Blog do IFZ | 23/06/2026
A transformação dos sistemas alimentares começa a ganhar espaço nas estratégias climáticas nacionais, mas ainda está longe de ocupar o lugar central que a crise climática exige. Essa é a principal conclusão do relatório “NDCs para o Futuro da Alimentação – Uma avaliação das Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs 3.0) para a transformação da agricultura e dos sistemas alimentares” (FOOD FORWARD NDCs – An assessment of Nationally Determined Contributions (NDCs 3.0) for agriculture and food systems transformation), publicado pelas ONGs WWF, Climate Focus, FAIRR e GAIN, que analisou a nova geração de Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs 3.0) apresentadas pelos países no âmbito do Acordo de Paris.
Lançado na Semana Climática de Londres, que tem lugar essa semana, o estudo avaliou 116 NDCs atualizadas e constatou que 97% delas já incluem alguma medida relacionada aos sistemas agroalimentares, um avanço em relação aos 93% observados na rodada anterior. A constatação reforça o reconhecimento crescente de que a agricultura, a alimentação e o uso da terra são elementos centrais tanto para a mitigação das mudanças climáticas quanto para a adaptação aos seus impactos.
O relatório foi publicado em um contexto particularmente sensível. Os autores destacam que os sistemas alimentares globais estão cada vez mais expostos a choques em cascata, como conflitos geopolíticos, eventos climáticos extremos e interrupções nas cadeias de suprimento. A crise provocada pelo fechamento do Estreito de Ormuz em 2026 e as preocupações com um novo episódio de El Niño são citadas como exemplos da vulnerabilidade crescente dos sistemas alimentares mundiais.
Entre os avanços observados, destaca-se a ampliação das referências à produção sustentável, à saúde dos solos, à pecuária sustentável, à aquicultura e à agricultura climaticamente inteligente. Também cresceu significativamente a atenção dedicada à redução das perdas pós-colheita e ao fortalecimento das cadeias de abastecimento.
No entanto, o estudo alerta para uma importante contradição. Embora a maioria dos países reconheça a importância da produção sustentável, poucas NDCs abordam o outro lado da equação: o consumo. Apenas 26% dos planos climáticos incluem medidas relacionadas a dietas saudáveis e sustentáveis, enquanto somente 20% fazem referência explícita à nutrição. Nenhuma das NDCs analisadas propõe mudanças na participação de proteínas animais nas dietas nacionais.
Outro destaque positivo é a maior preocupação com a inclusão social. Cerca de 73% das NDCs mencionam povos indígenas e comunidades locais, enquanto 57% fazem referência aos pequenos produtores rurais. Ainda assim, os autores observam que, na maioria dos casos, esses grupos aparecem apenas como beneficiários das políticas, sem mecanismos concretos de participação, governança ou financiamento específico.
O relatório conclui que enfrentar a crise climática exigirá uma abordagem verdadeiramente sistêmica. Não basta produzir alimentos de forma mais sustentável. Será necessário integrar produção, distribuição, consumo, nutrição, biodiversidade e inclusão social em uma mesma estratégia de transformação.
Para os autores, a próxima etapa passa por ampliar o financiamento climático para os sistemas agroalimentares, fortalecer cadeias alimentares locais e regionais, reduzir perdas e desperdícios, promover dietas mais saudáveis e garantir que agricultores familiares, povos indígenas, mulheres e jovens participem efetivamente das decisões sobre o futuro da alimentação e do clima.
Principais mensagens do relatório
- 97% das NDCs 3.0 já incluem medidas relacionadas aos sistemas agroalimentares.
- A produção sustentável continua sendo o principal foco das políticas climáticas para alimentação.
- Dietas saudáveis, nutrição e mudanças no consumo seguem amplamente negligenciadas.
- Apenas 28% das NDCs incluem ações explícitas para reduzir perdas e desperdício de alimentos.
- 73% das NDCs mencionam povos indígenas e comunidades locais, mas poucas definem mecanismos concretos de participação.
- Choques geopolíticos, crises energéticas e eventos climáticos extremos reforçam a necessidade de sistemas alimentares mais resilientes.
- Os autores defendem uma abordagem integrada que conecte clima, biodiversidade, segurança alimentar, nutrição e inclusão social.
- Mais financiamento climático e maior apoio aos agricultores familiares serão essenciais para a transformação dos sistemas alimentares.
Baixe aqui o relatório “FOOD FORWARD NDCs – An assessment of Nationally Determined Contributions (NDCs 3.0) for agriculture and food systems transformation“
Relatório desenvolvido e divulgado pela Climate Focus
https://climatefocus.com/publications/foodforwardndcs2026/
