. Embora frequentemente classificada como renovável, a combustão de madeira e resíduos orgânicos produz poluentes atmosféricos associados ao aumento de doenças cardiovasculares e respiratórias.
Além disso, a ampliação desse modelo energético contribui para a perda de cobertura florestal. Entre 2014 e 2023, a perda de áreas arborizadas aumentou 80% em comparação com a década anterior.
Essa discussão ocupa posição importante no documento porque questiona simplificações recorrentes no debate climático contemporâneo. Nem toda fonte classificada como renovável produz automaticamente benefícios ambientais e sanitários amplos.
O próprio setor de saúde aparece como parte desse impasse. Embora as emissões associadas aos sistemas de saúde tenham diminuído discretamente, os impactos relacionados à poluição produzida pelas atividades do setor cresceram nas últimas décadas.
Os pesquisadores defendem abordagens integradas, capazes de combinar redução de emissões, melhoria da qualidade do ar e proteção social sem transferir danos ambientais de um setor para outro.
Também houve avanços institucionais importantes. Cresceu o número de países europeus com planos nacionais de adaptação climática na saúde. Sistemas de alerta precoce para ondas de calor tornaram-se mais frequentes e cidades ampliaram mecanismos de monitoramento climático.
Ainda assim, muitas administrações locais relatam falta de financiamento, baixa capacidade técnica e ausência de prioridade política para transformar diagnósticos em políticas permanentes.
Outro dado chama atenção. Apesar do crescimento contínuo da produção científica sobre clima e saúde, diminuiu o engajamento político, corporativo e midiático em torno dessa relação nos últimos anos.
Em contrapartida, ações judiciais climáticas passaram a ocupar papel mais relevante na pressão sobre governos. O relatório menciona decisões recentes da Corte Internacional de Justiça que reconhecem obrigações jurídicas dos Estados diante dos efeitos da mudança climática sobre saúde e bem-estar humano.
O relatório descreve um continente submetido a transformações ambientais que já interferem em padrões de adoecimento, segurança alimentar, produtividade econômica e organização urbana.
A velocidade dessas mudanças continua elevada. Em várias áreas, as respostas institucionais avançam de forma mais lenta do que a deterioração das condições ambientais observadas pelos pesquisadores.
O relatório sugere, de maneira contínua, que políticas climáticas não podem mais ser tratadas como agendas isoladas de meio ambiente ou energia. Saúde pública, planejamento urbano, alimentação, trabalho, habitação e proteção social aparecem conectados por efeitos cada vez mais visíveis do aquecimento global.
A questão já não se limita às emissões futuras. Em boa parte da Europa, trata-se agora de administrar consequências que passaram a integrar a rotina social, econômica e sanitária do continente.
Baixe aqui o “The 2026 Europe Report of the Lancet Countdown on Health and Climate Change: Narrowing Window for Decisive Health Action“
