Produzir e conservar: os caminhos amazônicos apontados pela FAO

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Blog do IFZ | 27/08/2026

A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) publicou um estudo que reúne dados comparáveis entre os países que compartilham a Amazônia. Assinado por María Ignacia Hadad, Pablo Faret e Luiz Beduschi, o relatório Producir y conservar: las contribuciones de los agricultores familiares y los Pueblos Indígenas en la Amazonia parte de uma constatação que orienta toda a análise: na Amazônia, produzir e conservar não devem ser entendidos como objetivos contrapostos.

A ideia central do documento é sustentada por dados oficiais e análises sobre território, cobertura florestal, sistemas agroalimentares e condições sociais de oito países amazônicos. O estudo identifica, nas práticas desenvolvidas pelos habitantes da região, contribuições relevantes para enfrentar problemas de desmatamento, degradação ambiental, insegurança alimentar e pobreza rural. Entre elas estão a agricultura familiar, camponesa e indígena, o manejo sustentável do bosque, os conhecimentos tradicionais e a valorização dos produtos da sociobiodiversidade.

Um território habitado, não uma reserva vazia

O prólogo do relatório, assinado por Rene Orellana Halkyer, Subdiretor-Geral e Representante Regional da FAO para a América Latina e o Caribe, estabelece uma das ideias centrais da publicação. A Amazônia não é apenas um território de enorme riqueza biológica, hídrica e climática. É também um espaço habitado, cuidado e transformado diariamente por milhões de pessoas, entre Povos Indígenas, comunidades afrodescendentes, agricultores familiares, mulheres, jovens rurais e comunidades tradicionais. São populações cujos modos de vida estão estreitamente ligados ao bosque, aos rios, à biodiversidade e aos sistemas agroalimentares locais.

Essa perspectiva coloca as populações amazônicas no centro das estratégias de desenvolvimento. O relatório reconhece que a permanência dessas comunidades e a continuidade de seus conhecimentos e práticas têm papel relevante na conservação de extensas áreas de floresta. Ao mesmo tempo, ressalta que esse potencial depende de políticas públicas coerentes, investimentos, financiamento adequado, infraestrutura pertinente e serviços técnicos adaptados às condições sociais, culturais e ecológicas da região.

O diagnóstico ganha dimensão concreta quando observado à luz das transformações da paisagem. Entre 1985 e 2023, 13% da superfície original de floresta natural da Amazônia foi transformada para outros usos. A agricultura e a silvicultura responderam por 93% dessa transição, envolvendo mais de 88 milhões de hectares. Cerca de três quartos dessa área correspondem à expansão de pastagens, enquanto 16% estão associados à agricultura. No período, a área agropecuária e florestal quase triplicou, passando de 43 milhões para mais de 135 milhões de hectares.

O relatório mostra também que as taxas de desmatamento variaram de acordo com ciclos econômicos e produtivos e com as políticas públicas adotadas pelos países amazônicos. No Brasil, a redução observada entre 2004 e 2012 esteve associada a uma combinação de medidas que incluiu o fortalecimento da fiscalização e do monitoramento, a criação de áreas protegidas, restrições de crédito para desmatadores e acordos com o setor privado. A partir de 2013, o enfraquecimento das instituições ambientais, a redução da fiscalização e a especulação fundiária contribuíram para uma nova elevação do desmatamento.

Os achados que sustentam o relatório

O estudo concentra o resultado colhido a partir da investigação em campo – os achados – em 7 pontos.

O primeiro situa a Amazônia em uma escala que ultrapassa seus próprios limites territoriais. A região é fundamental para os ecossistemas da América Latina e do Caribe, para a segurança alimentar e nutricional, para a estabilidade climática global e para o bem-estar e a resiliência de seus habitantes. Ao mesmo tempo, enfrenta pressões crescentes associadas ao desmatamento, à mudança de uso do solo e às alterações climáticas.

O segundo diz respeito às transformações sociais e territoriais das últimas décadas. O aumento da conectividade, a expansão das atividades econômicas e a consolidação de assentamentos urbanos ampliaram o acesso a mercados e tecnologias, mas essas mudanças não necessariamente se converteram em maiores níveis de bem-estar humano e sustentabilidade ambiental. O relatório, por isso, questiona a sustentabilidade social da atual trajetória de desenvolvimento.

O terceiro coloca os habitantes da própria Amazônia entre os principais atores das respostas ao desafio de produzir e conservar. Os Povos Indígenas estão presentes em quase todo o território amazônico, enquanto a população afrodescendente concentra-se principalmente no Brasil. O relatório destaca o papel de ambos na gestão ambiental e produtiva da região. Territórios Indígenas, em conjunto com áreas protegidas, cobrem cerca de 50% da superfície e concentram aproximadamente 58% das reservas de carbono da sub-região. Entre 2003 e 2016, os territórios Indígenas capturaram aproximadamente 90% das emissões de carbono derivadas do desmatamento e da degradação florestal ocorridas dentro de seus próprios limites, o que resultou em emissões líquidas praticamente nulas.

O quarto evidencia a dimensão econômica, social e cultural da agricultura familiar, camponesa e indígena. Em média, a agricultura familiar representa 85,4% das explorações agropecuárias nas municipalidades amazônicas. O relatório destaca que esses atores mobilizam conhecimentos e práticas tradicionais, desenvolvem sistemas produtivos diversificados, participam do manejo integrado da paisagem, combinam diferentes atividades econômicas e mantêm vínculos crescentes com os mercados urbanos. Apesar disso, enfrentam brechas importantes no acesso à assistência técnica e ao financiamento.

