FAO identifica oito lições para fortalecer a transformação dos sistemas agroalimentares

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Relatório reúne experiências de dez países e mostra como políticas mais integradas podem ampliar os resultados nas áreas de alimentação, clima, saúde e desenvolvimento

Blog do IFZ | 18/06/2026

A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) publicou o relatório Promovendo a coerência das políticas para a transformação dos sistemas agroalimentares: lições emergentes de dez países (Advancing Policy Coherence for Agrifood Systems Transformation: Emerging Lessons from Ten Countries), uma análise comparativa que examina como diferentes governos vêm buscando maior articulação entre políticas relacionadas à agricultura, alimentação, nutrição, saúde, proteção social, clima, biodiversidade e desenvolvimento econômico.

A publicação parte de uma constatação cada vez mais presente nos debates internacionais. Os desafios ligados à fome, à má nutrição, às mudanças climáticas, à degradação ambiental e às desigualdades sociais não podem ser enfrentados por setores governamentais atuando isoladamente. Como os sistemas agroalimentares conectam produção, distribuição, consumo, saúde, meio ambiente e desenvolvimento territorial, suas transformações dependem de políticas capazes de atuar de forma coordenada.

Mais do que identificar exemplos de sucesso ou fracasso, o relatório procura compreender como diferentes países vêm construindo processos de coerência de políticas públicas. O objetivo não é estabelecer rankings nem modelos universais, mas identificar experiências, desafios e aprendizados que possam contribuir para o aperfeiçoamento das estratégias nacionais.

Dez países, dez caminhos para um mesmo desafio

A diversidade das experiências analisadas constitui um dos aspectos mais interessantes da publicação.

Os dez estudos de caso revelam que a busca por maior coerência entre políticas públicas pode partir de pontos de entrada bastante distintos.

Na Bósnia e Herzegovina, o principal vetor de integração é o processo de harmonização institucional associado à adesão à União Europeia. No Brasil, a segurança alimentar e nutricional constitui o eixo estruturador dos esforços de coordenação entre diferentes áreas governamentais. Em Camarões, a convergência ocorre a partir de prioridades ligadas à produção agrícola, à adaptação climática e à nutrição.

A Costa Rica utiliza a articulação entre agricultura, clima e biodiversidade como principal mecanismo de integração. No Paquistão, o combate às múltiplas formas de má nutrição impulsiona a aproximação entre agricultura, saúde, educação e proteção social. Ruanda utiliza sua estratégia nacional de transformação agrícola para incorporar objetivos relacionados à nutrição, aos mercados e à resiliência climática.

Em Serra Leoa, a estratégia Feed Salone tornou-se o principal instrumento de coordenação nacional. A Suíça aposta na integração entre agricultura, alimentação, clima e saúde por meio de uma estratégia de longo prazo. Uganda incorpora os sistemas agroalimentares ao planejamento nacional do desenvolvimento, enquanto o Vietnã utiliza um plano nacional de transformação dos sistemas alimentares para aproximar diferentes estratégias setoriais.

As trajetórias são distintas, mas convergem em um ponto essencial. Em todos os casos, os governos procuram reduzir contradições entre políticas, fortalecer sinergias e construir respostas mais integradas para desafios que ultrapassam fronteiras institucionais tradicionais.

Oito lições para a transformação dos sistemas agroalimentares

A partir da análise dessas experiências, a FAO identifica oito lições centrais.

1. Liderança política impulsiona mudanças, mas não garante sua continuidade

O compromisso de presidentes, primeiros-ministros e órgãos centrais de governo frequentemente cria as condições necessárias para colocar a transformação dos sistemas agroalimentares entre as prioridades nacionais.

Entretanto, o relatório observa que a liderança política, isoladamente, raramente é suficiente para sustentar avanços duradouros. Resultados consistentes dependem também de financiamento, capacidades institucionais, marcos legais e mecanismos de responsabilização capazes de atravessar mudanças de governo.

2. Processos internacionais podem acelerar a integração das políticas

Iniciativas internacionais como os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, os compromissos climáticos e a Cúpula das Nações Unidas sobre Sistemas Alimentares vêm desempenhando papel importante na aproximação entre diferentes agendas governamentais.

Em diversos países, esses processos ajudaram a criar espaços de diálogo, fortalecer compromissos nacionais e ampliar oportunidades de cooperação técnica e financeira.

