Blog do IFZ | 26/06/2026
Neste 26 de junho de 2026, completam-se 15 anos da eleição de José Graziano da Silva para o cargo de Diretor-Geral da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO). Em uma disputa histórica e extremamente apertada, o brasileiro derrotou o ex-ministro das Relações Exteriores da Espanha, Miguel Ángel Moratinos, por uma diferença de apenas 4 votos — 92 votos a 88, tornando-se o primeiro brasileiro e o primeiro latino-americano a dirigir a principal agência das Nações Unidas dedicada à agricultura e à segurança alimentar.
A data ganha um significado ainda maior porque, daqui a apenas um ano, em 2027, os países-membros da FAO voltarão a escolher quem comandará a organização pelos anos seguintes. O momento convida não apenas à lembrança daquela eleição histórica de 2011, mas também à reflexão sobre o legado político que ela deixou para a FAO e para o debate internacional sobre fome, agricultura e desenvolvimento rural.
A vitória de um brasileiro não foi um acontecimento isolado. Ela foi resultado de uma longa construção diplomática, política e técnica que começou ainda no final do segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O anúncio da candidatura brasileira ocorreu em 2010, mas a campanha internacional foi conduzida principalmente nos primeiros meses do governo da presidenta Dilma Rousseff, sob a liderança do então ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, e operada pelo embaixador Ruy Pereira, hoje diretor da Agência Brasileira de Cooperação (ABC).

Hoje parece natural imaginar um brasileiro disputando e vencendo uma eleição para dirigir uma grande organização internacional. Mas, naquele momento, o cenário era bastante diferente. O Brasil possuía crescente influência internacional, impulsionada pelo dinamismo econômico e pela projeção diplomática dos anos 2000, porém ainda tinha pouca tradição de eleger representantes para os mais altos cargos do sistema das Nações Unidas. A candidatura de Graziano representava, portanto, uma aposta ambiciosa da diplomacia brasileira.
A construção dessa candidatura começou muito antes da votação em Roma. Como representante regional da FAO para a América Latina e o Caribe desde 2006, Graziano já havia acumulado uma extensa rede de contatos políticos na região e projetado iniciativas que ganharam destaque internacional, como a Iniciativa América Latina e Caribe sem Fome 2025 e o fortalecimento das Frentes Parlamentares contra a Fome. Ao mesmo tempo, sua experiência à frente do programa Fome Zero no Brasil lhe conferia uma credencial única em um momento em que o mundo voltava a discutir os impactos da crise alimentar de 2007-2008.
Nesse sentido, um dos movimentos diplomáticos mais importantes ocorreu no espaço da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). O apoio antecipado dos países lusófonos à candidatura brasileira, especialmente o respaldo de Portugal, teve um significado que ia muito além dos votos diretamente envolvidos. Na prática, sinalizou desde cedo que não existiria um consenso europeu em torno de uma candidatura única para suceder a Jacques Diouf. Posteriormente, a Europa acabaria dividida entre diferentes opções, abrindo espaço para que uma candidatura oriunda do Sul Global pudesse construir uma maioria competitiva.
Outro aspecto pouco lembrado hoje foi o enorme esforço de mobilização realizado fora de Roma. Embora a eleição ocorra na Conferência da FAO, a conquista dos votos foi construída principalmente nas capitais nacionais, nas missões diplomáticas junto às Nações Unidas em Nova York e Genebra e junto aos países que sequer mantinham representação permanente na FAO. Para esses governos, muitas vezes ausentes das negociações cotidianas em Roma, foi necessário um trabalho específico de convencimento.
Nesse processo, a coordenação entre o Itamaraty, as embaixadas brasileiras e a equipe da candidatura foi decisiva. Houve um intenso trabalho de aproximação com países africanos, latino-americanos, caribenhos e asiáticos, além de uma articulação importante junto ao G77. O próprio resultado final demonstrou o peso dessa estratégia. Em seu discurso após a vitória, Graziano agradeceu explicitamente aos países de língua portuguesa, aos países da América Latina, do Caribe, da África e ao G77 pelo apoio recebido.
A eleição também ocorreu em um momento de transição institucional da própria FAO. O senegalês Jacques Diouf encerrava um ciclo de 18 anos à frente da organização, sucedendo outro diretor-geral de longa permanência, o libanês Edouard Saouma. Após quase três décadas marcadas por apenas dois dirigentes, os países-membros haviam decidido reformar as regras e limitar os mandatos futuros.

