Blog do IFZ | 18/06/2026
Em um contexto marcado pela intensificação dos eventos climáticos extremos e pela sobreposição de riscos que afetam, de forma desproporcional, as populações mais vulneráveis, cresce a necessidade de aperfeiçoar não apenas as políticas de proteção social, mas também a capacidade de verificar seus efeitos concretos na vida das pessoas. É nesse horizonte que o International Institute for Environment and Development (IIED) lança o documento Monitoramento local liderado pelo ASPIRE: acompanhamento das trajetórias de resiliência das famílias usando a escala de resiliência RISE (ASPIRE locally led monitoring: tracking household resilience trajectories using the RISE resilience ladder), uma contribuição inovadora para o debate internacional sobre resiliência climática, proteção social antecipatória e monitoramento orientado por resultados reais.
O estudo parte de uma constatação simples, porém decisiva. Programas de proteção social podem desempenhar um papel fundamental na preparação, resposta e recuperação diante de choques climáticos. Entretanto, a existência desses programas, por si só, não assegura que o apoio chegue às famílias no momento adequado, com a intensidade necessária e de forma inclusiva. Entre o desenho institucional e a experiência vivida pelas comunidades existe uma distância que nem sempre é capturada pelos sistemas convencionais de monitoramento.
Tradicionalmente, a avaliação dessas iniciativas concentra-se em indicadores administrativos, como recursos desembolsados, número de beneficiários alcançados ou metas operacionais cumpridas. Embora relevantes, essas métricas oferecem apenas uma visão parcial do processo. Elas informam o que foi entregue pelos programas, mas raramente permitem compreender o que efetivamente aconteceu no nível domiciliar. A ajuda chegou antes que a crise se agravasse? Foi suficiente para evitar perdas irreversíveis? Alcançou os grupos mais expostos? Produziu efeitos duradouros na capacidade de enfrentar novos riscos?
Para responder a essas questões, o IIED desenvolveu a abordagem ASPIRE Locally Led Monitoring (LLM), um sistema de monitoramento liderado pelas próprias comunidades. A proposta representa uma mudança de perspectiva ao deslocar o foco da prestação de contas voltada exclusivamente para instâncias superiores de gestão para uma lógica de responsabilização orientada às pessoas que recebem o apoio.
No centro dessa metodologia está a RISE Resilience Ladder, uma ferramenta concebida para acompanhar a trajetória das famílias ao longo do tempo. Em vez de tratar a resiliência como uma condição fixa, a escada RISE reconhece seu caráter dinâmico. Ela permite observar se os domicílios estão avançando, permanecendo estagnados ou retrocedendo diante de sucessivos choques climáticos e econômicos.
A abordagem considera diferentes dimensões da resiliência — absorção, adaptação e transformação — e busca compreender como essas capacidades evoluem em contextos de crescente incerteza. Com isso, torna-se possível identificar não apenas a existência de apoio institucional, mas também sua qualidade, oportunidade e efetividade.
Um dos aspectos mais originais do modelo é o protagonismo conferido às próprias famílias. Utilizando aplicativos móveis apoiados por recursos de inteligência artificial, os beneficiários registram informações sobre o recebimento da assistência, seu momento de chegada e sua adequação às necessidades enfrentadas. O processo é complementado pela atuação de voluntários locais capacitados, reduzindo barreiras associadas à alfabetização, ao acesso digital ou ao compartilhamento de dispositivos.
Essa arquitetura metodológica combina simplicidade operacional com elevado potencial analítico. Cada recurso investido pode ser acompanhado até o nível domiciliar, produzindo evidências mais precisas sobre os resultados alcançados. Ao mesmo tempo, o envolvimento comunitário fortalece a legitimidade das informações geradas e amplia a capacidade de identificar exclusões que frequentemente permanecem invisíveis nos sistemas tradicionais.
A proposta não surge apenas como exercício conceitual. Sua lógica foi testada na Índia por meio do programa CRISP-M, vinculado ao sistema de proteção social MGNREGS. A experiência demonstrou a viabilidade de integrar conhecimento comunitário, tecnologias digitais e inteligência artificial para verificar, inclusive, a funcionalidade de ativos de resiliência nos territórios. Os resultados contribuíram para a incorporação da abordagem pelo governo indiano.
Atualmente, novas aplicações estão em desenvolvimento em países como Senegal e Malawi, com apoio da organização Comic Relief. A expectativa é que a metodologia também integre iniciativas mais amplas voltadas ao enfrentamento da insegurança alimentar e dos impactos climáticos em regiões particularmente vulneráveis da África Subsaariana e da área da IGAD.
Outro elemento de destaque é a conexão entre os dados produzidos localmente e estruturas mais amplas de observação e aprendizagem. Ao consolidar evidências provenientes das comunidades, o sistema oferece aos formuladores de políticas públicas, financiadores e organismos internacionais condições mais robustas para ajustar estratégias, corrigir falhas de implementação e direcionar investimentos com maior precisão.
O documento apresenta, assim, uma reflexão oportuna sobre um desafio central das políticas climáticas contemporâneas. A eficácia dos investimentos em adaptação e proteção social não pode ser medida apenas pelos recursos mobilizados ou pelas estruturas criadas. Ela depende, sobretudo, da capacidade de transformar apoio institucional em segurança concreta para as famílias que convivem diariamente com riscos crescentes.
Ao colocar as experiências das comunidades no centro da avaliação, a iniciativa do IIED oferece uma contribuição relevante para a construção de sistemas de proteção social mais responsivos, inclusivos e orientados por evidências. Em um período em que os efeitos das mudanças climáticas se tornam cada vez mais intensos, compreender as trajetórias reais de resiliência das famílias deixa de ser apenas uma questão metodológica. Torna-se uma condição indispensável para que políticas públicas e financiamentos climáticos produzam resultados verificáveis, duradouros e socialmente significativos.
Baixe aqui o documento “ASPIRE locally led monitoring Tracking household resilience trajectories using the RISE resilience ladder“