3. Estruturas de coordenação ajudam a reduzir a fragmentação institucional

Comitês interministeriais, plataformas nacionais e mecanismos permanentes de coordenação aparecem como instrumentos importantes para conectar setores tradicionalmente separados.

Segundo o relatório, essas estruturas tendem a produzir melhores resultados quando possuem autoridade institucional clara, recursos adequados e capacidade efetiva de influenciar decisões públicas.

4. A participação social fortalece a legitimidade das políticas

A presença de organizações da sociedade civil, produtores, pesquisadores, governos locais e outros atores sociais contribui para ampliar a qualidade dos processos decisórios.

Além de favorecer a construção de consensos, a participação social permite incorporar conhecimentos diversos e aproximar as políticas das realidades territoriais.

5. Estratégias integradas ajudam a construir uma visão compartilhada

Países que incorporam a transformação dos sistemas agroalimentares em estratégias nacionais mais amplas tendem a apresentar maior alinhamento entre planejamento, orçamento e implementação.

Essas estratégias funcionam como referências comuns para diferentes instituições e facilitam a convergência entre objetivos econômicos, sociais e ambientais.

6. O financiamento continua sendo um desafio decisivo

Uma das conclusões mais recorrentes do estudo é a existência de uma distância significativa entre ambições políticas e disponibilidade de recursos.

Muitos governos possuem estratégias abrangentes, mas enfrentam dificuldades para mobilizar investimentos compatíveis com os objetivos estabelecidos.

7. Sistemas de monitoramento e aprendizagem precisam ser fortalecidos

O relatório observa que mecanismos de avaliação ainda permanecem insuficientemente desenvolvidos em muitos contextos.

A ausência de processos sistemáticos de monitoramento dificulta a identificação de resultados, limita a capacidade de adaptação das políticas e reduz oportunidades de aprendizagem institucional.

8. A implementação continua sendo a etapa mais complexa

Mesmo quando existem estratégias bem formuladas e estruturas de coordenação estabelecidas, a implementação costuma representar o maior desafio.

Limitações técnicas, restrições orçamentárias e dificuldades de coordenação entre instituições frequentemente reduzem a capacidade de transformar objetivos políticos em resultados concretos.

O caso brasileiro

Entre os países analisados, o Brasil aparece como uma das experiências mais consolidadas de governança voltada à segurança alimentar e nutricional.

O relatório destaca a relevância do Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (SISAN), que articula União, estados, municípios e sociedade civil em torno do direito humano à alimentação adequada. Também são ressaltados o papel do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), os mecanismos de coordenação interministerial e iniciativas voltadas à integração entre agricultura familiar, proteção social, alimentação saudável e desenvolvimento territorial.

A publicação observa ainda que essa arquitetura institucional contribui para conectar agendas relacionadas ao combate à fome, à redução das desigualdades, à sustentabilidade ambiental e ao fortalecimento dos sistemas alimentares locais.

Coerência de políticas como processo permanente

Talvez a principal contribuição do relatório esteja na compreensão de que a coerência de políticas não constitui um objetivo que se alcança de forma definitiva.

As experiências analisadas mostram que a transformação dos sistemas agroalimentares envolve processos contínuos de negociação, coordenação, aprendizagem e adaptação. Cada país parte de condições institucionais próprias, enfrenta desafios específicos e constrói soluções compatíveis com sua realidade política, econômica e social.

Ao reunir evidências provenientes de contextos tão diversos, a publicação da FAO sugere que não existe uma fórmula única para promover a transformação dos sistemas agroalimentares. Existem, porém, princípios comuns capazes de orientar essa trajetória. Entre eles estão a cooperação entre setores, a participação social, a construção de mecanismos permanentes de coordenação e a capacidade de alinhar objetivos econômicos, sociais, ambientais e nutricionais.

Em um cenário marcado pela persistência da fome, pela intensificação das mudanças climáticas e pela crescente pressão sobre os recursos naturais, o relatório oferece uma contribuição valiosa para compreender como políticas públicas mais coerentes podem ampliar a capacidade dos governos de produzir resultados duradouros, equitativos e sustentáveis.

Baixe aqui o relatório “Advancing Policy Coherence For Agrifood Systems Transformation Emerging Lessons From Ten Countries

FAO. 2026. Advancing policy coherence for agrifood systems transformation – Emerging lessons from ten
countries. Rome. https://doi.org/10.4060/ce0124en