Blog do IFZ | 20/06/2026
A fome costuma ser compreendida como consequência de crises econômicas, desastres ambientais ou conflitos armados. O artigo “A fome como instrumento de genocídio: a política de extermínio da população palestina por Israel”, publicado no Caderno CRH, propõe uma interpretação distinta para a realidade vivida pela população palestina na Faixa de Gaza. Segundo os pesquisadores Alexandre César Cunha Leite, Laura Schneider e Lavínia Maria S. Ferreira, a privação alimentar observada no território não pode ser entendida apenas como efeito das hostilidades militares. O estudo sustenta que a fome foi transformada em instrumento deliberado de destruição coletiva, integrando um processo que os autores caracterizam juridicamente como genocídio.
A pesquisa reúne dados de organismos internacionais, relatórios humanitários e documentação produzida ao longo de décadas para reconstruir a evolução das políticas de controle alimentar impostas à população palestina. O estudo mostra que as restrições ao acesso a alimentos, água, combustíveis, medicamentos e insumos agrícolas não surgiram após os acontecimentos de outubro de 2023. Elas fazem parte de um processo histórico mais amplo, consolidado por sucessivos bloqueios, limitações à circulação de mercadorias e intervenções sobre a capacidade produtiva local.
Quando a fome deixa de ser consequência
Um dos argumentos centrais do artigo é que a fome observada em Gaza não pode ser explicada apenas como resultado indireto das operações militares. Os autores identificam um conjunto de medidas que restringem sistematicamente o acesso da população a bens essenciais para a sobrevivência, transformando a alimentação em objeto de controle político.
O bloqueio de alimentos, água, combustível e medicamentos intensificou um cerco já existente e aprofundou uma situação de dependência construída ao longo de décadas. Nesse contexto, a fome aparece como uma condição produzida por decisões políticas concretas, e não como um desdobramento inevitável do conflito.
Além da emergência humanitária
A pesquisa chama atenção para os efeitos duradouros da privação alimentar. Os impactos não se limitam ao aumento da mortalidade ou ao agravamento da desnutrição. Segundo os autores, a destruição de estruturas agrícolas e a restrição ao acesso a insumos produtivos enfraquecem a capacidade da sociedade palestina de produzir seus próprios alimentos e preservar sistemas alimentares autônomos.
Essa dependência crescente afeta especialmente as crianças. Estudos analisados pelos pesquisadores indicam que a insegurança alimentar prolongada pode comprometer o desenvolvimento físico e cognitivo, produzindo consequências que acompanham os indivíduos ao longo de toda a vida. A fome, portanto, alcança simultaneamente o presente e as possibilidades futuras de uma população.
O impasse das instituições internacionais
Outro eixo importante da pesquisa examina a atuação das instituições multilaterais. Embora agências humanitárias e organismos das Nações Unidas tenham documentado reiteradamente o agravamento da crise alimentar em Gaza, os autores observam a dificuldade de transformar diagnósticos e alertas em medidas efetivas de proteção.
A análise destaca o papel do Conselho de Segurança da ONU e os impasses produzidos pelo uso do poder de veto, especialmente por parte dos Estados Unidos. Na avaliação apresentada pelo estudo, essa paralisia institucional contribui para a continuidade de políticas já amplamente denunciadas por organismos internacionais e limita os mecanismos de responsabilização previstos pelo direito internacional.
Reconhecimento, proteção e responsabilidade
Ao examinar a documentação disponível e os indicadores humanitários produzidos por organismos internacionais, o artigo conclui que a fome imposta à população palestina deve ser compreendida como parte de um regime mais amplo de dominação territorial e política. Os autores defendem que a combinação entre bloqueios, destruição de infraestrutura básica e restrições sistemáticas ao acesso a alimentos ultrapassa a categoria de dano colateral e exige uma análise centrada na responsabilidade internacional.
A pesquisa também destaca a relevância do reconhecimento do Estado palestino para ampliar instrumentos diplomáticos e jurídicos de proteção. Mais do que uma contribuição para os estudos sobre segurança alimentar ou relações internacionais, o trabalho oferece elementos para compreender como a privação de recursos essenciais pode ser mobilizada como mecanismo de dominação e violência coletiva. Ao reunir evidências históricas, jurídicas e humanitárias, o artigo amplia o debate sobre os limites da ordem internacional diante de crises prolongadas e sobre os desafios envolvidos na proteção efetiva de populações submetidas a condições extremas de vulnerabilidade.
Baixe aqui o artigo “A fome como instrumento de genocídio: a política de extermínio da população palestina por Israel”
CÉSAR CUNHA LEITE, A.; SCHNEIDER, L.; MARIA S. FERREIRA, L. A FOME COMO INSTRUMENTO DE GENOCÍDIO: a política de extermínio da população palestina por Israel. Caderno CRH, [S. l.], v. 39, p. e026011, 2026. DOI: 10.9771/ccrh.v39i0.70208. Disponível em: https://periodicos.ufba.br/index.php/crh/article/view/70208. Acesso em: 20 jun. 2026.
