O El Niño está chegando. Veja onde os riscos para a agricultura são maiores

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Especialistas da FAO mapeiam as áreas em que lavouras e pastagens são mais vulneráveis à seca

FAO | 22 de junho de 2026

Roma – Uma nova fase do El Niño deve começar nas próximas semanas, colocando a agricultura em alerta em diversas regiões do mundo. Novas análises realizadas por especialistas da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) permitem identificar com precisão onde as secas associadas ao fenômeno têm maior probabilidade de afetar lavouras e pastagens.

Diante da previsão da Organização Meteorológica Mundial (OMM) de um episódio mais intenso que o habitual, a FAO recorreu a 41 anos de imagens históricas de satélite de seu Sistema de Índice de Estresse Agrícola (ASIS) para identificar as áreas em que eventos fortes e muito fortes da Oscilação Sul–El Niño (ENSO) costumam provocar as secas mais severas.

Os riscos são mais elevados no Sahel, em toda a África Austral, no Sul e Sudeste Asiático, bem como no Corredor Seco da América Central e no Caribe, onde algumas áreas agrícolas e de pastagem têm mais de 50% de probabilidade de sofrer seca nos próximos meses.

Muitas dessas regiões já sofreram impactos severos durante os eventos de El Niño de 2015–2016 e 2023–2024. Os ciclos do fenômeno tendem a expor vulnerabilidades recorrentes e provocar quebras de safra, perdas de rebanhos, aumento do endividamento das famílias e deslocamentos em busca de alimentos e água. Apenas entre 2015 e 2016, mais de 60 milhões de pessoas foram afetadas, levando ao lançamento de apelos humanitários que mobilizaram US$ 5 bilhões em 23 países.

Os riscos agora tendem a se ampliar, à medida que eventos climáticos extremos se combinam cada vez mais com conflitos e pressões econômicas. “Este não é um El Niño como os anteriores. O planeta está muito mais quente hoje e, com a disseminação dos conflitos e da insegurança alimentar, essa nova fase atingirá com mais intensidade locais que já são vulneráveis e dispõem de capacidade limitada de enfrentamento”, afirma Jorge Alvar-Beltrán, oficial de Recursos Naturais da FAO.

O mapa elaborado pela organização destaca áreas prioritárias para ações antecipadas, antes que as previsões se transformem em perdas concretas. Em resposta à crescente ameaça, a FAO e o Programa Mundial de Alimentos (PMA) lançaram um apelo conjunto para mobilizar US$ 202 milhões destinados à proteção de 8,8 milhões de pessoas em 22 países de alto risco diante dos potenciais impactos de um forte episódio de El Niño. A iniciativa busca ampliar intervenções precoces, incluindo apoio a agricultores e pastores, assistência financeira antecipada e reforço dos sistemas de alerta precoce, antes que secas, enchentes e tempestades evoluam para emergências humanitárias.

Onde a exposição é maior

O risco raramente está associado apenas à falta de chuvas. Uma seca moderada pode ser devastadora em regiões que já enfrentam conflitos e fome crônica, onde a produção agrícola depende inteiramente da chuva, o gado concentra grande parte da riqueza das famílias e há pouca margem para recuperação. Estima-se que mais de 80% dos impactos da seca sobre a agricultura ocorram em países de baixa e média renda.

“Um agricultor pode perder primeiro a colheita, depois o rebanho e, com isso, todo o seu meio de subsistência”, afirma Alvar-Beltrán. “Com os efeitos em cascata de múltiplas crises já visíveis, existe uma necessidade urgente de agir antecipadamente.”

Em todo o Sahel, a insegurança alimentar se agravou durante cinco anos consecutivos, enquanto os conflitos continuam deslocando populações e restringindo o acesso às comunidades mais vulneráveis. Os mapas apontam para uma extensa faixa de seca agrícola que se estende do Senegal e do sul da Mauritânia, passando por Costa do Marfim, Gana, Togo, Benim e Nigéria, até alcançar a Etiópia e o Sudão.

Na África Austral, os sinais são ainda mais evidentes. O episódio mais recente do El Niño provocou a pior seca registrada na região em mais de um século, deixando 61 milhões de pessoas necessitando de assistência, pressionando rebanhos, sistemas de abastecimento de água e pastagens, e levando mais de 8 milhões de pessoas à insegurança alimentar.

