Blog do IFZ | 28/07/2026
No artigo “Talvez todos devêssemos pagar mais por nossa comida” (Perhaps we all should pay more for our food), Andrew MacMillan e Peter Beeden apresentam uma tese deliberadamente provocativa: os preços baixos dos alimentos, geralmente tratados pelos governos como um benefício econômico e social indiscutível, podem estar na origem de alguns dos principais problemas dos sistemas agroalimentares contemporâneos. Isso não significa defender simplesmente que a comida fique mais cara. O argumento é que os preços pagos pelos consumidores não refletem todos os custos envolvidos em sua produção e consumo. Parte expressiva dessa conta é transferida para os sistemas de saúde, os orçamentos públicos, os trabalhadores rurais, o meio ambiente e as gerações futuras.
Os autores começam reconhecendo um dos maiores êxitos do período posterior à Segunda Guerra Mundial. Em poucas décadas, a produção mundial de alimentos quase quadruplicou, enquanto a população passou de aproximadamente 2,5 bilhões para mais de 7 bilhões de pessoas. Mesmo assim, a disponibilidade média de alimentos por habitante aumentou cerca de 40%. Esse resultado decorreu de avanços tecnológicos, mecanização, irrigação, fertilizantes, pesquisa agrícola e integração dos mercados. Entretanto, a extraordinária expansão da oferta não se traduziu na mesma proporção em melhoria da nutrição, redução das desigualdades ou sustentabilidade ambiental.
À época da publicação do artigo(2014), cerca de 800 milhões de pessoas ainda enfrentavam fome crônica, aproximadamente 2 bilhões sofriam deficiências de vitaminas e nutrientes e pelo menos 1,5 bilhão apresentava sobrepeso ou obesidade. Fome, carências nutricionais e excesso de peso já coexistiam não apenas nos mesmos países, mas, frequentemente, nas mesmas comunidades e famílias. O paradoxo era ainda mais evidente nas zonas rurais: cerca de 70% das pessoas em situação de fome nos países em desenvolvimento viviam justamente onde os alimentos eram produzidos. A política de comprimir preços podia beneficiar consumidores urbanos, mas também reduzia a renda de agricultores e trabalhadores do sistema alimentar, perpetuando a pobreza rural e estimulando a migração.
Ao mesmo tempo, o aumento da produção foi acompanhado por degradação dos solos, contaminação e uso excessivo da água, perda de biodiversidade, desmatamento e pressão sobre os recursos pesqueiros. A agricultura, a conversão de florestas e o desperdício de aproximadamente 30% dos alimentos produzidos respondiam, segundo os dados utilizados pelos autores, por algo entre 25% e 30% das emissões de gases de efeito estufa. Esses impactos não apareciam nas etiquetas dos supermercados. Tampouco eram incorporados os gastos provocados por dietas inadequadas, obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares e outras enfermidades crônicas.
É nesse ponto que MacMillan e Beeden questionam o paradigma dos “alimentos baratos”. Em países como o Reino Unido, a parcela da renda disponível destinada à alimentação havia caído de aproximadamente 55% no início dos anos 1960 para cerca de 12%. À primeira vista, isso parecia uma conquista. Entretanto, preços artificialmente reduzidos podiam incentivar desperdício e consumo excessivo, pressionar a remuneração dos produtores e exigir subsídios públicos para manter atividades agrícolas economicamente viáveis. A sociedade continuava pagando pela comida, mas uma parte crescente dessa despesa aparecia na forma de impostos, gastos médicos, recuperação ambiental e perda de recursos naturais.
A proposta dos autores é substituir a busca indiscriminada por alimentos baratos pelo princípio do preço “integral e justo”. Os consumidores deveriam pagar um valor capaz de remunerar dignamente os diferentes trabalhadores da cadeia e refletir os impactos ambientais da produção, do processamento e da distribuição. Alimentos associados a maiores riscos para a saúde ou a elevadas pegadas ambientais poderiam ser submetidos a tributação progressivamente maior. Insumos usados de maneira excessiva em sistemas insustentáveis, como fertilizantes nitrogenados, pesticidas e combustíveis fósseis, também poderiam ser tributados.
