O solo dividido: o que a agricultura familiar revela sobre o Centro-Oeste brasileiro

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Blog do IFZ | 30/07/2026

Em algumas partes de Goiás, mais de 40% da terra agrícola pertence a famílias que plantam para alimentar sua região. A poucos quilômetros dali, em municípios de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, essa proporção despenca para menos de 10%. Essa diferença, mostra um estudo recente, não é fruto do acaso nem das características naturais da região. Ela reflete décadas de escolhas sobre quem ocupa a terra e de que forma ela é utilizada.

A pesquisa, intitulada Mapeamento da agricultura familiar no Centro-Oeste brasileiro: avaliação de fatores socioeconômicos e ambientais para o fortalecimento da segurança alimentar regional (“Mapping Family Farming in Brazil’s Midwest: Assessing Socioeconomic and Environmental Factors for Enhancing Regional Food Security“), foi publicada na revista científica Food Security por pesquisadores da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. A equipe analisou 466 municípios de Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul para entender como a agricultura familiar se distribui pelo território e o que essa distribuição revela sobre a estrutura fundiária, a economia local e o meio ambiente da região.

Em vez de medir diretamente a segurança alimentar — o que exigiria informações sobre acesso aos alimentos, qualidade nutricional e estabilidade de abastecimento — os pesquisadores concentraram a análise em uma de suas dimensões essenciais: a disponibilidade de alimentos. Para isso, utilizaram a proporção de terras ocupadas pela agricultura familiar como indicador da capacidade de cada município produzir alimentos para seu abastecimento interno.

A escolha do Centro-Oeste como recorte geográfico não foi arbitrária. Nas últimas décadas, a região se consolidou como um dos maiores polos mundiais de produção de commodities agrícolas, com papel decisivo nas exportações brasileiras de soja e milho. Essa expansão redesenhou a ocupação da terra, ampliou as monoculturas e deixou marcas que vão muito além da economia.

A força da agricultura familiar

A agricultura familiar responde por cerca de 80% de toda a comida produzida no mundo, embora ocupe fração bem menor das terras agrícolas disponíveis. No Brasil, regulamentada pela Lei nº 11.326, de 2006, ela reúne aproximadamente 77% dos estabelecimentos rurais do país, emprega cerca de 10,1 milhões de pessoas e gera 23% do valor bruto da produção agropecuária nacional. É dela que vem parcela significativa do feijão, da mandioca, do arroz, do leite, das frutas, das hortaliças e do café que chegam à mesa de milhões de brasileiros.

Esse protagonismo produtivo contrasta, no entanto, com a fatia de terra que lhe é destinada. Embora represente mais de três quartos dos estabelecimentos rurais do país, a agricultura familiar ocupa apenas 23% da área agrícola nacional. Entre os Censos Agropecuários de 2006 e 2017, o número de estabelecimentos familiares caiu 9,5%, enquanto a área média das grandes propriedades aumentou, sinal de que a concentração fundiária brasileira segue avançando.

Essa distinção entre quantidade de estabelecimentos e quantidade de terra ajuda a entender um número que costuma surpreender. Em 2023, a insegurança alimentar atingia 34,5% dos domicílios rurais brasileiros, percentual superior aos 26,7% registrados nas cidades. Produzir muito, aparentemente, não é o mesmo que garantir comida na mesa de quem vive ao lado da lavoura.

A reorganização do espaço agrícola também deixou impacto ambiental considerável. A conversão de áreas naturais para agricultura e pecuária responde por mais de 95% do desmatamento registrado no Brasil e está associada a mais de 70% das emissões nacionais de gases de efeito estufa. No Centro-Oeste, essas transformações atingem diretamente o Cerrado, o Pantanal e porções da Amazônia, pressionando a biodiversidade e os recursos hídricos da região.

Foi nesse cenário que os pesquisadores formularam a pergunta central do estudo. Como a agricultura familiar se distribui entre os municípios do Centro-Oeste, e quais fatores econômicos, sociais e ambientais aparecem mais fortemente associados a essa distribuição?

O mapa da desigualdade

Para responder, a equipe recorreu a técnicas de análise espacial capazes de identificar padrões territoriais e verificar como as associações entre variáveis mudam de uma região para outra. Mais relevante que o instrumental estatístico é o que ele permitiu enxergar. Os fatores ligados à agricultura familiar não atuam de maneira uniforme em todo o Centro-Oeste; algumas associações se intensificam em determinadas áreas, enquanto outras acompanham processos históricos que atravessam a região inteira.

O primeiro contraste identificado é expressivo. Na maior parte dos municípios de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, menos de 10% da área agrícola pertence a estabelecimentos familiares. Em Goiás, ao contrário, concentram-se os municípios em que a agricultura familiar ainda responde por mais de 40% da terra destinada à produção. Municípios vizinhos tendem a compartilhar essas características, formando regiões inteiras com trajetórias muito diferentes de ocupação da terra.

Entre todas as variáveis analisadas, nenhuma se associou de forma tão consistente à redução da agricultura familiar quanto a concentração fundiária. O Índice de Gini da distribuição de terras apresentou a relação negativa mais intensa de toda a pesquisa: municípios com propriedade rural mais concentrada tendem, sistematicamente, a apresentar menor participação da agricultura familiar.