Essa reforma produziu uma situação curiosa. Embora pudesse ser reeleito uma vez, Graziano jamais teria os mesmos dez ou dezoito anos de seus predecessores para implementar mudanças. Seu primeiro mandato começou apenas em 1º de janeiro de 2012, após um longo período de transição de seis meses entre a eleição e a posse. Com o novo calendário institucional da organização, mesmo em caso de reeleição — que de fato ocorreria em 2015 —, o tempo total disponível seria de apenas sete anos e meio.
Mas talvez o elemento mais importante daquela campanha tenha sido a mensagem política que ela carregava.
De acordo com suas ideias de campanha, a FAO precisava recolocar o combate à fome como eixo central de sua atuação. Em vez de tratar a fome apenas como uma consequência indireta do crescimento econômico ou do aumento da produção agrícola, Graziano defendia que sua erradicação deveria ser assumida como objetivo explícito e prioritário da organização.
Ao lado desse compromisso aparecia uma segunda bandeira central: o fortalecimento da agricultura familiar. A experiência brasileira mostrava que a produção de alimentos, a redução da pobreza rural e a segurança alimentar podiam avançar simultaneamente quando políticas públicas adequadas eram direcionadas aos pequenos produtores. Não por acaso, temas como inclusão produtiva, desenvolvimento rural, proteção social e fortalecimento da agricultura familiar passaram a ganhar espaço crescente na agenda internacional ao longo dos anos seguintes.
A plataforma apresentada defendia uma visão integrada das políticas de combate à fome, inspirada na experiência brasileira do Fome Zero. Argumentava que a erradicação da fome exigia a combinação simultânea de crescimento econômico, geração de empregos, proteção social, acesso à alimentação adequada e fortalecimento das capacidades produtivas dos mais pobres.
E enfatizava que a fome não poderia ser enfrentada apenas por meio de programas emergenciais ou pelo aumento da produção agrícola. Era necessário promover sistemas alimentares mais inclusivos, capazes de garantir renda, oportunidades e acesso efetivo aos alimentos para as populações mais vulneráveis. Nesse sentido, Graziano defendia uma atuação mais próxima da FAO com governos nacionais, parlamentos, organizações da sociedade civil e organismos internacionais, fortalecendo a cooperação Sul-Sul e a troca de experiências bem-sucedidas entre países em desenvolvimento.
Outro eixo importante de sua agenda era a defesa de uma FAO mais aberta, descentralizada e orientada para resultados concretos. O programa distribuído aos países-membros destacava a necessidade de fortalecer a presença da organização nos escritórios regionais e nacionais, aproximando suas ações das realidades locais.
Também propunha ampliar a participação da sociedade civil na formulação de políticas públicas, promover a igualdade de gênero no meio rural e garantir que mulheres agricultoras tivessem maior acesso a recursos produtivos, crédito e assistência técnica. Em uma passagem particularmente emblemática, Graziano afirmou que o mundo já possuía conhecimento, tecnologia e recursos suficientes para acabar com a fome e a pobreza extrema, desde que houvesse vontade política para transformar esse objetivo em prioridade.
Essa mensagem ajudou a diferenciar sua candidatura e contribuiu para consolidar a percepção de que a FAO deveria voltar a ser uma organização mobilizadora de uma causa global: a construção de um mundo livre da fome.
Quinze anos depois, é possível afirmar que aquela eleição marcou mais do que a escolha de um novo dirigente. Ela simbolizou a entrada definitiva do combate à fome no centro do debate global sobre desenvolvimento sustentável. E contribuiu para consolidar a visão de que a fome não era um problema inevitável nem exclusivamente agrícola, mas uma questão política, econômica e social que exigia compromisso dos governos e cooperação internacional.
À medida que a organização se prepara para uma nova sucessão em 2027, a pergunta que se impõe é tão atual quanto em 2011: qual deve ser a principal missão da FAO em um mundo marcado por conflitos, mudanças climáticas, desigualdades persistentes e crescente insegurança alimentar?
A resposta que emergiu daquela eleição de junho de 2011 continua relevante. A produção de alimentos permanece essencial, mas a verdadeira medida do sucesso de um sistema alimentar continua sendo a mesma defendida por José Graziano da Silva há quinze anos: garantir que ninguém passe fome. Afinal, enquanto houver pessoas privadas do direito humano à alimentação adequada, a luta contra a fome seguirá sendo a tarefa mais importante da FAO.























