Blog do IFZ | 21/09/2026
Estudo da Oxford Poverty and Human Development Initiative (OPHI), da Universidade de Oxford, propõe uma leitura mais detalhada da pobreza infantil ao observar, individualmente, as desvantagens vividas por meninos e meninas em nutrição e frequência escolar e relacioná-las às condições multidimensionais dos domicílios em que vivem. O relatório, Pobreza multidimensional e desvantagens individuais de crianças na nutrição e na frequência escolar: padrões de gênero e intradomiciliares (Multidimensional Poverty and Individual Child Disadvantages in Nutrition and School Attendance: Gendered and Intrahousehold Patterns), utiliza os microdados que fundamentam o Índice de Pobreza Multidimensional (MPI) global para examinar como diferentes privações se sobrepõem dentro das famílias.
A distinção metodológica é importante. No MPI global, a identificação da pobreza é feita no nível do domicílio. Uma pessoa é considerada multidimensionalmente pobre quando o domicílio ao qual pertence apresenta privações equivalentes a pelo menos um terço da soma ponderada dos dez indicadores do índice, distribuídos entre saúde, educação e condições de vida. Neste estudo, porém, a criança é a unidade de análise. Isso permite observar suas condições específicas sem perder de vista as privações compartilhadas pelo domicílio.
O resultado é uma imagem mais precisa das diferenças que podem existir dentro de uma mesma família. Uma criança pode estar desnutrida enquanto um irmão não está. Uma pode frequentar a escola enquanto outra, vivendo sob o mesmo teto, permanece fora dela. A situação média do domicílio não registra necessariamente essas diferenças.
Nutrição e pobreza no mesmo domicílio
Entre os 518,5 milhões de crianças menores de cinco anos abrangidas pela análise nutricional, 172,5 milhões, cerca de um terço, são classificadas pelo estudo como desnutridas por apresentarem baixo peso e/ou baixa estatura para a idade. Destas, 95,6 milhões também vivem em domicílios multidimensionalmente pobres. No conjunto analisado, 175,4 milhões de crianças menores de cinco anos vivem em situação de pobreza multidimensional.
Isso significa que quase uma em cada cinco crianças menores de cinco anos é, simultaneamente, desnutrida e membro de um domicílio multidimensionalmente pobre. Para essas crianças, as duas condições se sobrepõem.
A associação entre nutrição e pobreza aparece também quando se comparam crianças desnutridas e não desnutridas. Segundo o estudo, 55,4% das crianças desnutridas são multidimensionalmente pobres, contra 23,9% das crianças classificadas como bem nutridas segundo os critérios utilizados na pesquisa. Entre as crianças pobres, aquelas que também são desnutridas apresentam ainda maior intensidade de pobreza, isto é, convivem, em média, com um conjunto mais amplo de privações.
As 95,6 milhões de crianças que são simultaneamente pobres e desnutridas acumulam, em conjunto, 434,4 milhões de privações adicionais nos demais indicadores do MPI. Isso representa, em média, quatro ou cinco outras privações para cada criança, envolvendo combinações de condições como água, saneamento, moradia, eletricidade, combustível para cozinhar, escolaridade e ativos.
A composição dessas privações também é reveladora. Entre as crianças pobres, as desvantagens relacionadas a combustível para cozinhar, saneamento e moradia estão entre as que mais contribuem para a pobreza multidimensional, sobretudo na África Subsaariana e nos países de baixa renda. A desnutrição, portanto, aparece inserida em um conjunto mais amplo de privações materiais e educacionais.
Meninos e meninas: a desigualdade muda conforme o indicador
Na nutrição, o padrão global é consistente. Entre as crianças menores de cinco anos analisadas, 34,6% dos meninos estão desnutridos, contra 31,8% das meninas. Em números absolutos, são 93,8 milhões de meninos e 78,7 milhões de meninas.
A diferença não se restringe à média global. Em 53 dos 97 países analisados, a proporção de meninos desnutridos é estatisticamente superior à das meninas. Esses países concentram 64,3% de todas as crianças desnutridas abrangidas pelo estudo. Em nenhum dos 97 países a proporção de meninas desnutridas é significativamente maior que a dos meninos.
Na frequência escolar, entretanto, a configuração é diferente. Globalmente, 13,4% das meninas em idade escolar estão fora da escola, contra 12,7% dos meninos. A diferença global é pequena, mas as experiências nacionais são bastante variadas.
Em 19 países, responsáveis por 55,6% de todas as crianças fora da escola consideradas na análise, a taxa de exclusão escolar é maior entre meninas. Em outros 35 países, que concentram 21,4% desse contingente, os meninos apresentam taxas mais elevadas. Nos 54 países restantes não há diferença estatisticamente significativa entre os sexos. Esses países, contudo, reúnem menos de um quarto das crianças em idade escolar abrangidas pela análise.
Os números mostram que as desigualdades de gênero não se distribuem de maneira uniforme. O padrão observado na nutrição é diferente daquele encontrado na frequência escolar, e a direção da desigualdade educacional varia consideravelmente de um país para outro.