O Produto Interno Bruto per capita seguiu padrão semelhante. Municípios mais ricos tendem a ter menor presença relativa de agricultura familiar, o que sugere que boa parte do dinamismo econômico regional está associada a sistemas agrícolas empresariais, intensivos em capital e organizados em torno de grandes propriedades. A produção de soja também se mostrou negativamente associada à presença de estabelecimentos familiares. A pesquisa identifica uma associação espacial consistente entre maior participação dessa cultura e menor presença relativa da agricultura familiar, sem estabelecer uma relação de causa e efeito.

O milho seguiu direção oposta. Ao contrário da soja, apresentou associação positiva com a agricultura familiar, provavelmente por sua ampla utilização em sistemas produtivos diversificados, tanto para alimentação humana quanto animal, e por sua presença mais forte em circuitos regionais de comercialização. Já a densidade populacional também se associou positivamente à agricultura familiar, indicando que a proximidade entre produtores e consumidores favorece feiras, mercados locais e programas públicos de alimentação.

O que a terra ensina sobre o clima

Entre as contribuições mais relevantes do estudo está a relação entre agricultura familiar e emissões de gases de efeito estufa. Municípios com maior participação de estabelecimentos familiares apresentaram, em média, menores emissões associadas tanto à atividade agropecuária quanto às mudanças no uso da terra, reforçando uma hipótese já discutida na literatura internacional: sistemas produtivos mais diversificados e de menor escala costumam gerar impacto ambiental menos intenso do que as grandes monoculturas.

Essa constatação ajuda a explicar por que a agricultura familiar passou a ocupar lugar central nas discussões internacionais sobre sistemas alimentares sustentáveis. A Década das Nações Unidas para a Agricultura Familiar, que vai de 2019 a 2028, reconhece que pequenos produtores desempenham papel estratégico não apenas na produção de alimentos, mas também na conservação da biodiversidade e na construção de sistemas agrícolas mais resilientes diante das mudanças climáticas.

O que o Brasil já sabe fazer

Os resultados ganham peso adicional quando confrontados com a própria trajetória brasileira de políticas públicas. Desde a década de 1990, o país construiu programas voltados a fortalecer a agricultura familiar por meio de crédito, assistência técnica e mercados institucionais. Iniciativas como o Programa de Aquisição de Alimentos e o Programa Nacional de Alimentação Escolar ampliaram a inserção de pequenos produtores na economia e contribuíram para avanços expressivos nos indicadores brasileiros de segurança alimentar.

Esse impulso perdeu força a partir de 2015, quando restrições orçamentárias e mudanças institucionais enfraqueceram parte dessas políticas, um processo que a pandemia agravou, mas não originou. Em uma região marcada pela alta concentração fundiária, como o Centro-Oeste, retomar esse tipo de política pode significar mais diversidade produtiva, mercados regionais mais fortes e maior disponibilidade de alimentos para o consumo interno. O desafio tende a crescer nas próximas décadas: projeções climáticas indicam que culturas tradicionalmente produzidas por agricultores familiares, como mandioca, feijão, milho, café, banana e laranja, poderão sofrer impactos significativos em diferentes regiões do país.

Um contraste que ensina

Embora o estudo tenha como foco exclusivo o Centro-Oeste, os autores recorrem à literatura científica para lembrar que outras regiões brasileiras seguiram caminhos bem diferentes. O Sul do país é o exemplo mais evidente. Décadas de investimento em infraestrutura rural, crédito agrícola e cooperativismo consolidaram ali uma agricultura familiar muito mais robusta, resultando em estrutura agrária significativamente distinta da observada em grande parte do Centro-Oeste.

Essa comparação não sugere um modelo pronto a ser copiado, mas prova algo importante: a distribuição atual da agricultura familiar não decorre de características naturais dos territórios. Ela é fruto de processos históricos, escolhas institucionais e políticas públicas, e por isso mesmo pode ser transformada por novas escolhas.

O que os mapas realmente ensinam

Como toda análise baseada em correlação espacial, o estudo não permite afirmar que um fator seja causa direta de outro; os pesquisadores identificam associações estatisticamente consistentes, não relações de causa e efeito. Essa cautela metodológica não enfraquece a pesquisa, ao contrário, é o que confere solidez a um retrato que, de outra forma, correria o risco de simplificar um fenômeno complexo.

O que os mapas mostram, em conjunto, é que a agricultura familiar tende a ser mais presente onde a terra é menos concentrada, a população mais densa e as emissões de gases de efeito estufa mais baixas, e tende a recuar onde predominam grandes monoculturas de exportação e elevada concentração fundiária. Não são leis universais, mas um padrão robusto o suficiente para orientar políticas públicas com mais precisão.

No Centro-Oeste brasileiro, onde a expansão do agronegócio redesenhou a paisagem em poucas décadas, entender essa geografia é compreender também como diferentes formas de ocupar a terra moldam a capacidade de produzir alimentos, conservar ecossistemas e construir um desenvolvimento rural mais equilibrado. Essa é a principal contribuição do estudo publicado na Food Security: demonstrar que a organização do território constitui um elemento central para compreender os desafios da segurança alimentar no Brasil. Em última análise, mostra que, no fundo, o mapa da fome e o mapa da terra são o mesmo mapa.

Citação do artigo

de Almeida Moura, L., de Oliveira Gallo, C., Neto, F.C. et al. Mapping family farming in Brazil’s Midwest: Assessing socioeconomic and environmental factors for enhancing regional food security. Food Sec. 17, 1119–1136 (2025). https://doi.org/10.1007/s12571-025-01587-9