O quinto projeta essa centralidade para as cadeias da sociobiodiversidade. Açaí, cacau, cupuaçu, buriti e castanha do pará são apresentados como produtos com potencial ecológico e econômico para fortalecer a agricultura familiar, camponesa e indígena. Essas cadeias integram manejo, produção, transformação, comercialização e consumo com identidade cultural e equidade na distribuição dos benefícios.

Os dois últimos pontos completam o diagnóstico com uma proposta de mudança na trajetória de desenvolvimento. O relatório defende uma estratégia sustentável, inclusiva e resiliente, baseada na articulação entre conservação e bem-estar. Para isso, recomenda reorientar políticas e investimentos, promover sistemas agroflorestais e bioeconomias locais, ampliar o financiamento verde e fortalecer a governança e as capacidades dos atores locais. A cooperação entre os países amazônicos também é considerada essencial para harmonizar políticas, compartilhar informações e enfrentar desafios transfronteiriços.

O que o relatório propõe para o futuro amazônico

O capítulo final do estudo, “Hacia una agenda amazónica compartida: sostenibilidad, inclusión y cooperación regional”, transforma o diagnóstico em cinco frentes de ação.

A primeira propõe reorientar políticas públicas e investimentos para a sustentabilidade territorial. Isso envolve instrumentos de planejamento, crédito, subsídios e compras públicas capazes de favorecer sistemas agroflorestais, agricultura familiar e cadeias da bioeconomia. A proposta inclui também investimentos em infraestrutura e mecanismos de financiamento ajustados às características dos diferentes territórios e produtores.

A segunda frente concentra-se no fortalecimento das capacidades locais e da governança territorial. O relatório defende o reconhecimento e a formalização dos direitos territoriais de agricultores familiares, Povos Indígenas, afrodescendentes e comunidades tradicionais. Também recomenda mecanismos de planejamento participativo, fortalecimento das organizações locais e formação técnica e organizativa adaptada às condições amazônicas. Mulheres e jovens rurais devem participar dessas estratégias de desenvolvimento.

A terceira frente aposta na bioeconomia amazônica como eixo de transformação sustentável. O relatório observa que, embora a Amazônia represente mais da metade das florestas tropicais do mundo, sua participação no mercado projetado de bioeconomia circular para 2030 é de apenas 0,17%. O contraste indica um espaço significativo para ampliar atividades econômicas baseadas no uso sustentável da biodiversidade e na valorização dos conhecimentos locais.

Para isso, o estudo recomenda fortalecer cadeias como as do açaí, do cacau, do cupuaçu, do buriti e da castanha do pará, além de ampliar infraestrutura, processamento local, acesso a mercados e agregação de valor nos territórios. A proposta inclui ainda a aproximação entre universidades, centros de pesquisa, organizações comunitárias e empresas, associada a instrumentos financeiros adequados para apoiar iniciativas de bioeconomia.

A quarta frente trata da cooperação regional e dos sistemas de informação compartilhados. A Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA) ocupa posição importante nessa articulação, ao lado de iniciativas de monitoramento florestal e plataformas de informação regional. O objetivo é produzir metodologias harmonizadas, indicadores socioambientais e sistemas de informação capazes de reduzir as assimetrias entre os países e ampliar a capacidade de análise sobre as dinâmicas econômicas, ambientais e sociais da Amazônia.

Essa cooperação deve avançar também para ações conjuntas diante de problemas que ultrapassam fronteiras nacionais, como desmatamento, perda de biodiversidade e segurança alimentar. O relatório menciona ainda a importância de mecanismos que favoreçam a rastreabilidade de produtos e a proteção de corredores ecológicos e bioculturais compartilhados.

A quinta frente retoma a formulação que dá nome à publicação: produzir para conservar. O princípio orienta uma agenda que combina conservação ativa, restauração ecológica e produção sustentável, com políticas, fluxos financeiros e investimentos orientados pela evidência científica e pelos conhecimentos e capacidades das populações amazônicas.

Uma Amazônia capaz de conciliar produção e conservação

O relatório aproxima dimensões que frequentemente aparecem separadas nas políticas de desenvolvimento amazônico. Seus dados mostram a presença predominante da agricultura familiar nos municípios amazônicos e sua concentração principalmente em áreas onde a cobertura florestal se mantém mais estável. O documento relaciona essa presença a sistemas produtivos diversificados, ao manejo integrado da paisagem e a práticas que podem contribuir para a conservação dos ecossistemas.
O desafio está em transformar esse potencial em políticas públicas, financiamento, infraestrutura, assistência técnica, inovação e segurança dos direitos territoriais. As próprias recomendações do relatório apontam que reduzir as brechas de acesso a serviços e ampliar as capacidades locais é condição para fortalecer sistemas produtivos que já fazem parte da realidade amazônica.

Produzir e conservar, nessa perspectiva, designa uma agenda de desenvolvimento na qual os conhecimentos dos povos e comunidades amazônicas, a agricultura familiar e as cadeias da sociobiodiversidade ocupam posição central. A proposta da FAO é aproximar conservação ecológica e desenvolvimento humano por meio de uma governança territorial integrada, capaz de reconhecer os habitantes da Amazônia como atores estratégicos da segurança alimentar, da resiliência climática e do bem-estar regional.

Baixe aqui o relatório “Producir y conservar: las contribuciones de los agricultores familiares y los Pueblos Indígenas en la Amazonia

Hadad, M.I., Faret, P., Beduschi, L. 2026. Producir y conservar: las contribuciones de los agricultores familiares y los Pueblos Indígenas en la Amazonia. Santiago, FAO.