Promessas verdes, provas escassas: o que dizem (e não provam) as maiores empresas de carne e laticínios do mundo

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Blog do IFZ | 28/07/2026

Em 2021, a JBS, maior processadora de carne do planeta, anunciou que alcançaria a neutralidade de carbono até 2040. A promessa ganhou uma página inteira no New York Times e ocupou oito páginas do relatório de sustentabilidade publicado pela companhia naquele ano. Três anos depois, porém, a procuradora-geral do estado de Nova York, Letitia James, levou esse compromisso aos tribunais. Segundo a ação, a empresa apresentava ao público uma meta ambiciosa sem demonstrar um plano plausível para alcançá-la.

O caso colocou em evidência uma questão que vai além da atuação de uma única companhia: até que ponto as alegações ambientais divulgadas pelas maiores empresas de carne e laticínios do mundo resistem a um exame cuidadoso?

Foi essa pergunta que orientou um estudo conduzido por Maya Bach, Loredana Loy, Katharine J. Mach, Sonali Shukla McDermid e Jennifer Jacquet, das universidades de Miami e de Nova York, publicado na revista científica PLOS Climate sob o título Environmental claims, climate promises, and ‘greenwashing’ by meat and dairy companies.

As pesquisadoras analisaram os relatórios de sustentabilidade e os sites institucionais de 33 das maiores companhias do setor, publicados entre 2021 e 2024, avaliando tanto as alegações ambientais quanto a consistência das evidências apresentadas para sustentá-las. O resultado oferece um retrato detalhado de como essas empresas constroem sua narrativa pública sobre sustentabilidade e do quanto dessa narrativa pode ser efetivamente comprovado.

A pecuária responde por, no mínimo, 16,5% das emissões globais de gases de efeito estufa, uma participação desproporcional à contribuição que oferece para a alimentação humana. Os alimentos de origem animal concentram 57% das emissões associadas à produção mundial de comida, e o setor conhece esse impacto. Não por acaso, as 33 empresas analisadas reuniam, em seus relatórios e sites institucionais, 1.233 alegações ambientais distintas. A quantidade variava enormemente entre companhias: de uma única alegação, no caso da Koch Foods e da Arab Livestock Company, às 106 registradas pela Danone, líder isolada do levantamento.

Dessas 1.233 alegações, 841, ou 68%, tratavam diretamente de clima. O aquecimento global tornou-se, assim, a principal lente por meio da qual essas empresas escolheram apresentar seus esforços de sustentabilidade, enquanto outros impactos igualmente relevantes da pecuária, como o uso da água, a perda de biodiversidade e a poluição do solo, receberam atenção muito menor.

A predominância do tema climático, porém, não foi o único padrão identificado pelas pesquisadoras. A análise mostrou também que uma parcela expressiva da comunicação ambiental dessas empresas estava voltada ao futuro. Das 1.233 alegações catalogadas, 467, ou 38% do total, eram promessas, e quase três quartos delas diziam respeito ao clima. Em vez de relatar ações já implementadas e passíveis de verificação, grande parte das empresas preferiu anunciar objetivos a serem alcançados nos anos seguintes, muitas vezes sem apresentar critérios claros que permitissem avaliar posteriormente se seriam efetivamente cumpridos.

Se boa parte da comunicação ambiental consistia em promessas, a questão seguinte era saber quantas delas vinham acompanhadas de evidências. Das 1.233 alegações catalogadas, apenas 356, cerca de 29%, apresentavam algum tipo de comprovação, e mais da metade dessas evidências se limitava a projetos-piloto internos ou estudos de caso produzidos pelas próprias empresas. Evidências científicas publicadas em periódicos revisados por pares apareceram em apenas três alegações, feitas por três companhias diferentes: Fonterra, California Dairies e Perdue. Duas dessas três referências haviam sido publicadas em periódicos com estreita ligação ao próprio setor agropecuário. Em outras palavras, mais de dois terços das alegações ambientais analisadas permaneceram sem evidências independentes capazes de permitir sua verificação.

As pesquisadoras foram além e submeteram cada uma das 1.233 alegações à metodologia desenvolvida por Nemes e colaboradores para identificar indícios de greenwashing em comunicações corporativas. A classificação revelou que 1.213 delas, ou 98% do total, apresentavam ao menos um sinal de maquiagem ambiental. Restaram apenas vinte alegações — menos de 2% do conjunto — consideradas neutras e passíveis de verificação, como a informação de que, somente nos Estados Unidos, entre 30% e 40% dos alimentos produzidos jamais chegam a ser consumidos, dado corroborado pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos.

Alguns exemplos ajudam a dimensionar a distância entre as iniciativas anunciadas e seus efeitos concretos. A irlandesa ABP Group informou que mantinha um projeto de pesquisa em uma fazenda de 280 acres para testar um modelo mais sustentável de produção bovina, mas não apresentou métricas nem definiu o que entendia por sustentabilidade. A alemã DMK Food Group destacou sua adesão à Science Based Targets initiative e reafirmou compromisso com o Acordo de Paris, uma filiação que, por si só, pouco informa sobre resultados efetivamente alcançados. Já a francesa Lactalis apresentou como destaque ambiental a substituição de uma caldeira por um equipamento mais eficiente em uma unidade de Luxemburgo, com redução estimada de 1.350 toneladas de CO₂ equivalente por ano — uma economia real, mas modesta diante da escala global de suas operações.

