O pão como medida de justiça

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Blog do IFZ | 04/08/2026

A segurança alimentar ocupa um lugar singular entre os grandes desafios do século XXI. Nela convergem questões ligadas à produção de alimentos, à preservação dos ecossistemas, às desigualdades sociais, aos conflitos armados e à própria dignidade da pessoa humana. É sob essa perspectiva abrangente que Fernando Chica Arellano desenvolve El pan de la tierra, el pan del hombre: seguridad alimentaria y ecología integral, estudo nascido de uma conferência apresentada na Pontifícia Universidade Gregoriana e posteriormente publicado na revista Toletana.

Observador Permanente da Santa Sé junto à Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), ao Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA) e ao Programa Mundial de Alimentos (PMA), o autor reúne sua experiência diplomática e a tradição da Doutrina Social da Igreja para examinar uma questão cuja complexidade ultrapassa o âmbito da agricultura e alcança o próprio sentido do desenvolvimento humano.

O percurso inicia-se pela definição de segurança alimentar consolidada pela FAO na Cúpula Mundial da Alimentação de 1996. Chica Arellano recorda que ela depende da garantia permanente de acesso a alimentos suficientes, seguros e nutritivos e mostra como esse conceito passou a incorporar, além de seus pilares tradicionais, duas exigências hoje inseparáveis: a sustentabilidade dos sistemas alimentares e a participação das comunidades nas decisões relativas à produção e ao consumo de seus alimentos.

Essa ampliação conduz ao núcleo do estudo. Inspirado pela encíclica Laudato si’, do Papa Francisco, publicada em 2015, o autor compreende a ecologia integral como um horizonte ético e epistemológico que busca superar leituras fragmentadas da realidade, articulando dimensões ambientais, sociais, econômicas e humanas em uma perspectiva integrada. A degradação ambiental, a pobreza, a perda da biodiversidade, a insegurança alimentar e a exclusão social pertencem a uma mesma realidade e somente podem ser enfrentadas por meio de respostas igualmente integradas. Produzir alimentos, proteger a criação e promover a justiça social deixam, assim, de constituir objetivos paralelos para expressar uma única responsabilidade.

O artigo mostra que essa compreensão resulta de um longo amadurecimento da Doutrina Social da Igreja. Dos primeiros alertas de São Paulo VI sobre os limites de um desenvolvimento desprovido de responsabilidade ambiental, passando pela reafirmação, em São João Paulo II, do destino universal dos bens da criação e pelo aprofundamento oferecido por Bento XVI acerca do desenvolvimento humano integral, chega-se à formulação proposta por Francisco, na qual as dimensões ambiental, social, econômica e espiritual aparecem como aspectos inseparáveis de uma mesma crise. Nesse percurso, ganha relevo a crítica à cultura do descarte, expressão que denuncia não apenas o desperdício de recursos e alimentos, mas também a tendência de relegar pessoas e comunidades inteiras à margem da vida econômica e social.

Chica Arellano incorpora ainda as intervenções recentes do papa Leão XIV, especialmente sua condenação ao uso da fome como instrumento de guerra. Em conflitos marcados pela destruição deliberada de sistemas agrícolas, reservas de alimentos e corredores humanitários, impedir o acesso de populações civis aos meios de subsistência representa uma grave violação da dignidade humana e do direito à vida.

A partir desse quadro, o autor examina os fatores que hoje comprometem a segurança alimentar em escala global. Mudanças climáticas, degradação dos solos, escassez de água, perda da biodiversidade, guerras, crises econômicas e desperdício de alimentos formam um conjunto de causas interdependentes que agrava a vulnerabilidade das populações mais pobres. O estudo afasta explicações simplificadoras e insiste na necessidade de respostas igualmente abrangentes, capazes de articular conhecimento científico, políticas públicas, cooperação internacional e responsabilidade ética.

Essa responsabilidade possui também uma dimensão cultural. Para Chica Arellano, nenhuma transformação duradoura poderá ocorrer sem uma formação que ajude a reconhecer a interdependência entre o cuidado da criação e a promoção da dignidade humana. A segurança alimentar deixa, então, de ser apenas um objetivo das políticas agrícolas para tornar-se expressão de uma concepção de desenvolvimento que integra justiça social, preservação ambiental e solidariedade entre os povos.

Escrito com clareza, rigor e equilíbrio, El pan de la tierra, el pan del hombre oferece uma reflexão de grande atualidade sobre um dos temas centrais da agenda internacional. Ao aproximar ciência, ética e Doutrina Social da Igreja, Fernando Chica Arellano demonstra que alimentar a humanidade e cuidar da casa comum pertencem à mesma responsabilidade. É justamente nessa convergência que a segurança alimentar revela toda a sua profundidade como expressão concreta de justiça e de respeito pela dignidade de cada pessoa.

Baixe aqui o documento “El pan de la tierra, el pan del hombre: seguridad alimentaria y ecología integral

Citação do artigo
Fernando Chica Arellano, El pan de la tierra, el pan del hombre: seguridad alimentaria y ecología integral, Toletana 52 (2025/1), pp. 231–258.