Escola, pobreza e as crianças que continuam na sala de aula
A análise da frequência escolar abrange aproximadamente 1,04 bilhão de crianças em 108 países. Destas, 135,8 milhões estão fora da escola. Cerca de quatro em cada cinco crianças fora da escola, 81,2%, vivem em domicílios multidimensionalmente pobres. Ao todo, 110,2 milhões são simultaneamente pobres e estão fora da escola.
A sobreposição é expressiva, mas o quadro possui outra dimensão importante. Há 183,9 milhões de crianças em idade escolar que vivem em domicílios pobres e, ainda assim, frequentam a escola.
Essa diferença impede que a exclusão escolar seja utilizada como único indicador para dimensionar a pobreza infantil. As escolas também concentram um número elevado de crianças pobres que permanecem matriculadas. Para elas, a presença na escola não elimina as demais privações associadas à pobreza.
O estudo mostra ainda que as crianças fora da escola apresentam níveis de pobreza multidimensional substancialmente superiores aos das crianças que frequentam a escola. A diferença aparece em todas as regiões analisadas. Entre as crianças fora da escola, a dimensão educacional tem peso particularmente elevado na composição da pobreza. Entre as que frequentam a escola, as condições de vida representam a maior contribuição em quase todas as regiões.
A distribuição geográfica também é desigual. Mais da metade das crianças pobres e/ou fora da escola analisadas vive na África Subsaariana, que concentra 52,4% desse contingente. O Sul da Ásia responde por outros 30,7%. Juntas, as duas regiões concentram mais de quatro quintos das crianças que enfrentam pobreza, exclusão escolar ou ambas.
Quando crianças do mesmo lar vivem situações diferentes
Um dos resultados mais importantes do estudo aparece justamente dentro dos domicílios.
Uma em cada cinco crianças menores de cinco anos vive em um domicílio no qual algumas crianças são desnutridas e outras não. Entre as crianças pobres, 36% vivem em domicílios nos quais pelo menos uma criança é desnutrida enquanto outra não apresenta essa desvantagem. Entre as crianças de domicílios não pobres, a proporção é de 12,1%.
A mesma desigualdade aparece na frequência escolar. Uma em cada oito crianças em idade escolar vive em um domicílio no qual algumas crianças frequentam a escola e outras estão fora dela. Entre as crianças pobres, 35,9% vivem nessa situação, contra 3,7% entre as crianças de domicílios não pobres.
O resultado tem uma consequência analítica importante. O fato de duas crianças compartilharem o mesmo domicílio não significa que experimentem as mesmas oportunidades ou desvantagens. Por isso, o estudo adverte contra o uso da situação de uma criança como representação automática da situação de seus irmãos.
A escolaridade dos adultos e a dimensão geracional
A escolaridade dos adultos acrescenta outra camada à análise.
Entre as crianças pobres e desnutridas, 67,3% vivem em domicílios onde nenhuma mulher completou seis anos de escolaridade. A proporção é semelhante quando se considera a ausência de um homem com esse nível de escolaridade. Entre as crianças pobres e desnutridas, 56,6% vivem em domicílios onde nenhum adulto completou seis anos de escolaridade.
Entre as crianças pobres e fora da escola, a desvantagem educacional dos adultos é ainda mais pronunciada. Cerca de 82,1% vivem em domicílios onde nenhuma mulher completou seis anos de escolaridade. Em 62,3% dos casos, nenhum homem alcançou esse nível. Além disso, 46,8% vivem sem nenhum adulto que tenha completado sequer um ano de escolaridade.
Entre as crianças pobres que frequentam a escola, 71,3% vivem sem uma mulher que tenha completado seis anos de escolaridade. A presença da criança na escola, portanto, não elimina as desvantagens educacionais acumuladas no próprio domicílio.
Os números não estabelecem, por si mesmos, uma relação causal entre a escolaridade dos adultos e a situação da criança. Eles mostram, porém, uma associação estreita entre a baixa escolaridade dos adultos e as desvantagens infantis, particularmente quando se observa a educação das mulheres.
O estudo também verifica que essa associação não decorre simplesmente da presença do indicador de anos de escolaridade no próprio MPI. Mesmo retirando esse indicador do cálculo, 86,7% das crianças pobres e desnutridas continuariam classificadas como multidimensionalmente pobres.
As crianças pioneiras
O relatório também identifica um grupo que oferece uma perspectiva diferente sobre as transformações educacionais dentro das famílias.
São as chamadas “crianças pioneiras”, meninos e meninas de 10 a 17 anos que completaram pelo menos seis anos de escolaridade embora nenhum adulto de 18 anos ou mais no domicílio tenha alcançado esse nível.
Entre os 898,7 milhões de crianças de 10 a 17 anos incluídas nessa análise, 71,3 milhões, ou 7,9%, são pioneiras. Cerca de metade vive no Sul da Ásia, onde 35 milhões de crianças pertencem a essa categoria. Na região, uma em cada nove crianças de 10 a 17 anos é pioneira.