As projeções da FAO indicam probabilidade superior a 50% de seca agrícola em amplas áreas da Namíbia e de Botsuana, estendendo-se também a Angola, Zâmbia, Zimbábue, África do Sul e partes de Moçambique e Madagascar. Em uma região onde a pecuária sustenta tanto a segurança alimentar quanto o patrimônio das famílias, a perda de pastagens rapidamente se converte em perda de ativos.

Na América Central e no Caribe, os riscos de seca podem rapidamente se transformar em fome. O El Niño de 2015–2016 deixou 3,5 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar no Corredor Seco centro-americano. No Haiti, as colheitas sofreram perdas de até 70%, fazendo com que a insegurança alimentar dobrasse em poucos meses.

As previsões atuais apontam para 70% de probabilidade de chuvas abaixo da média em toda a região. O risco de seca agrícola é mais elevado ao longo do Corredor Seco, na Colômbia e na Venezuela, bem como em Cuba, República Dominicana e Haiti.

Na Ásia, os riscos alcançam mercados agrícolas estratégicos para o abastecimento mundial. O El Niño pode enfraquecer a monção de verão em grande parte da Índia, colocando culturas de sequeiro, como arroz e milho, sob pressão durante uma etapa decisiva da estação de cultivo. Em 2015, a produção desses grãos caiu em importantes países produtores, contribuindo para a alta dos preços de alimentos básicos.

Desta vez, o risco de seca agrícola se estende do Paquistão e da Índia até Mianmar, Tailândia, Camboja e Vietnã, avançando ainda para as Filipinas, Indonésia e Timor-Leste.

Diversos países apontados como altamente expostos aos impactos do El Niño também figuram entre os principais focos de preocupação na mais recente análise dos Pontos Críticos da Fome, elaborada pela FAO e pelo PMA. Isso evidencia como os choques climáticos interagem cada vez mais com conflitos e dificuldades econômicas, agravando a insegurança alimentar aguda.

Um mapa para a ação

Quando os riscos são identificados com antecedência e em escala local, agricultores e criadores de gado podem tomar decisões importantes sobre plantio e manejo dos rebanhos antes que a estação agrícola esteja plenamente em curso: adiar o plantio, optar por variedades mais resistentes à seca, armazenar forragem e garantir reservas adicionais de água antes do agravamento da escassez.

A análise da FAO permite delimitar a avaliação de risco, em algumas áreas, a uma escala de apenas um quilômetro quadrado. Mas transformar precisão em proteção exige conectar serviços meteorológicos e hidrológicos nacionais, ministérios da agricultura e redes de assistência técnica, para que os alertas cheguem aos produtores em tempo hábil.

“Esse nível de detalhamento muda a forma como os governos podem agir”, afirma Riccardo Soldan, oficial de Recursos Naturais da FAO. “Em vez de dispersar recursos, é possível concentrar o apoio nas áreas críticas, direcionando transferências de renda, apoio à água e à irrigação, alimentação animal e outros insumos essenciais para os locais mais expostos ao risco.”

Já existem evidências de que agir antes que as perdas se consolidem produz resultados. Na África Austral, antes do El Niño de 2023–2024, uma iniciativa regional realizada antes da estação agrícola mobilizou quase US$ 31 milhões para apoiar mais de dois milhões de pessoas em sete países, fornecendo sementes, apoio à pecuária e previsões mais precisas por meio de sistemas de alerta precoce.

Na América Central, a distribuição oportuna de sementes resistentes à seca e de ciclo curto ajudou famílias rurais a manter a produção de hortaliças, melhorando a disponibilidade de alimentos para as famílias e reduzindo a necessidade de recorrer a estratégias prejudiciais de sobrevivência, como vender bens ou deixar de fazer refeições.

A análise da FAO pode ajudar governos e parceiros a definir prioridades, identificar os apoios mais urgentes e localizar as comunidades menos preparadas para enfrentar mais uma safra perdida.

O El Niño está se formando e os mapas são claros. O que acontecerá a seguir dependerá da rapidez com que as decisões forem tomadas.

Publicado originalmente pela FAO
https://www.fao.org/newsroom/detail/el-ni%F1o-is-coming.-here-is-where-the-risks-to-agriculture-are-highest/en