O ressurgimento de tigres selvagens, atuns e tartarugas marinhas mostra que é possível reverter o declínio da natureza, dizem cientistas

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Relatório histórico revela que o mundo precisa mudar a forma como produz alimentos para evitar um colapso da biodiversidade.

Matthew Pearce | The Guardian | 8 de outubro de 2026

O ressurgimento, graças aos esforços de conservação, de tigres selvagens, atuns e tartarugas-verdes mostra que é possível reverter o declínio da natureza em escala global, afirmam cientistas. Mas um relatório alerta que a produção de alimentos precisa ser o próximo “ponto de inflexão positivo” se o mundo quiser evitar um colapso da biodiversidade.

O Fundo Mundial para a Natureza (WWF) analisou quase 36 mil populações de animais e mais de 5 mil espécies, reunindo o maior banco de dados já produzido sobre a fauna de vertebrados. Os cientistas constataram que as populações diminuíram, em média, 73% desde 1970, mostrando que “a natureza continua sendo degradada em uma escala alarmante”, sem “nenhum sinal de que as perdas estejam diminuindo”.

O declínio da natureza já não é apenas um desafio ambiental, mas uma ameaça direta à economia global, afirma o relatório. Cerca de metade do PIB mundial — aproximadamente US$ 58 trilhões (£44 trilhões) em 2023 — depende da natureza e de seus serviços ecossistêmicos. Os autores afirmam que o colapso das espécies representa agora uma “ameaça existencial à estabilidade econômica, à segurança geopolítica e ao bem-estar humano”.

As populações de animais estavam diminuindo de forma mais acentuada nas regiões tropicais, ricas em biodiversidade, enquanto as tendências nas regiões temperadas do norte do mundo pareciam muito mais moderadas.

Na América Latina e no Caribe, as populações de animais terrestres e de água doce diminuíram, em média, 95% entre 1970 e 2022. As quedas correspondentes foram de 80% na África e de 23% na Europa e na Ásia Central.

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Os animais de água doce sofreram as perdas mais acentuadas entre os ecossistemas do mundo. As populações monitoradas em rios e lagos diminuíram, em média, 85%, ante 69% para as espécies terrestres e 59% para as espécies marinhas.

Tanya Steele, diretora-executiva do WWF no Reino Unido, afirmou: “O declínio da natureza não é apenas uma crise para a vida selvagem. Ele já está nos cobrando essa conta, por meio de riscos crescentes para nossa segurança alimentar, nosso abastecimento de água, nossa economia e nossa capacidade de resistir aos impactos das mudanças climáticas.

“Estamos diante de uma encruzilhada: ou continuamos pagando o preço crescente do declínio da natureza, ou investimos na recuperação da natureza e em um futuro no qual pessoas e vida selvagem possam prosperar juntas.”

Mas, apesar do quadro de declínio global da biodiversidade, tigres selvagens, tartarugas-verdes e atuns-azuis estão se recuperando, segundo o relatório, mostrando que “ainda é possível reverter o declínio global da natureza quando medidas são tomadas”.

Em 2010, restavam cerca de 3.200 tigres selvagens em todo o mundo, e a espécie caminhava para a extinção. Depois de intervenções de conservação contínuas e direcionadas, a população cresceu para aproximadamente 5.700 animais, um aumento de mais de 70%.

Becci May, responsável pelo programa de tigres do WWF no Reino Unido, afirmou que o notável ressurgimento dos tigres selvagens demonstrou a “ciência da esperança” e provou que, quando são adotadas medidas climáticas e ecológicas, a mudança é possível.

O relatório afirma que as populações de atum-azul do Atlântico e do Pacífico, que estavam entrando em colapso após décadas de pesca excessiva, já se recuperaram a ponto de nenhuma das duas ser considerada ameaçada.

No ano passado, a tartaruga-verde tornou-se a primeira tartaruga marinha a ser reclassificada de “em perigo” para “pouco preocupante” na Lista Vermelha da IUCN, refletindo 50 anos de trabalho coordenado de conservação em cerca de 80 países.

O Dr. Mike Barrett, consultor científico-chefe do WWF no Reino Unido e coautor do relatório, afirmou: “Esses exemplos mostram que a natureza pode se recuperar mesmo quando levada ao limite, e nos servem de inspiração. Também está muito claro que a conservação, por si só, não é capaz de enfrentar a dimensão das ameaças que a natureza enfrenta.”

Segundo ele, a natureza não teria nenhuma possibilidade de recuperação se fossem ultrapassados os “pontos de inflexão negativos” — mudanças ecológicas autorreforçadoras e irreversíveis que aceleram a crise climática.

“Os sistemas que impulsionam o declínio da natureza precisam ser transformados. E isso significa energia, alimentação e finanças”, afirmou.

“Nosso relatório mostra que já ultrapassamos o ponto de inflexão no setor de energia, com a adoção da energia renovável. Essa transição agora é imparável. Não está acontecendo com a velocidade necessária, mas é imparável.”

A humanidade também precisa adaptar a forma como produz alimentos, afirmou. “A agricultura é a maior causa isolada de perda e degradação de habitats e, portanto, de perda de biodiversidade. Também é uma importante fonte de emissões de gases de efeito estufa e, portanto, contribui para impulsionar as mudanças climáticas. Temos, assim, esse ciclo de retroalimentação.”

O Dr. Steve Smith, pesquisador da Universidade de Exeter e coautor do relatório, afirmou: “O maior ganho para a recuperação da natureza seria um sistema alimentar sustentável e saudável, mas atualmente esse é o setor que está mais distante de alcançar um ponto de inflexão positivo. A expansão agrícola, por exemplo, é responsável por quase 90% do desmatamento em todo o mundo.”

Pontos de inflexão positivos são limiares a partir dos quais uma tecnologia ou prática sustentável se torna progressivamente mais barata, disseminada ou politicamente popular, permitindo que o avanço passe a se sustentar por si próprio.

Publicado originalmente no The Guardian
https://www.theguardian.com/environment/2026/oct/08/world-must-change-food-avoid-biodiversity-collapse-wwf