A presença dessas crianças altera o perfil educacional de seus próprios domicílios. O estudo estima que 260,3 milhões de pessoas vivem em famílias nas quais nenhum adulto completou seis anos de escolaridade, mas nas quais uma criança já alcançou esse patamar. A mudança educacional pode, portanto, começar entre as gerações mais jovens mesmo quando os adultos permaneceram privados dessa oportunidade.
A relação entre ser uma criança pioneira e a pobreza, contudo, varia segundo o contexto. Globalmente, o MPI médio das crianças pioneiras é 0,082, contra 0,114 para todas as crianças de 10 a 17 anos. A diferença decorre, em parte, da menor intensidade de pobreza entre as pioneiras. Ainda assim, 45% das crianças pioneiras na África Subsaariana são pobres, assim como 16,2% no Sul da Ásia e 16,1% nos Estados Árabes.
O padrão também varia segundo o nível de renda dos países. Nos países de baixa e média-baixa renda, as crianças pioneiras tendem a apresentar menor pobreza multidimensional que o conjunto das crianças de 10 a 17 anos. Nos países de renda média-alta e alta, essa vantagem praticamente desaparece.
O avanço educacional também não alcança necessariamente todos os irmãos. Em 8,6% dos casos, uma criança pioneira vive com outra criança em idade escolar que está fora da escola.
A densidade das privações
Os dados reunidos pelo relatório permitem observar não apenas se uma criança é pobre, desnutrida ou está fora da escola, mas quantas outras privações coexistem com essas condições.
As 95,6 milhões de crianças simultaneamente pobres e desnutridas acumulam 434,4 milhões de privações adicionais nos indicadores do MPI, uma média de quatro ou cinco por criança.
Entre as 110,2 milhões de crianças pobres que estão fora da escola, são registradas 551,7 milhões de privações adicionais nos outros nove indicadores, uma média de cinco por criança.
A diferença entre crianças fora da escola e aquelas que frequentam a escola também aparece na composição do MPI. Entre as primeiras, a dimensão educacional tem o maior peso em todas as regiões. Entre as segundas, as condições de vida representam a maior contribuição na maior parte das regiões.
Há ainda uma situação que poderia passar despercebida numa análise exclusivamente individual. Cerca de 6,6% das crianças que frequentam a escola são pobres e aparecem como privadas no indicador de frequência escolar porque compartilham o domicílio com outra criança que está fora da escola. O dado mostra, mais uma vez, como a situação de uma criança pode estar relacionada à experiência de outra pessoa do mesmo domicílio.
A combinação dos dados permite enxergar a pobreza infantil como um conjunto de privações que se acumulam de maneiras diferentes. Uma criança pode estar na escola e continuar vivendo em condições severas de pobreza. Outra pode não apresentar desvantagem nutricional e compartilhar o domicílio com um irmão que apresenta. A experiência individual e a condição familiar precisam, portanto, ser observadas conjuntamente.
Um estudo para respostas construídas a partir de cada contexto
O relatório evita propor uma receita única para países que apresentam condições institucionais, econômicas e sociais muito diferentes. Os autores ressaltam que os desafios variam entre os contextos e que recomendações globais uniformes podem perder eficácia quando aplicadas sem atenção às circunstâncias locais.
Sua contribuição está também na possibilidade de utilizar os dados nacionais e subnacionais para identificar onde diferentes privações se concentram e quais delas aparecem simultaneamente. Ao cruzar informações individuais sobre nutrição e frequência escolar com a pobreza multidimensional dos domicílios, o estudo oferece elementos para diagnósticos mais precisos e para o desenho de políticas e programas integrados.
Essa perspectiva é especialmente relevante porque as privações não se distribuem de maneira homogênea entre países, regiões ou dentro das próprias famílias. O relatório mostra que meninos e meninas podem enfrentar padrões distintos de desvantagem, que crianças do mesmo domicílio podem ter experiências diferentes e que a melhoria da escolaridade pode começar por uma criança mesmo quando seus irmãos continuam excluídos.
O estudo aproxima, assim, duas escalas que costumam ser examinadas separadamente. A pobreza é identificada no domicílio, mas suas consequências podem ser diferentes para cada criança. Observar as duas dimensões ao mesmo tempo permite localizar desigualdades que as médias familiares tendem a esconder e dimensionar a combinação de privações que acompanha muitas crianças pobres.
Para compreender a pobreza infantil, os dados do MPICD indicam que é preciso manter essas duas perspectivas simultaneamente. O domicílio mostra as condições compartilhadas; a criança revela como elas se distribuem entre seus integrantes. Entre uma escala e outra aparecem diferenças de nutrição, escolarização e oportunidades que uma análise baseada apenas em médias familiares dificilmente conseguiria enxergar.
Baixe aqui o estudo “Multidimensional Poverty and Individual Child Disadvantages in Nutrition and School Attendance: Gendered and Intrahousehold Patterns”
Citação do estudo
OPHI (2026). Multidimensional Poverty and Individual Child Disadvantages in Nutrition and School Attendance: Gendered and Intrahousehold Patterns. Oxford Poverty and Human Development Initiative (OPHI), University of Oxford.
https://ophi.org.uk/publications/MD-Poverty-report-2026