Essa mudança, porém, só seria socialmente aceitável se precedida por uma rede confiável de proteção social. Os autores não propõem expor as famílias pobres à inflação dos alimentos. Ao contrário, defendem transferências monetárias, vouchers e benefícios ajustados em tempo real aos preços da alimentação, além de programas como alimentação escolar, bancos de alimentos e refeições para pessoas vulneráveis. A ideia é separar duas funções que tradicionalmente foram confundidas: os preços devem oferecer sinais econômicos corretos sobre os custos da produção, enquanto a política social deve garantir diretamente o direito de todos a uma alimentação adequada.
Esse raciocínio também contesta a suposição de que alimentos baratos beneficiam automaticamente os pobres. Muitos consumidores de baixa renda são simultaneamente agricultores, assalariados rurais ou trabalhadores das etapas de processamento e distribuição. Preços mais remuneradores, quando transmitidos de maneira equilibrada até a produção, podem mobilizar recursos nas economias rurais, estimular investimentos e gerar empregos. Os autores citam estudos segundo os quais preços agrícolas mais elevados podem, no longo prazo, contribuir para a redução da pobreza, desde que não sejam apropriados exclusivamente por intermediários ou grandes empresas.
Outro argumento importante é que erradicar a fome exigiria um aumento relativamente pequeno da oferta mundial. O déficit médio das pessoas em situação de fome era estimado em cerca de 300 quilocalorias diárias. Para atender 1 bilhão de pessoas, seriam necessários menos de 30 milhões de toneladas adicionais de cereais por ano, quantidade inferior a 2% da produção global e equivalente a apenas uma fração dos alimentos desperdiçados nos países europeus. Portanto, a principal pressão futura sobre a produção não viria da eliminação da fome, mas do crescimento populacional em determinados países, do desperdício e da expansão de padrões alimentares caracterizados pelo consumo excessivo de carne, açúcar, sal e gorduras.
Os autores sugerem, por isso, uma referência nacional próxima de 3.000 quilocalorias por pessoa ao dia. Nos países com consumo excessivo, aproximar a demanda das necessidades fisiológicas exigiria reduzir gorduras, açúcar, sal, carne vermelha alimentada com grãos e desperdício, ampliando simultaneamente frutas e hortaliças. Essa transição diminuiria a incidência de doenças crônicas, a conversão de florestas em áreas agrícolas e as emissões associadas à produção de alimentos.
Os subsídios agrícolas também deveriam ser redirecionados. Em vez de sustentar genericamente a renda ou favorecer sistemas intensivos em insumos, os recursos públicos financiariam manejo sustentável da terra, pesquisa, inovação, conservação ambiental e maior oferta de frutas, hortaliças e outros alimentos nutritivos. Parte da arrecadação obtida com impostos sobre produtos de elevado impacto ambiental ou sanitário poderia custear tanto essa transformação produtiva quanto os programas de proteção social.
Embora publicado em 2014, o artigo antecipa discussões hoje associadas à Contabilidade do Custo Real, ou True Cost Accounting. Essa abordagem procura medir os custos ocultos dos sistemas agroalimentares — ambientais, sanitários e sociais — para orientar reformas em tributação, subsídios, investimentos e proteção social. Isso não implica necessariamente adicionar mecanicamente todos esses custos ao preço final. Significa utilizar uma visão mais completa para decidir quais produtos devem ser tributados, quais atividades precisam ser incentivadas e como assegurar que as dietas saudáveis continuem acessíveis.
A principal contribuição de MacMillan e Beeden é redefinir o que significa eficiência. Um sistema alimentar não é eficiente apenas porque produz grande quantidade de calorias a preços privados baixos. Ele só pode ser considerado eficiente se reduzir o custo total imposto à sociedade, garantir renda digna a quem produz, favorecer dietas saudáveis e preservar os recursos naturais. A pergunta relevante deixa de ser apenas “como tornar a comida mais barata?” e passa a ser “como garantir que todos tenham acesso a uma dieta saudável, sem transferir custos intoleráveis para a saúde pública, o meio ambiente e as futuras gerações?”
Baixe aqui o artigo integral “Perhaps we all should pay more for our food“
