Blog do IFZ | 29/07/2026
Uma matéria publicada pela revista The Economist, chama atenção para uma dimensão ainda pouco discutida da obesidade: a penalização social e econômica enfrentada pelas pessoas com excesso de peso, especialmente pelas mulheres. Com base em um estudo recente da economista Rebecca Diamond, da Universidade Harvard, a publicação mostra que a perda de peso associada ao uso dos medicamentos GLP-1 pode produzir mudanças expressivas nas oportunidades de trabalho e nos relacionamentos.
O estudo acompanhou, durante 18 meses, mulheres que começaram a utilizar GLP-1 para emagrecimento e comparou seus resultados com os de mulheres de perfil semelhante que desejavam usar esses medicamentos, mas ainda não haviam iniciado o tratamento. Entre as participantes que estavam fora do mercado de trabalho, a taxa de emprego aumentou 27 pontos percentuais após o início do uso e a consequente perda de peso. Entre as mulheres solteiras, a probabilidade de casamento ou de passar a viver com um parceiro cresceu 29 pontos percentuais.
Parte dessa transformação pode estar relacionada à melhora da saúde, da mobilidade e da disposição física. No entanto, os dados sugerem que esse fator não explica tudo. A proporção de mulheres sem emprego que declaravam limitações de saúde para trabalhar caiu apenas 14 pontos percentuais. Também não foram observadas mudanças relevantes nos níveis declarados de satisfação com a vida, solidão ou depressão.
A conclusão mais incômoda é que existe um preconceito persistente contra mulheres com obesidade. A perda de peso não trouxe aumentos salariais ou promoções para quem já estava empregada, mas parece ter facilitado a entrada no mercado de trabalho. Isso sugere que a discriminação atua principalmente nos processos de seleção e contratação, quando a aparência pode influenciar decisões antes mesmo que as competências profissionais sejam devidamente avaliadas.
Os resultados devem ser interpretados com cautela. O estudo analisou somente mulheres nos Estados Unidos e acompanhou seus resultados por um período relativamente curto. Além disso, não se pode apresentar o uso dos GLP-1 como solução para um problema cuja origem é social. Esses medicamentos podem ser instrumentos importantes no tratamento da obesidade, desde que utilizados com acompanhamento médico, mas não deveriam ser uma condição para que alguém tenha acesso a emprego, renda, respeito ou relacionamentos afetivos.
A principal mensagem para as políticas públicas é que a resposta à obesidade não pode se limitar à mudança do peso corporal nem transferir toda a responsabilidade aos indivíduos. É necessário enfrentar os ambientes alimentares que favorecem dietas pouco saudáveis, ampliar o acesso a alimentos adequados e aos serviços de saúde e, ao mesmo tempo, combater a discriminação baseada no peso. A chamada “penalidade da obesidade” mostra que as consequências do problema ultrapassam o campo da saúde: elas também se manifestam nas empresas, nas escolas, nas relações sociais e na distribuição de oportunidades ao longo da vida. Nenhuma pessoa deveria precisar emagrecer para ser reconhecida por suas competências ou para ter acesso a emprego, renda e respeito.
