Por José Giacomo Baccarin e Gustavo Jun Yakushiji | 22/06/2026
Baixe aqui o estudo “IPCA de Maio de 2026, Alimentação Ainda Pressionando a Inflação no Brasil“
1- Introdução
Os dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre o IPCA (Índice de Preços ao consumidor Amplo), entre janeiro e maio de 2026, revelam que a alimentação vem pressionando a inflação ao consumidor no Brasil neste ano. Enquanto o IPCA variou 3,20% nos primeiros cinco meses de 2026, o índice de um de seus noves grupos, o IPAB (Índice de Preços de Alimentação e Bebidas), variou 4,81%, abaixo apenas do grupo Educação, com variação de preços de 5,32%. No período correspondente de 2025, o IPAB havia variado 3,88%, indicando uma situação mais desfavorável em 2026.
Nesse Boletim, comparamos a variação de preços do grupo Alimentação e Bebidas com a dos demais oito grupos que compõem o IPCA. Bem como destacamos os principais componentes do IPAB que proporcionaram seu crescimento, entre janeiro e maio de 2026. Como nos boletins anteriores, nossa fonte básica de dados são as tabelas divulgadas pelo IBGE em relação ao IPCA e seus componentes (IBGE, 2026).
2 – O Papel da Alimentação e Bebidas e dos Demais Grupos do IPCA
A Tabela 1 revela que o IPCA nos primeiros cinco meses de 2026 cresceu 3,20%, acima dos 2,75% constatados em igual período de 2025. Entre os grupos, a maior variação de preços foi verificada no grupo Educação, de 5,32%. Contudo, é importante considerar que essa variação, praticamente, se concentrou no mês de fevereiro de 2026, época de reajuste de preços do material e das prestações escolares.
Nesse sentido, o aumento de 4,81% no grupo Alimentação e Bebidas é mais preocupante, com os três últimos meses revelando valor acima de 1,3%, indicando movimento altista mais duradouro. Ademais, não se deve esquecer que o peso da Alimentação e Bebidas no IPCA está por volta de 21,5%, bem acima dos 6,2% da Educação.
Ainda na Tabela 1, destaquem-se os aumentos no grupo Saúde e Cuidados Pessoais, de 3,83%, e no Transportes, de 2,59%. Neste caso, os dados de abril e maio de 2026 revelam que a ação pública no controle dos preços dos combustíveis, aparentemente, teve sucesso, de forma que a elevação expressiva de março não se repetiu em abril e maio. Julga-se conveniente informar que o grupo Transportes tem representado em torno de 20,6% do IPCA, logo abaixo da participação da Alimentação e Bebidas.

3 – Variações de Preços dos Componentes do IPCA
Nos primeiros cinco meses de 2026, o subgrupo Alimentação no Domicílio teve seus preços elevados em 5,67%, enquanto na Alimentação Fora do Domicílio o valor respectivo foi de menos da metade, de 2,61%. Ou seja, a pressão de preços vem sendo exercida pelo primeiro subgrupo, que, conforme discussões anteriores, é afetado mais diretamente pelas condições dos mercados agrícolas. Por sua vez, Alimentação Fora do Domicílio tende a ser mais afetada por custos urbanos (como aluguéis e salários) e pela demanda dos consumidores.
Na Tabela 2 percebe-se que os aumentos mais expressivos nos itens da Alimentação no Domicílio se concentraram em cinco deles: Cereais, leguminosas e oleaginosas, Tubérculos, raízes e legumes, Hortaliças e verduras, Carnes e Leites e derivados, todos acima de 5,67%, a variação do IPAD (Índice de Preços da Alimentação no Domicílio) nos cinco meses iniciais de 2026.
No caso de Tubérculos, raízes e legumes, seu aumento de preços de 65,58% contribuiu com 44,22% do amento do IPAD. Os seus três principais subitens, tomate, batata e cebola, tiveram expressivos aumentos de preços, o que, em parte, devem ser suavizados nos próximos meses, dada a sazonalidade típica de suas produções. Nas Hortaliças e verduras, isso já aconteceu no mês de maio, com pequena redução de preços, insuficiente para evitar que seu aumento no ano atingisse 14,35%, contribuindo com 3,32% do crescimento do IPAD.

Em Cereais, leguminosas e oleaginosas, a pressão de preços não se deveu ao arroz, mas se concentrou no feijão, com o preço do subitem feijão carioca aumentando 41,09% em 2026, até o momento. Como há várias safras dessa leguminosa ao longo do ano, pode acontecer que essa pressão de preços específica se amenize nos próximos meses. O aumento de 6,88% nos preços desse item contribuiu para 6,08% da variação do IPAD.
O item Carnes, com participação predominante da carne bovina, apresentou aumento de 6,28% e, dada sua grande participação nos gastos do consumidor brasileiro, foi responsável por 21,36% do aumento do IPAD. Contribuição significativa também foi verificada em Leite e derivados, de 19,73% do IPAD, em face seu aumento de preços de 9,83% e sua participação também expressiva nos gastos do consumidor.
4 – Considerações Finais
O aumento dos grupos Alimentação e Bebidas e Transportes no último mês de março haviam chamado a atenção da sociedade e do governo brasileiro. A ação do Governo Federal se mostrou eficaz em conter a elevação dos preços dos combustíveis, com o grupo Transportes registrando, na verdade, queda de preços no acumulado de abril e maio de 2026.
Contudo, a pressão do grupo Alimentação e Bebidas teve continuidade nos meses mais recentes, de forma muito concentrada em cinco itens. É provável que nos casos de Hortaliças e verduras, Tubérculos, raízes e legumes e, com menor probabilidade, em Cereais, leguminosas e oleaginosas seus preços tendam a ser reajustados em menor intensidade nos próximos meses, dada a sazonalidade da produção de grande parte de seus subitens.
No caso de Carnes e Leite e derivados, com significativas exportação e importação, respectivamente, seriam interessantes maiores acompanhamentos e tratativas públicos sobre suas estruturas de processamento, marcado pela presença de grandes frigoríficos e laticínios. Também a análise da evolução recente de seus preços externos, nível tarifário e fluxos de exportação e importação poderiam ser acompanhadas mais de perto e tempestivamente.
Nos quatro meses finais de 2024, o aumento de próximo a 25% no item Carnes fez com que o IPCA estourasse o limite superior da meta da inflação daquele ano, o que contribuiu para que o Banco Central mantivesse a política de juros altos no Brasil. Talvez seja possível que uma ação imediata do Governo Federal tenha alguma capacidade de evitar que algo semelhante aconteça em 2026.
José Giacomo Baccarin é Professor Economia Rural e Política Agrícola UNESP, campus Jaboticabal (SP). Credenciado Pós-Graduação Geografia UNESP, campus Rio Claro (SP). Diretor Instituto Fome Zero. E-mail: [email protected]
Gustavo Jun Yakushiji é Engenheiro Agrônomo e Doutorando em Estatística e Experimentação Agronômica, ESALQ/USP, Piracicaba.
Referências
IBGE. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo. Rio de Janeiro: SIDRA, 2026. Disponível em: https://sidra.ibge.gov.br/home/ipca/brasil. Acesso em: 15 junho 2026.
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