A mesma lógica aparece nos compromissos de neutralidade de carbono. Das 33 empresas analisadas, 17 já anunciaram metas para zerar suas emissões líquidas, contra apenas quatro companhias identificadas em levantamento semelhante realizado em 2020. Dez delas estabeleceram 2050 como horizonte para atingir esse objetivo. Segundo as autoras, porém, esses compromissos reproduzem um padrão já observado na indústria de combustíveis fósseis: dependem fortemente de mecanismos de compensação de carbono (offsets), em vez de reduções efetivas das emissões na origem.

Os próprios documentos corporativos revelam, em alguns casos, a fragilidade desses compromissos. A Tyson Foods descreveu sua meta como algo que a empresa “aspira continuamente alcançar”, uma formulação que evita assumir um compromisso verificável. A JBS, por sua vez, registrou em nota de rodapé que o cumprimento da meta dependeria de “numerosos fatores fora do controle da companhia”, ao mesmo tempo em que mantinha um site inteiramente dedicado à neutralidade de carbono e ampliava suas operações industriais no Brasil e nos Estados Unidos.

A desproporção entre a visibilidade dessas iniciativas e seu alcance também aparece em projetos de menor escala. A dinamarquesa Arla Foods, quarta maior empresa de laticínios do mundo e cooperativa formada por mais de 12 mil produtores, apresentou um projeto-piloto de agricultura regenerativa em apenas 24 fazendas — cerca de 0,0019% de suas operações globais. A japonesa NH Foods destacou a redução da largura da fita utilizada nas embalagens de salsicha, de 18 para 15 milímetros, aplicada a apenas um entre seus diversos produtos. Já a Hormel Foods informou ter incorporado o selo How2Recycle a 326 produtos, sem indicar qualquer mudança estrutural em sua cadeia produtiva.

As conclusões do estudo não se limitam ao debate acadêmico. Nos Estados Unidos, o discurso comercial — categoria jurídica que inclui relatórios corporativos e materiais de divulgação institucional — está sujeito a padrões legais mais rigorosos do que o discurso político. Isso significa que alegações ambientais enganosas podem dar origem a ações judiciais e outras formas de responsabilização.

Além do processo movido contra a JBS pela procuradora-geral de Nova York, empresas como Danish Crown, Tyson Foods, Arla Foods e Fonterra já enfrentaram questionamentos judiciais relacionados à publicidade ambiental. Ao mesmo tempo, mudanças regulatórias vêm ampliando a pressão sobre esse tipo de comunicação corporativa. Em 2023, a Califórnia aprovou novas exigências de transparência climática para grandes empresas que operam no estado, reduzindo o espaço para relatórios voltados predominantemente à autopromoção.

As autoras situam essas conclusões em um contexto mais amplo. Promessas vagas e compromissos pouco fundamentados não são uma característica exclusiva da indústria da carne e dos laticínios. Como exemplo, citam a grife Stella McCartney, que divulgou um forro de bolsa capaz de sequestrar dióxido de nitrogênio e purificar o ar — uma alegação de natureza semelhante às observadas nos relatórios analisados. A diferença, argumentam, está na escala dos impactos envolvidos.

Quando um setor responsável por parcela tão expressiva das emissões globais constrói uma imagem ambiental mais favorável do que as evidências permitem sustentar, preserva não apenas sua licença social para operar, mas também seu acesso a financiamento. A própria JBS captou US$ 1 bilhão em títulos vinculados à sustentabilidade, tendo como referência sua meta de neutralidade de carbono.

O paralelo com a indústria de combustíveis fósseis atravessa todo o estudo. Durante décadas, empresas do setor recorreram a compromissos voluntários, metas futuras e campanhas de comunicação ambiental para responder às crescentes preocupações com a mudança climática, muitas vezes sem reduzir suas emissões na velocidade exigida pela ciência. As autoras argumentam que as maiores companhias de carne e laticínios parecem seguir estratégia semelhante.

A diferença, afirmam, está no tempo disponível. Diante da necessidade de reduzir rapidamente as emissões globais, a pecuária dispõe de uma margem ainda menor para substituir evidências por promessas. Quanto mais as empresas baseiam sua comunicação em compromissos futuros pouco verificáveis, mais difícil se torna distinguir avanços efetivos de estratégias destinadas principalmente a preservar reputação, confiança e acesso a financiamento.

Baixe aqui o artigo “Environmental claims, climate promises, and ‘greenwashing’ by meat and dairy companies

Article Source: Environmental claims, climate promises, and ‘greenwashing’ by meat and dairy companies
Bach M, Loy L, Mach KJ, Shukla McDermid S, Jacquet J (2026) Environmental claims, climate promises, and ‘greenwashing’ by meat and dairy companies. PLOS Climate 5(4): e0000773. https://doi.org/10.1371/journal.pclm.0000773